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ILUSTRADO
Sexta-feira, 10 de Julho de 2009, 19h:35

DVD

'Van Gogh' de Pialat revela a intensidade da vida do artista

Luiz Carlos Merten
Agência Estado
Num verbete curto de seu Dicionário de Cinema, o crítico e historiador Jean Tulard decifra o mistério. Maurice Pialat nasceu em 1925, morreu em 2003. Ator e pintor, ele fez da busca da autenticidade a pedra de toque de seu cinema. Filmes e personagens são construídos à flor da pele. Em 1987, com "Sob o Sol de Satã", ele recebeu, embaixo de vaias, a Palma de Ouro em Cannes. Em 1991, fez de Jacques Dutronc o seu Van Gogh. Pialat dizia que o cinema é a verdade do momento em que se está filmando, o que é uma maneira diferente de conceitualizar o cinema como ‘a verdade 24 vezes por segundo’, de Jean-Luc Godard A cinebiografia talvez mais acadêmica, mas com esplêndido uso da cor, de Vincente Minnelli - "Sede de Viver", dos anos 50 -, pode até ser melhor, inclusive porque Kirk Douglas, a despeito de todos os seus grandes papéis, parece ter nascido para ser o pintor. Mas o Van Gogh de Pialat é intenso, perturbador. Aquela força pode ter nascido de um momento particular da vida do próprio Pialat, mas com certeza não foi acidental. Como o cinema trabalha o quadro, críticos buscam com frequência analogias entre o cinema e a pintura. Existem muitas aproximações possíveis - e o brasileiro Júlio Bressane é um apaixonado pela pintura, pelo ‘quadro’, o plano, como unidade de montagem. Bressane pesquisou centenas de quadros para fazer a sua Cleópatra. Pialat pesquisou os quadros de Van Gogh, mas o que ele quer colocar na tela é a febre de viver (e pintar). Podem-se fazer outras analogias, com aquele pintor coreano de "Bêbado de Mulheres e Pintura", de Im Kwon-taek. Com "O Mistério Picasso", de Henri-Georges Clouzot, de 1956, também disponível em DVD (lançado bem antes de Van Gogh). Clouzot era um dos diretores da qualidade francesa que a nouvelle vague adorava fustigar, mas vários de seus filmes estão obtendo reconhecimento, até mesmo entre críticos que antes lhe eram hostis. "O Mistério Picasso" sempre foi a exceção de sua obra. Houve um imediato reconhecimento de que se tratava de sua obra-prima, de uma obra-prima. Entre os muitos significados da nouvelle vague, o menor não terá sido o de inaugurar, no cinema francês do fim dos anos 50, um cinema do ‘corpo’. Jean-Paul Belmondo, Jean-Claude Brialy, Jean-Pierre Cassel e as musas Jean Seberg, Anna Karina e Juliette Mayniel se moviam com naturalidade diante das câmeras, que eram portáteis e captavam o som direto para melhor segui-los nas ruas, naqueles filmes que colocavam na tela a cara da juventude francesa, como reação ao cinema e à sociedade de velhos que era a França, por volta de 1960. Clouzot decifra o mistério ao mostrar a energia, o corpo, a febre de Picasso ao pintar. Van Gogh está de novo no centro das discussões. Pesquisas recentes contestam o mito da automutilação. Em Auvers-sur-Oise, em seus três últimos meses, o Van Gogh de Pialat pinta, anda nos campos de girassóis, vai a um baile popular, discute arte. O mito é dessacralizado, Van Gogh é visto da cozinha, como escreveu "Libération", na época. Pode ser árduo, mas é poderoso. Serviço "Van Gogh" - França, 1991 Direção de Mauricwe Pialat, com Jacques Dutronc DVD da Versátil, R$ 37,50

Edição EDIÇÃO 16961




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