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ILUSTRADO
Sexta-feira, 03 de Fevereiro de 2012, 19h:06

CRÔNICA

Urgência no trânsito

Juliana Curvo
Especial para o Diário de Cuiabá
Engarrafamentos além de atrapalhar, atrasar, podem servir para muita coisa, como escutar música, lembrar das contas para pagar, ou da vida inteira para se arrepender. Mas, meu filho, que tem apenas quatro anos e às vezes me faz perguntas sobre coisas tão sérias, que poucos adultos (estou sendo generosa) já fizeram, fez de um engarrafamento algo único. Ele escutava uma música enquanto estávamos parados na Isaac Póvoas e me perguntou se o meu peito já tinha se aberto, se rasgado, em algum momento. Eu, sem muito refletir, disse que sim. Quando? Ele perguntou na sequência. Sem querer prolongar, eu disse que em vários momentos. Doeu? Em algumas vezes, acho que sim, respondi tentando simplificar. A música acabou, começou outra e o trânsito fluiu. Ele se esqueceu, ou mudou de assunto, e eu continuei pensando no peito aberto, rasgado, nas vezes que doeu. Eu não escrevo bem. Para ser bem honesta, contabilizo uns cinco poemas, uns seis contos, várias frases soltas e roteiros de filmes, anotados em pedaços de papel ou caderno. Ostento, sustento, uma fotografia da Clarice Lispector na minha sala, mas não li toda sua obra. Gosto do Caio Fernando Abreu e acho que o escrito por mim é uma cópia barata e simplista de uns três ou quatro contos dele. Eu não escuto música enquanto escrevo, mas minto que sim. Aliás, minto bastante. Melhor: invento muita coisa, na tentativa de alcançar o invisível. O problema é que a primeira vez que eu escrevi, eu quis que o meu peito se rasgasse, estivesse aberto. Eu queria que doesse, que sangrasse, que me machucasse. Eu achava que era preciso desespero para fazer literatura, ou que se morria em cada poema/letra/palavra/conto/oração. E daí, eu já havia saído do trânsito e escutei uma amiga dizendo que não gostava de textos virgens. De quem parecia que não se entregava, se jogava, se dava. O escrito podia ser bonito como em um manual, mas e a urgência da inutilidade?, da declaração de amor desesperada, do "eu preciso falar agora que eu te amo", mesmo que a outra pessoa já tenha compromisso, mesmo que você esteja sendo ridículo. Aliás, ser ridículo seria um ponto necessário. Ser desequilibrado, prolixo, romântico, confuso, humano e limitado. A beleza do que ultrapassa a barreira e vai, rasgando, abrindo peito, plataformas, ruas, esquinas. Eu fui no mesmo dia, pelo mesmo trajeto, mas de volta para casa. Tive que pegar outro tipo de engarrafamento, próximo a Praça Popular, para eu conseguir chegar em casa. Pensei: Quantos de peito rasgado, ou aberto, atravancavam o meu caminho? Quantos olham para o passado agora? Quantos não são perfeitos e equilibrados? Quantos têm urgências inúteis e não têm pressa de sair de um engarrafamento, mesmo se estiver cansado e com vontade voltar para casa? E havia gente gritando na esquina e quem vai poder dizer se isso era urgência no trânsito, ou a inutilidade e beleza do desequilíbrio? Acho que desta vez, estive, escrevi, com mais perguntas do que o habitual, mas sempre na tentativa de dar conta das minhas emergências (começando com o término da sua leitura). *Juliana Curvo é pesquisadora em artes, míope, mãe, problemática, escreve mais do que lê, gosta de colecionar coisas velhas e colabora com o DC Ilustrado.

Edição EDIÇÃO 16969




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