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ILUSTRADO
Terça-feira, 25 de Junho de 2013, 20h:18

CINEMA

Viagem do capitão Tornado

O obra de Ettore Scola é uma saudação ao teatro itinerante e revela o poder da arte como força transformadora diante das dificuldades da vida

A Viagem do Capitão Tornado, (Il Viaggio di Captain Fracassa, 1990), do diretor italiano Ettore Scola é a atração dos CineSesc nesta quinta-feira, 27. O filme, uma fantasia cheia de humor, música, romance, drama e erotismo é uma prima e uma ode a paixão e ao teatro. Com entrada gratuita, o filme tem sessão às 19h30 e repete a dose no sábado. A trama se passa na França do ano de 1774. O último e faminto herdeiro da família Sigognac deixa o castelo de seus ancestrais para acompanhar um grupo de atores itinerantes, a caminho da corte do rei. Seduzido pela bela Serafina e pelo amor de Isabelle, o jovem Sigognac dará início a suas aventuras mas, no decorrer da difícil viagem, é a ingênua Isabelle que lhe conquista o coração e por ela Sigognac enfrentará seus maiores desafios. A pedido da amada, Sigognac vence sua timidez e se inicia no teatro, descobrindo neste, sua verdadeira paixão. A trama traz ecos do excelente “Rosencrantz e Guildenstern Estão Mortos”, de Tom Stoppard - ambos os filmes usam artistas itinerantes para explorar a condição humana. O ótimo “Noites de Circo” de Ingmar Bergman também vem à mente, embora o tom sombrio deste seja em Scola, substituído pela sátira. Infelizmente, A Viagem do Capitão Tornado, consiste num filme relativamente pouco conhecido do gênio italiano Ettore Scola - subestimado diretor, diga-se de passagem. Trata-se de uma refilmagem de uma película dos anos vinte, realizada pelo diretor Alberto Cavalcanti, baseado na célebre obra de Théophile Gautier. Sem dúvida, este trata-se de um dos melhores trabalhos de Scola, cujo grande elenco (os italianos Massimo Troisi e Ornella Muti, os franceses Emmanuelle Béart e Vincent Perez, dentre outros) eleva ainda mais este fantástico filme de época. Com certeza, o falecido Massimo Troisi rouba a cena com sua maravilhosa atuação como Pulcinella, o pallhaço. O filme é muito bem dirigido por Ettore Scola, que coordena com maestria o tom satírico do enredo com um saudosismo por uma época que jamais voltará, além de indicar no final, o começo do declínio desta forma de fazer teatro, com a figura do “diretor” (e, consequentemente, com a departamentalização de funções no teatro) emergindo e lentamente sufocando toda aquela liberdade artística e saudável irresponsabilidade geral. A mistura de franceses e italianos no elenco também destaca esse lado “multinacional” dessas famílias de atores da época, e as presenças de Ornella Muti e Emmanuelle Béart (belíssimas como sempre) não só enriquecem o filme como mostram que as mulheres tinham o seu nicho na “commedia dell’arte”, sendo as únicas da companhia a não usarem máscaras nas apresentações, o que até ajudava a atrair atenção do público (e dos nobres) ao irem às peças para admirarem a beleza dessas atrizes. Diga-se de passagem, é curioso notar como vários aspectos da “commedia dell’arte” são observados no cinema e na TV comercial atual (exposição da beleza feminina, inserção de atores dentro de certos “moldes”, fiapos de enredos batidos e previsíveis sendo usados em comédias, etc.), uma mostra de como este fenômeno teatral foi influente na cultura ocidental como um todo. Visualmente a película também é um deleite, com sua curiosa mistura de cenografia teatral e realismo. Seu elegante e bem redigido roteiro, além de divertido, nos oferece momentos de sutil sabedoria. Uma verdadeira homenagem ao teatro itinerante, bem como seus heróicos artistas.

Edição EDIÇÃO 16962




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