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POLÍCIA
Sábado, 15 de Agosto de 2009, 12h:51

‘MÃOS AO ALTO’

Famílias relatam trauma após invasões

Vítimas de sequenciais assaltos a residências na região da Grande Cuiabá vivem não só a frustração dos bens perdidos, mas uma ‘avalanche’ psicológica

RENÊ DIÓZ
Da Reportagem
As famílias que passam por situações de violência na própria casa carregam consigo não só a frustração de ter o patrimônio perdido. Não raro, as vítimas de episódios tão traumáticos saem mais prejudicadas do que se imagina, portando o medo, a ansiedade, a insônia e até manias de perseguição. Cada qual à sua medida, estes são sinais manifestados por uma série de pessoas cujos lares foram recentemente violados pela crescente violência na região de Cuiabá e Várzea Grande. Quando a empresária Cristiane Dorilêo, de 33 anos, teve sua casa invadida por cinco bandidos durante a festa de aniversário de sua sobrinha, no bairro Duque de Caxias, apegou-se somente à vida e nada mais. Tanto que, em meio às armas apontadas e às ameaças de morte, a empresária, que nunca havia passado por situação semelhante, tentou fazer o possível para mostrar aos bandidos que eles podiam levar tudo, desde que não amedrontassem os outros adultos e as cerca de 20 crianças da festa. Afinal, como relata a empresária, “é terrorismo o que eles fazem”. E o episódio violento inspirou nela mais do que a preocupação rotineira de evitar usar coisas muito chamativas na rua, por exemplo. Hoje, passado mais de um mês daquele dia, Cristiane tem a impressão de que está sendo seguida a todo instante em que põe os pés na rua. Já no fim de julho, e num local bem distante do Duque de Caxias, outra família sofreu nas mãos da violência em sua própria casa. Após viver por quatro anos no Japão juntando recursos para voltar com mais qualidade de vida no Brasil, mais especificamente no bairro cuiabano Santa Isabel, a família Yamashita foi surpreendida em casa pela truculência de sete assaltantes. Não satisfeitos com cerca de R$ 20 mil tomados do patrimônio da família, os bandidos chegaram a espancar o senhor Luis Yamashita, de 63 anos, que nunca havia passado por terror igual. Perduram ainda as dores no pulso inchado, mas o pai de família também foi jogado ao chão, socado nas costas e no rosto, levou dois cortes na cabeça e foi amarrado de bruços junto à esposa Selma, de 55 anos. Ficaram assim até a chegada de Gilmar, 25 anos, filho do casal, que chegou com a esposa Francelena, 27, e o pequeno Gilmar, seu filho de 5 anos, que não entra mais naquela casa e se recusa até hoje a abrir a boca para comentar o que presenciou ali. Quando chegaram, os bandidos surpreenderem os três com espingardas ainda no carro, amarraram-nos e ameaçaram-nos até terminarem a “limpeza” da casa. Gilmar se soltou das cordas e o resto da família, após os bandidos abandonarem o local. Hoje, os Yamashita se encontram longe dali, numa outra residência em Várzea Grande, mas ainda não conseguiram se ver livres dos vestígios da violência sofrida, porque a memória daquele episódio é nítida demais. E, para uma criança como o pequeno Gilmar, nunca se sabe até que ponto a lembrança o incomoda. O garoto mal encara os olhos de um estranho, mostra-se apático e silencioso. Mais duros na queda, os homens da casa – seu pai Gilmar e seu avô Luis – voltam seus sentimentos para a indignação e a raiva. Já as mulheres da família, Selma e Francelena, não escondem o abalo. “Um negócio que cai no chão e aquele barulho mexe com meu emocional todinho. O escuro está me dando medo”, relata Francelena, em constante estado de vigília e sem conseguir dormir direito desde que tudo aconteceu. Para Selma, a família ainda não conseguiu superar a violência que ocorreu. A qualidade de vida caiu muito desde então, e não só por conta da perda do patrimônio. Os hábitos de todos hoje são outros, por exemplo. Além disso, os integrantes da família sentem que as pessoas do bairro lembram do que lhes ocorreu, o que é mais um motivo para a memória vir à tona.

Edição EDIÇÃO 16967




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