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Sábado, 27 de Junho de 2009, 13h:06
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CÂMARA DE CUIABÁ
Clientelismo impera no Legislativo
Eleitores recorrem aos vereadores para suprir necessidades; alguns deles estão relacionados a pagamentos de água e luz
JULIANA SCARDUA
Da Reportagem
Apesar da falta de credibilidade que recai sobre a imagem pública da Câmara de Cuiabá, o Legislativo Municipal continua no dia-a-dia a ser o palco do assédio de uma prática nada honrosa o clientelismo. Uma leva de eleitores-fregueses se movimenta todos os dias no vaivém dos corredores da Casa. Em alguns gabinetes, a média diária chega a 20 solicitações, muitos até mesmo esdrúxulos. Ao lado de contas de água e energia, há relatos como a de um pedido de ajuda para encontrar um cantor para a formação de uma dupla sertaneja. O dicionário define por clientelismo a prática política de trocar favores pessoais por votos. Do outro lado do balcão, vereadores rechaçam no discurso qualquer concessão com o dinheiro público. Invariavelmente - e obviamente. Porém, todos admitem que a procura é intensa nos gabinetes. Uma rápida passagem pelo saguão e corredores da Câmara confirma tal comportamento. Alguns atores dessa prática chegam a ser descritos pelos vereadores como pedintes oficiais. Além de causas culturais e sociais explicarem o comportamento, nuances políticas não podem ser esquecidas quando o assunto é a Câmara de Cuiabá. Sucessivos escândalos envolvendo o uso ilegal de dinheiro público na Casa e uma série de denúncias sobre compra de votos durante as campanhas eleitorais também podem explicar o assédio de populares sobre os vereadores. Na atual legislatura, cinco vereadores são alvos de denúncias de compra de votos durante a campanha de 2008: Ralf Leite (PMDB), Domingos Sávio (PMDB), Lutero Ponce (PMDB), Ivan Evangelista (PPS) e Levi de Andrade, o Leve Levi (PP). Os casos de Domingos Sávio e Ralf Leite os processos estão em fase de tramitação na Justiça Eleitoral, mesmo assim, significa que não há culpados ou condenados politicamente. De qualquer maneira, a trama de pedidos de favores pessoais visível na Câmara de Cuiabá não é um fenômeno exclusivo do Legislativo local, conforme destaca o cientista político João Edisom de Souza, mas sim algo arraigado na política brasileira e que possui tanto raízes históricas quanto matizes culturais e até mesmo psicológicas. A mistura disso tudo revela que oposto ao eleitor-freguês, do outro lado do balcão está, em muitos casos, um político que goza do poder, prestígio e da autopromoção que os pedidos de ajuda lhe conferem. O lado de quem oferece os favores é muito confortável. Há algo de divino para quem o faz, embora nessa prática não haja nada disso. Ao contrário, esse costume em amarrar votos é extremamente negativo à consciência social, ressalta Souza. Ele lembra que as relações de clientelismo na política brasileira são históricas, construídas no Brasil Colônia e intensificadas no período pós-escravidão, quando um bolsão de pobreza passou a clamar por empregos e assistencialismo. Somos há pouco mais de 100 anos um Brasil República e temos muito traços monárquicos na cultura, sem contar que muitos políticos gostam de se comportar como verdadeiros monarcas, observa o cientista político. Contudo, ele pondera que não são apenas as camadas mais pobres quem recorrem a essa prática na trama de relações sociais e de poder. O cientista política destaca que existe outra faceta do clientelismo, tão ou mais nociva: aquela que envolve os grupos de maior poder aquisitivo. É aí que se desenvolve o uso irregular de passagens aéreas pagas com dinheiro público, fraudes em concessões públicas a empresas e a manipulação de licitações. Isso mostra que a questão é cultural e que não passa necessariamente por grupos de desfavorecidos. E revela ainda outra coisa: Que os políticos se alimentam desse parasita cultural que nós, sociedade, temos, alerta o analista.