ILUSTRADO
Sábado, 06 de Junho de 2009, 16h:22
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LITERATURA
Uma obra infantil de William Faulkner
O escritor americano adorava contar histórias para crianças e A Árvore dos Desejos foi escrito depois de demitido da agência de correios porque lia demais
Ubiratan Brasil
Agência Estado
Em 1927, quando escreveu o livro infantil "A Árvore dos Desejos" (Cosac Naify, tradução de Leonardo Fróes, 56 páginas, R$ 42), o escritor americano William Faulkner ainda não existia para a literatura - seu currículo literário incluía apenas edições de poesia e o primeiro romance, "Soldiers Play". Mais alguns anos e Faulkner escreveria obras como "O Som e a Fúria", "Santuário" e "Absalão, Absalão", que se encontram entre a melhores produções do século passado. "A Árvore dos Desejos" surgiu, portanto, em um momento de transição, quando o escritor (que nasceu Falkner e, sem explicar, acrescentou o "u", detalhe que o diferenciou do avô, autor de novelas de amor e também William) voltara de uma breve temporada em Paris (onde deixou a barba crescer) e se preparava para se voltar para a ficção com força total. Faulkner adorava contar histórias para crianças e o livro foi escrito depois de demitido da agência de correios porque lia demais - ao deixar o emprego, fez sua famosa observação de não estar mais à disposição de todos que, naquela época de modestas tarifas postais, tivessem dois centavos na mão A obra revela sua disposição de abraçar a literatura. "Trata-se de uma odisseia fabulosa: crianças encolhem, pôneis saem de uma sacola e, se alguém virar o travesseiro de lado antes de pegar no sono, tudo pode acontecer", escreve o jovem autor Emilio Fraia, na introdução do volume brasileiro. A trama se passa no dia de aniversário da pequena Dulcie, surpreendida, ao acordar, por um misterioso garoto ruivo, Maurice. Ao comando dele, a menina se junta ao irmão caçula Dicky, à criada Alice e ao amigo George e todos saem em busca de uma árvore mágica. No caminho, o grupo vai aumentando com a adesão de um soldado desiludido com a guerra, com um toco de madeira falante e um doce e sensível velhinho, Egbert. Logo encontram uma árvore mas, segundo apuração de Egbert, não é infelizmente a dos desejos. Nesse momento, a história se desdobra em conflitos e situações de perigo. "Por baixo da narrativa, tipicamente de aventura, surge uma ferida: a ideia de que os desejos podem ser traiçoeiros e, no limite, causar o mal", observa Fraia. Para isso, também contribuem as ilustrações de Guazzelli, que reproduz paisagens abandonadas com um traço seco, semelhante à xilogravura. Embora se dirigisse às crianças, Faulkner já rascunhava o estilo que eternizaria sua obra posterior, na qual a vida desponta não só destituída de alegria ou paixão, como também nem mesmo é particularmente dolorida. Algumas passagens também antecipam o uso cruzado de temas como fé e ritos do cristianismo nos romances que viriam a ser escritos. E, em "A Árvore dos Desejos", Faulkner faz ainda reflexões sutis sobre a guerra, condenando-a de forma veemente. "O antídoto para a ambição desmedida, aqui, está na renúncia e humildade, uma espécie de fé naquilo que habita a superfície do mundo, simbolizadas pela figura de São Francisco", nota Fraia. Nas obras de maior fôlego, o escritor dissecou a decadência da região sul dos Estados Unidos, livros ambientados no fictício condado de Yoknapatawpha de "O Som e a Fúria". Faulkner recebeu o Prêmio Nobel em 1950 e passou a ser influência constante para uma série confessa de escritores. "O texto tenso e de fôlego, as frases como torrentes cheias de mistério e ambiguidade e a mistura de estilos, os intermináveis parágrafos ou borbotões, quando respiram bem e estão bem acabados, são a expressão máxima da prova narrativa", escreveu o espanhol Javier Marías. Com o infantil, a Cosac Naify lança novas edições revistas de Faulkner ("Palmeiras Selvagens", "Luz em Agosto" e "O Som e a Fúria") e prepara, para o segundo semestre, "Absalão, Absalão". A ação implica também vitrines exclusivas na Livraria Cultura e debates no Rio e em São Paulo.