POLÍCIA
Sábado, 14 de Março de 2009, 14h:27
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Vítima de violência juvenil tem opinião contrária à lei
EDUARDO GOMES
Da Reportagem
Chuva forte e vento. O Corolla avança pela rua deserta, do bairro Santa Rosa, por volta de 22 horas, de um sábado de fevereiro, com um casal a bordo. Pára defronte uma casa. O portão eletrônico é acionado pelo motorista. Lentamente a folha de latão abre passagem. O carro entra e três homens surgem não se sabe de onde. Invadem sorrateiramente a garagem. Quando as portas do veículo se abrem, a surpresa: assalto. Dois integrantes do trio apontam armas para o motorista e sua mulher e acompanhante. Um permanece distante, vigiando a retaguarda. Outro do grupo empurra o casal para o interior da casa. Ameaças e xingamentos criam clima de terror. Os bandidos se revezam no saque às bebidas da geladeira. Querem dinheiro, jóias, tudo que possam vender com facilidade. O motorista do Corolla e dono da casa pede calma, tenta argumentar. A reação de um dos assaltantes é violenta: desfere uma coronhada na sua cabeça e manda que fique de bico calado. O sangue escorre. A mulher chora. O mesmo agressor rasga sua blusa, a arrasta para o sofá. Acontece o pior sem que o marido possa reagir. Após o saque, os três saem no Corolla. Deixam o casal humilhado, vencido, impotente, sem chão. Ao amanhecer a polícia localiza o carro, depenado. A polícia encontra o trio. Dois são menores. Dias depois, estão em liberdade. Três meses depois, numa tarde de quarta-feira, o mesmo motorista está absorto em pensamentos, ao volante no estacionamento de um shopping, enquanto sua mulher compra o sorvete preferido pela filha de 10 anos. Um dos assaltantes se aproxima e lhe deixa com frio na espinha e a garganta seca. O bandido olha para o homem que fora sua vítima. Ó mano! começa um rosário de ironias. Diz que sabe onde seus filhos estudam. O bandido exige quinhentos reais. Seu argumento é forte: o cano de um revólver encostado na cabeça do homem, que não tinha essa importância. Alguns minutos depois, que pareceram eternidade, a mulher chega ao carro. Vê a cena, entra em crise. Chora, soluça, perde o fôlego. O marido sai calmamente deixando-a com o assaltante. Vai ao caixa-eletrônico. Volta com o dinheiro. Nem um pio, adverte o bandido ao sair com a grana no bolso. O assaltante foi o mesmo que arrancou a blusa da mulher. Detalhe: não se tratava de um bandidão. Não passava de um pirralho, grenho, com uma surrada camisa larga, sob a qual escondia a arma, e calçando chinelos. O bandido pirralho era figura conhecida no mundo do crime por um desses apelidos tão comuns citados nos noticiários policiais. Tinha 16 anos e inúmeras passagens pela polícia. Na capa de uma edição domingueira o alívio do casal do Santa Rosa. O assaltante pirralho morreu numa briga de gangues. Quatro anos depois da noite chuvosa em que sua vida mudou, o homem vítima daquela violência praticada e comandada pelo menor grenho narra esse fato, sob anonimato. Antes da entrevista, ao saber do projeto que pede mais brandura ao Estatuto da Criança e do Adolescente, franze a testa. Num monólogo curto, resumiu seu sentimento: É sempre assim!.