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Cuiabá MT, Segunda-feira, 22 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 19 de Maio de 2012, 12h:47

CRÔNICAS

Viola de Cocho e musicalidade libertina

O que têm a dizer/escrever neste domingo de maio Juliana Curvo, Luís Gonçalves e Valéria del Cueto é o que você está quase descobrindo nesta página. Vá em frente...

Luís Gonçalves*
Especial para o Diário de Cuiabá
Por ser fruto do meio em que vive o indivíduo assume a postura de auto-reciclagem do próprio modelo inventivo, vivido. Refletindo na continuidade da composição vindoura. Interferindo sendo oxigenado. Sugerindo entendimentos surreais dos caminhos participativos que percorrem o universo inventivo autóctone. Infinitas compreensões da própria realização criativa. O envolvimento cultural constrói vertentes que descrevem eternas releituras. Produzindo contrastes simultâneos. A partir de um núcleo criativo é possível observar ecos que se propalam em grupos diferenciados. A cultura popular é um pranto de choro e mazela que diverte, alegra e compõem diversas outras facetas. Para se resumir numa escuta cuidadosa do próprio habitat natural. As canções que permeiam a rotina do pantaneiro exprimem gritos da própria alma eloquente. A viola de cocho é um instrumento que desde a confecção até a execução grita uma musicalidade libertina. Fadiga de peito sofrido que exige afago de uma canção que nunca termine. O próprio visual do instrumento é um esplendor de linhas retas e curvas. Delineando uma composição artística que só faz sentido através da poesia. Versos chanfrados em cutiladas certeiras. Esculpida em um pedaço de madeira manhoso que toma rumo a partir do fino corte do machado e posteriormente de um bom facão. Pinceladas ardentes que desnudam a cor da madeira amarrotada em novelos de cernes macios. Desenham a performance delicada cravejada em uma silhueta de ondas crespas e afuniladas. Um prato de belas maneiras carcomido pelas colheradas que daninham suas entranhas. Deixando uma fome suave de emoção. Que será preenchida com a música. Sendo ela religiosa ou profana. Na roda do Cururu chora sua profissão de fé amasiada a trovas curtas da lida. A crença no santo da devoção ou do padroeiro do lugar. Reza avulsa no encanto dos ritmos entoados na função. Canto da alma fiel que louva o humilde sagrado. Um encontro de canto e suplício. Que encanta em sonhos de poesias livres e repentes que tropeçam em fatos de rumos distantes. Toadas que envolve de alegria o altar. Antro de louvor e sacrifício que a ladainha, velha herança do Latim, referencia em minutas de reza fervorosa. O artista mergulha em mistério de cântico sagrado moldando a postura humana de crença e louvor. Um corpo esguio que semeia a destreza de quem se equilibra em pequena canoa de um pau só. Desliza em terreiros de chão batidos pela sola de couro cru. Espreitando as belas silhuetas das morenas faceiras que serena suas graças na melodia vadia do garboso alaúde. O “baixão” lança o suave acorde que entoa no ar a breve pergunta: “De onde que você vem/pra onde que você vai?” Num júbilo de incrível alegria e total leveza. Semeando belos passinhos miudinhos vem à esfuziante resposta: “Eu venho de São Luís/vou pra casa do meu pai”. Uma viola lavrada a fio do facão. Chora os acordes nos braços humildes do cantador. Devoto de um altar de oração. Perdida numa noite de festa e louvor. Lindas mulheres formosas cobertas de rosas e chitas. Elementos que se misturam em composição simples e única de valores artísticos em complexos movimentos. Damas e cavalheiros em danças provocantes. Eterna busca de harmonia que balança entre a sedução da dança profana e a melodia que encanta. Arte e artistas segregados em profundo prazer cultural. Reinventando a própria origem inventiva. Em rodas que escapam sorrisos e gestos faceiros. Entoando versos de prantos sofridos. Trovas de eternos casos de amor. Momentos que balançam, mas não caem. De sonhos que brilham em plena noite de luar. Amantes de uma viola impressa num tronco de uma madeira macia. Atada por tripa de ouriço. Colada na cultura ribeirinha com um bom bocado de poca de peixe. *Luís Gonçalves é publicitário, escritor e colabora com o DC Ilustrado ([email protected])

Edição EDIÇÃO 16967




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