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POLÍCIA
Domingo, 06 de Setembro de 2009, 01h:10

GOLPES NA PRAÇA

Casos de estelionato abarrotam delegacias

Quase sempre as ocorrências resultam em nada, porque prescrevem ou as investigações nem chegam a ser concluídas. Ação de falsários vira entulho

ALECY ALVES
Da Reportagem
O estelionato, crime em que a capacidade de ludibriar é a principal arma do criminoso, abarrota as delegacias de polícia de Cuiabá e Várzea Grande com boletins de ocorrência e montanhas de inquéritos que na maioria das vezes prescrevem e não resultam em nada, porque nem chegam a ser concluídos. É surpreendente o número de queixas de vítimas de golpes aplicados por falsários registradas nos principais Centro Integrados de Segurança (Cisc), como dos bairros Verdão e Planalto. Cada uma dessas unidades policiais é procurada semanalmente por uma média de 50 pessoas e empresas que tiveram documentos (contratos de imóveis, pessoais, empresariais), cheques roubados ou foram vítimas diretas de golpes. A delegada do Núcleo de Estelionatos do Cisc Verdão, Valéria Pimenta, tem sob sua responsabilidade pouco mais de 1 mil inquéritos e BOs abertos para investigar a atuação de falsários. Ano passado, quando respondia pelo mesmo setor no Cisc Planalto, Valéria chegou a acumular 2 mil processos. O estelionato é um crime em mutação permanente. Na era moderna, o telefone celular e a internet passaram a ser grandes aliados dos criminosos, embora algumas modalidades de golpes antigos perdurarem por muitas décadas, como a venda de bilhetes “premiados” de loterias. O delegado Miguel Rogério Gualdas Sanches, do Cisc de Várzea Grande, diz que a ambição das vítimas, alimentada pelo desejo de levar vantagem em alguma negociação, contribui para a atividade dos golpistas. Gualdas Sanches se recorda do caso que acompanhou ano passado em Cuiabá, em que uma mulher de classe alta, com formação superior, “investiu” o equivalente a R$ 300 mil na compra de um bilhete de loteria “premiado”. A “vítima” entregou jóias, dólares e moeda corrente do Brasil, para ter em suas mãos o bilhete que lhe asseguraria um prêmio de mais de R$ 2 milhões. No Cisc Verdão, onde Sanches trabalhava, havia pelo menos outros cinco registros de golpes com perda de valores que variam de R$ 100 a 150 mil. Nos casos de estelionatos, as vítimas compartilham de um sentimento: vergonha. Quando percebem que foram enganadas, tendem a se recolher e evitar aparição pública. Foi isso que aconteceu com a microempresária M.O.A, 48 anos, moradora de Várzea Grande. M. saia de um banco quando uma mulher a abordou pedindo ajuda para ler um endereço. Se dizendo analfabeta, mostrou um cheque e um nome de rua onde deveria encontrar a pessoa que a acompanharia ao banco. M. concordou em levá-la no local apontado no papel e lá acabou sendo ludibriada. Retornou sem os R$ 2 mil que havia sacado e sem entender o que ocorrera naquele dia. Ela sequer registrou queixa na polícia. Semana passada, um novo golpe aplicado via telefone surgiu em Cuiabá, prometendo ganhos significativos aos menos avisados ou mais ambiciosos. O alvo principal pode ser os aposentados da Previdência Social. A servidora pública municipal Jandira Pedrollo recebeu um telefonema estranho originário de um celular de fortaleza (DDD 85). Um homem que se identificou como doutor Olavo Novaes disse que Jandira tinha direito a receber do INSS R$ 38 mil referentes a perdas acumulados no “Plano Collor”, além de um benefício de dois salários mínimos ao mês durante 10 anos. Para ter acesso a essa “bolada”, ela teria de pagar, depositando de imediato, R$ 996,75. No meio da conversa, ao fazer algumas perguntas, Jandira deu a entender que sabia que se tratava de golpe e o homem desligou o telefone. Jandira contou que sua intenção era obter o maior número de informações possível para apresentar queixa na polícia ou dar publicidade ao golpe como forma de proteger outras pessoas da ação dos bandidos.

Edição EDIÇÃO 16967




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