ILUSTRADO
Terça-feira, 30 de Novembro de 2010, 21h:26
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DVDs
Uma boa dose da realidade brasileira
Sonhos Roubados, filme brasileiro dramático de Sandra Werneck, e O Escritor Fantasma, um suspense do mestre Roman Polanski, são os novos títulos avaliados nesta edição
Juarez Compertino
Da Reportagem
Diversos retratos do modo de vida da classe mais pobre da sociedade brasileira já foram pintados. Sob diferentes óticas, grande parte das produções que trazem o cotidiano de quem reside em uma periferia termina por focar o crime e a violência social em especial aquela cujos protagonistas são homens, jovens ou não. Este tipo de abordagem termina por conferir certo glamour ao estilo de vida destemido, que tira as dificuldades da frente à bala e deixa ainda mais fina a linha que separa o criminoso de um herói, um mártir. Mas como é a realidade das mulheres mais jovens em um mundo bruto como este? E como ficam as meninas que amadurecem rapidamente sob a pressão de começar muito cedo uma família, sem apoio dos pais, educação e esperança? Com poesia e sensibilidade, Sonhos Roubados (Brasil, 2009/Europa) da diretora Sandra Werneck (Pequeno Dicionário Amoroso, Cazuza O Tempo Não Para, Amores Impossíveis) expõe a dificuldade das garotas que nascem e vivem nas favelas do Rio de Janeiro. O filme narra a historia de Jéssica (Nanda Costa), Daiane (Amanda Diniz) e Sabrina (Kika Farias), jovens amigas que moram em uma comunidade pobre em um morro carioca e encaram todas as dificuldades de crescer em um lugar sem a esperança de uma vida melhor. As famílias disfuncionais, a gravidez precoce e a falta de dinheiro são realidades cotidianas, mesmo assim, usam o humor todo tempo para refletir suas decisões e procuram curtir a vida com as oportunidades que surgem: um namoro novo, um baile funk ou aquele mp3 tão sonhado. Cada uma delas experimenta uma das faces dessa crueza social. Jéssica é uma estudante que virou garota de programa para criar o filho e ajudar o avô (Nelson Xavier). Daine esta se tornando mulher e descobre, da pior forma, o desejo masculino com os assédios do tio (Daniel Dantas). Já Sabrina está em busca de um amor e acredita que encontra isso nos braços de um traficante-galã (Guilherme Duarte). A fotografia de Walter Carvalho registra imagens carregadas nas cores, escuras. Não há beleza na tela, assim como há pouca alegria na rotina das protagonistas. Mesmo quando os sonhos se perdem é possível encontrar um futuro? A diretora e co-autora do roteiro, baseado no livro As Meninas da Esquina, de Eliane Trindade, se coloca apenas como observadora dessa opressora realidade. Expõe os fatos tristes despidos de julgamentos em alguns casos isso seria até necessário. Não olha para essas meninas com pena. Mostra a vida delas. É claro que a dureza machuca os olhos. Elas vivem o presente e só, não pensam no futuro. A meta aqui é entender o resultado da falta de possibilidades que elas vivem. Elas lidam com o momento, com as necessidades imediatas, então fazem o que precisam para sobreviver. Marieta Severo e o rapper MV Bill, em participações especiais, complementam o elenco muito bom e homogêneo deste comovente filme, uma jazida de sutilezas.