MUNDO
Segunda-feira, 05 de Julho de 2010, 20h:31
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JORNALISTAS
Ditador não permite perguntas a Lula
Apesar do constrangimento, o ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, defendeu a visita de Lula ao país africano. "Negócios são negócios", disse
LEONENCIO NOSSA,
Enviado especial AE - Malabo (Guiné Equatorial)
Em sua visita à Guiné Equatorial, na costa africana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva cumpriu a lei de silêncio imposta pelo ditador Teodoro Obiang Nguema Mbasogo. Na entrevista coletiva marcada para a manhã de ontem, o cerimonial do governo local não permitiu perguntas dos jornalistas. Todos as cadeiras da sala onde o evento ocorreu, num espaçoso palácio de mármore e lustres de cristal, foram ocupadas por diplomatas, assessores e seguranças. Sentado numa poltrona ao lado de Lula, Mbasogo, que está no poder desde 1979, fazia questão de ostentar um relógio de ouro, cravejado de rubis e diamantes. Ali, os dois ouviram um burocrata do governo da Guiné ler uma declaração ressaltando a visita "histórica e transcendental" do presidente brasileiro. Depois da "coletiva" sem perguntas e respostas, Mbasogo ofereceu um requintado banquete para a comitiva de Lula. Os jornalistas brasileiros não aceitaram o almoço. Reformado com dinheiro de empresas de petróleo dos Estados Unidos, o palácio presidencial chama a atenção pelo piso de mármore nas cores azul, amarelo, branco, preto, vermelho e verde. Iluminado com lustres de cristal e ostentando portas com detalhes dourados, a construção serviu no passado colonial de sede para os representantes da coroa espanhola. AMORIM DEFENDE Apesar do constrangimento, o ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, defendeu a visita de Lula ao país africano. "Negócios são negócios", disse, classificando de "pregação moralista" as referências da imprensa aos crimes contra os direitos humanos atribuídos ao ditador. "Não estamos ajudando nem promovendo ditadura", disse Amorim. "Quem resolve o problema de cada país é o povo de cada país." Na opinião do chanceler, democracia não se impõe e ressaltou a importância do comércio com a ditadura de Mbasoso, financiada com dinheiro de empresas de petróleo dos Estados Unidos. "O exemplo tem mais força que a pregação moralista", afirmou, sem entrar em detalhes. "Negócios são negócios. Acho que a gente tem de trabalhar normalmente. Estamos num continente onde os países ficaram independentes há pouco tempo", completou. "Isso é uma evolução que tem a ver com a sociedade e com a política." Na Guiné Equatorial, a família Mbasogo comanda não apenas o Estado, mas a economia. O hotel da rede Sofitel em que Lula passou a última noite pertence a Mbasogo. No pequeno país, não há divisão entre as finanças do Estado e do clã. Os recursos das exploradoras de petróleo, que começaram a chegar ao país nos anos 1990, não resolveram o problema da miséria. Estima-se que 60% da população vivem na pobreza.