ILUSTRADO
Terça-feira, 22 de Janeiro de 2013, 20h:43
A
A
RESENHA
Uma obra que é capaz de mudar a realidade
Um conto cheio de ensinamentos que conseguem alterar a nossa forma de ver o mundo. Um texto que é pequeno, mas apenas em sua dimensão física
Jacir Alfonso Zanatta*
Especial para o Diário de Cuiabá
Um livreto que responde aos anseios do leitor moderno que anda sem muito tempo para ler. Mas, não se enganem. Este opúsculo é pequeno apenas no tamanho. Esta não é uma obra para ser lida, mas para ser digerida e saboreada. Ela deve ser vista como um presente, ser tratada com cuidado e zelo. Lembrando Carlos Heitor Cony numa palestra proferida em Campo Grande em 2002, defendo que estas 62 páginas de O conto da ilha desconhecida de José Saramago, sem dúvida nenhuma, serve para matar a fome dos peixes de águas rasas, mas também é alimento que pode saciar os peixes de águas mais profundas. Impossível ler este opúsculo e não lembrar do conto de Ítalo Calvino Um general na biblioteca. Sem dúvida, um complementa o outro. Enquanto Calvino mostra as transformações, muitas vezes invisíveis que vão acontecendo quando as pessoas adquirem conhecimento, Saramago levanta outra possibilidade, a de não acreditarmos que exista algo a ser adquirido ou mesmo conquistado. O conhecimento é a ilha desconhecida que jamais conseguiremos conquistar por completo, sem, no entanto, desistir de buscar. O segredo não está na ilha, mas no caminho que vamos traçar para chegar até ela. Saramago (1996, p. 56-57) vai além: a ilha desconhecida é coisa que não existe, não passa duma ideia da tua cabeça, os geógrafos do rei foram ver nos mapas e declararam que ilhas por conhecer é coisa que se acabou desde há muito tempo.... É de arrepiar. Esta frase é a essência do livro. Quantas vezes deixamos de ir atrás de um sonho porque algum expert nos fez acreditar que era loucura e que muitos já tentaram e não conseguiram? Algumas vezes estamos do outro lado e nos tornamos sabichões aconselhando um amigo aqui, outro ali sobre o que devem ou não buscar. A relação deste conto com o conhecimento é simplesmente magnífica. Enquanto lia este livro lia este livro, pensava nos meus alunos que se empolgavam com as minhas aulas (ilusão de ótica de um professor emocionado) e vinham com propostas mirabolantes de novas teorias que respondessem a todos os problemas da comunicação. Por inúmeras vezes fiz com que acreditassem que não existem mais ilhas desconhecidas. A eles peço perdão pelos estragos cometidos. Nesses devaneios causados por este livreto, sou obrigado, para meu consolo e alívio de minha consciência invocar Saramago (1996: 27) é estranho que tu, sendo homem do mar, me digas isso, que já não há ilhas desconhecidas, homem da terra sou eu, e não ignoro que todas as ilhas, mesmo as conhecidas, são desconhecidas enquanto não desembarcamos nelas. Hoje, já não posso ignorar que todos os caminhos podem nos levar ao conhecimento. É um longo percurso, uma aprendizagem diria eu, aprender a respeitar o tempo de cada um na construção e aquisição do saber. Mesmo que alguns insistam em afirmar que não existem mais ilhas desconhecidas, precisamos arriscar. A busca do conhecimento nos leva a perder o sossego. O conhecimento por si só é uma aventura, assim como a leitura. Confesso que não entendo como um livro tão pequeno faz um estrago tão grande. A gente muda, se transforma e descobre que a ilha desconhecida está dentro da gente. Que cada leitor é uma ilha desconhecida e que é necessário sair dela para vê-la melhor, que não nos vemos se não saímos de nós, do nosso egoísmo. Defendo em sala de aula que o conhecimento é a única coisa que jamais conseguirão tirar de nós. Buscando incentivar meus alunos na aquisição do saber e na criação do hábito de leitura, digo a eles que num país como o Brasil, de economia e política instável, eles podem perder os bens imóveis que conseguirem adquirir. Que algum assaltante pode roubar bens móveis que adquiriram com tanto sacrifício. Vou um pouco mais longe e afirmo que pode acontecer de até perderem a dignidade e a liberdade, mas ninguém jamais conseguirá tirar deles o conhecimento que adquirirem durante os anos de estudo. O mais engraçado disso tudo está no fato de que o conhecimento é uma das poucas coisas, se não a única que quanto mais você doa, mais você adquire. Se estou aberto a novos horizontes, busco novas ilhas e também portos (não tão seguros) percebo logo que é na partilha com os outros que aprendo e construo meu pensamento e minha forma de ser. Por isso, mestre é aquele que de repente aprende, e não só o que ensina. Sendo assim, percebo que a maior lição deste opúsculo está no fato de nos mostrar que a ilha desconhecida existe, depende de você encontrá-la... *Jacir Alfonso Zannata é jornalista radicado em Campo Grande (MS) e colabora com o DC Ilustrado SERVIÇO SARAMAGO, José. O conto da ilha desconhecida. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. 62p.