Primeira Página
Sábado, 13 de Junho de 2009, 11h:19
A
A
ENTREVISTA
Desencantado mas não decepcionado
Ex-prefeito de Rondonópolis fala de suas novas atribuições, avalia que o povo não entendeu sua proposta e já compara administrações
RAFAEL COSTA
Especial para o Diário
Ex-prefeito de Rondonópolis por um mandato e empresário de sucesso do agronegócio, Adilton Sachetti tem o desafio de auxiliar o governo do Estado a construir um novo rumo para a política de meio ambiente. Recém-empossado na Secretaria Extraordinária de Apoio e Acompanhamento às Políticas Ambientais e Fundiárias, Sachetti defende nesta entrevista maior consciência da sociedade no trato com o meio ambiente e elaboração de leis que regulamentem a exploração. Devemos ajustar as leis dentro de critérios tecnológicos e científicos e não apenas com base no discurso de que sou favorável ao meio ambiente e não pode mexer em nada, afirma. Derrotado nas urnas mesmo com mais de 80% de avaliação positiva, Sachetti também afirma que se sente desencantado com a política alegando que a sociedade não está acostumada a uma política de resultados, mas ao sistema tradicional que prioriza o tapinha nas costas. Diário de Cuiabá - Qual é exatamente o papel a ser desempenhado pelo senhor no staff do governador Blairo Maggi? Adilton Sachetti - A função será de apoio e acompanhamento às políticas ambientais e fundiárias. Nós vivemos hoje um novo momento no meio ambiente do Estado, onde as políticas ambientais têm necessidade de serem aceleradas, principalmente no processo de legalidade para gerar transformação no meio ambiente. A criação dessa Secretaria Especial vem para trabalhar e fortalecer a Sema (Secretaria Estadual de Meio Ambiente), o Intermat (Instituto de Terras de Mato Grosso) e as relações com o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente). A proposta é contribuir para que dentro da política haja celeridade e seja feito aquilo que foi preconizado pelo governo do Estado com o apoio da Assembleia Legislativa, que é o programa MT Legal. Queremos trabalhar para juntar os interesses, ou seja, a proposta é agregar e fazer com que as coisas aconteçam. Diário - O Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (Inpe) tem destacado que Mato Grosso é um dos principais responsáveis pelos altos índices de desmatamento da Amazônia Legal. Os ambientalistas atribuem essa devastação ao agronegócio. Qual sua opinião a respeito? Sachetti É muito fácil chegar agora e dizer que Mato Grosso está devastando a Amazônia. Nós temos que tecer comentários históricos sobre a ocupação do solo brasileiro. Primeiro no litoral, depois adentrando em todo o Brasil, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul, São Paulo e aí chegar a Mato Grosso. Tem que se analisar o sistema de ocupação das áreas em termos de legalidade fundiária e os termos de ocupação do meio ambiente. Havia uma cultura instalada de ocupação histórica e secular. Há cerca de 30 anos começaram a se implementar leis restritivas à ocupação que foram criadas mas não foram observadas em nenhum lugar do Brasil. Em São Paulo ninguém respeitou um milímetro do que se diz a lei. Não é justo que só Mato Grosso seja apontado como vilão. Afinal o Estado é a última fronteira. Se fôssemos observar há 20 anos, talvez Mato Grosso do Sul ou São Paulo seriam o maior devastador. Ocupação e devastação são coisas diferentes. A derrubada faz parte de uma ocupação. O que se tem acontecido é que de repente resolveu-se cumprir a lei. A partir daí quem estava fazendo ocupações ficou fora da lei. Ninguém aqui está preconizando a ocupação fora da lei e o Estado não pode admitir irregularidade em momento algum. Nós temos um Estado continental e a nossa fronteira agrícola é a de maior extensão porque abrange toda a região Norte do Estado. É obvio que seria a maior área ocupada, mas o que nos interessa é a redução de 90% no desmatamento, que conseguimos se comparado ao ano anterior. Isso é resultado da política pública dos governos federal e estadual. Diário - Então o senhor entende que dá perfeitamente para conciliar os interesses do meio ambiente com os do agronegócio? Sachetti - Plenamente e vejo isso com muita clareza! Mas precisamos modernizar a legislação e avançar na discussão. Não pode haver xiitismo do lado ambiental ou do empresarial. Nós temos que ter o bom senso de ver que temos áreas e o governo de Mato Grosso sai na frente quando coloca em discussão com segmentos sociais o projeto do Zoneamento Socioeconômico Ecológico (ZSEE), que está demonstrando que dá para conciliar preservação e ocupação. Não tem porque numa área fértil com solos de qualidade não se ocupar em detrimento de áreas com baixa fertilidade e sujeitas a erosão. Tem que ter essa discussão e é claro que não podemos desmatar cabeceira e a obrigatoriedade de se fazer os preceitos legais de ocupação. Devemos saber aproveitar o que temos de melhor. Devemos ajustar as leis dentro de critérios tecnológicos e científicos e não apenas com base no discurso de que sou favorável ao meio ambiente e não pode mexer em nada. Temos que ter a grandeza de saber separar ambientes onde se preservem a fauna e a flora, mas saber quais são as áreas que se permite exploração com racionalidade que é respeitar as leis. Mas ainda não temos na população uma consciência do que seja realmente a preservação do meio ambiente. Qual é o compromisso do meio urbano com o meio ambiente? Os rios urbanos estão sendo preservados? Os córregos deste país estão totalmente preservados? A agressão é a mesma! Não se pode derrubar morro para ocupar e nisso também sou favorável. Tem que se ter uma discussão maior de meio ambiente para despertar consciência. Tem que ter racionalidade e ir para uma discussão maior para se construir um novo modelo de meio ambiente. Diário - É primordial então a modernização de leis ambientais. Em que consistiria exatamente esta modernização? Sachetti - Muitas vezes a regra diz o seguinte: tem que deixar uma porcentagem de reserva dentro da sua propriedade. Se você ganha uma propriedade ilhada onde há tudo derrubado, será que vai preservar a biodiversidade ali? Não é muito melhor cuidar daquilo na beira de um curso dágua, ampliando a reserva, interligando com outra e fazendo os corredores ecológicos. Ou num maciço único três ou quatro proprietários fazerem um parque grande de reserva. Isso deve ser discutido! Diário - A origem do senhor, que pertence ao empresariado do agronegócio, permite um diálogo maior com a classe produtora em torno do MT Legal? Sachetti - Dá a oportunidade de conversar. Sabemos que vamos ter enfrentamentos, em todos os setores nós encontramos aqueles profissionais compromissados e outros que são desleixados, ou seja, os bons e maus produtores. Queremos valorizar as pessoas certas e estimular para entrar numa situação legal aqueles que estão em condições de colisão com a lei. Há uma necessidade e uma consciência hoje de que o meio ambiente tem que ser tratado de forma diferenciada. É o momento de nós agirmos e do meio agrícola tomar posição. É o momento do poder ser exercido em benefício da sociedade. Muitas vezes olhamos números e por desconhecimento se acredita que está destruindo tudo. O nosso Estado tem 90 milhões de hectares e o que está sendo usado na agricultura plantando com soja são 6 milhões de hectares. Só as reservas indígena e ambiental, em que ninguém pode mexer, têm 15 milhões de hectares. O Pantanal tem 21 milhões de hectares de área ocupada com outras culturas, como pecuária e outras. Ainda estamos com uma área muito grande. E se de fato exercermos efetivamente uma política ambiental de usufruir o meio ambiente com respeito, teremos ainda muitas áreas preservadas e motivos para nos orgulhar no futuro. Diário - O senhor tem alguma pretensão política para 2010? Sachetti - Há uma possibilidade de ser candidato a deputado federal, mas ainda não tenho opinião formada e estamos apenas discutindo. Acredito que no próximo ano devo atuar como um carregador de piano, contribuindo e trabalhando e com os companheiros que estarão na empreitada. Diário - O senhor diria que seu projeto político depende muito do rumo que o PR tomar? Sachetti - Confesso a você que perdi um pouco do encanto com a política... Diário - Mas quais são os motivos? Sachetti - Pela maneira como a política é feita! Fizemos um trabalho de dedicação e transformação de uma cidade. Na gestão de Rondonópolis, houve esforço para não deixar nada que manchasse a administração. Em quatro anos não houve denúncia alguma porque a cidade foi gerida com cuidado. Preservamos e maximizamos recursos, mudamos o conceito de fazer gestão pública deixando o tapinha nas costas e partindo para a política de resultados. Mas isso infelizmente não foi entendido pela população. Diário - Os analistas políticos alegam que o senhor fez uma excelente administração, mas faltou mais diálogo com os segmentos sociais. Alegam que faltou comunicação. Houve realmente essas falhas? Sachetti Nós viemos com uma nova proposta e este é o modelo da política tradicional, que é prometer e não fazer, tapinha nas costas, isso nunca fiz e não vou fazer! Esse não é a maneira que nós preconizamos a administração pública. Nós nunca mandamos ninguém na frente fazer a organização política para criar o clima. Se havia problemas, trabalhávamos para resolvê-lo e não fazíamos daquilo um elo de sofrimento das pessoas. A função de um administrador é trabalhar para resolver os problemas da sociedade. Infelizmente a sociedade não está acostumada com quem surge para trabalhar. A sociedade ainda espera e no contexto ainda predomina o desenho político antigo, onde tem que ter o levantamento e diálogo. Sempre houve diálogo, mas não teve diálogo político. Nunca fiz reunião para encher lingüiça, lançar o pedido da obra e todas as outras etapas. O tempo que se perde com esses lançamentos de todas as fases dá para inaugurar outras obras em outros bairros. É só medir a quantidade de obras, avanços, conquistas que a sociedade teve. Realmente não fiz essa parte da política tradicional. Diário - Então o senhor não vê como falha? Sachetti - Não! Hoje já dá para comparar as duas gestões. Já dá para saber se essa administração - que tem o tato político todo que foi preconizado que eu não tinha - trouxe os resultados que nós levamos a sociedade. Diário - O senhor se sente injustiçado pelo povo de Rondonópolis? Sachetti Na verdade me sinto desiludido, mas injustiçado não! De alguma forma, o povo reconheceu que a administração era boa! Mas esse amadurecimento político ainda leva tempo para as pessoas perceberem. Agora a sociedade já pode comparar as duas gestões em educação, infraestrutura, saúde, política administrativa. Sinto-me frustrado, mas não injustiçado porque trabalhamos muito. As pessoas reconheceram, mas não entenderam que isso foi merecedor para continuar e devemos respeitar a aprovação popular. Diário A conjuntura atual indica que o PR deve apoiar o vice-governador Silval Barbosa ao Palácio Paiaguás. O PR não perde deixando de lançar uma candidatura majoritária? Sachetti Nós estamos dentro de um arco de alianças que elegeu o governador Blairo Maggi em duas ocasiões. O foco do PR hoje é manter esses partidos agregados. Se houver outro nome de um candidato que mantenha coeso este grupo não vejo problemas em apoiá-lo. Tanto é que Maggi teve como vice-governador Silval Barbosa do PMDB e hoje é um dos candidatos mais fortes deste grupo. Ainda está muito cedo para definir nomes porque não sabemos como serão as composições majoritárias em nível nacional. Mas o PR tem seus nomes também, que são Mauro Mendes, que teve bom desempenho na eleição passada, Luiz Antônio Pagot e Mauricio Tonhá. Mas ainda vamos analisar uma série de fatores.