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ILUSTRADO
Segunda-feira, 27 de Maio de 2013, 19h:49

CANNES

Um prêmio à tolerância

A premiação de “La Vie d’Adèle”, num momento em que o casamento gay está no centro do debate, é uma prova do caráter político do prêmio

O presidente do júri Steven Spielberg disse que premiou o bom cinema. Mas, em Cannes – como em nenhum outro festival – não se pode falar apenas em cinema. Ao conceder a Palma de Ouro ao francês “La Vie d’Adèle” (a vida de Adèle), o júri premiou um filme sobre a descoberta do sexo entre duas adolescentes, num momento em que a França – e também outros países como o Brasil - se divide sobre o casamento gay. Por uma destas “coincidências” – terá sido coincidência? –, no momento em que o vencedor era anunciado, uma multidão ia às ruas em Paris para protestar contra a legalização da união civil entre pessoas do mesmo sexo. Terá o júri usado a arte como contraponto à intolerância. “O casamento gay não entrou em nossas discussões, mas o filme passa uma importante mensagem e é uma profunda história de amor”, garantiu o diretor de “Lincoln”. Se não trouxe nenhuma obra-prima, o Festival de Cannes deste ano apresentou um cinema de ótima qualidade e pulverizou as premiações, com um vencedor diferente para cada uma das sete categorias. Desde o início do festival, há cerca de 10 dias, a cada exibição, um novo filme era alçado à condição de favorito. Foi assim com “Inside Llewin Davis”, dos irmãos Coen. Foi assim com “La Grande Belezza”, de Paolo Sorrentino – este a maior decepção, posto que saiu do festival sem premiação. Até que, mais próximo do dia da premiação, “La Vie d’Adèle” começou a despontar como favorito. Ao menos do caso de Spielberg, a atuação das atrizes Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux foi algo primoroso. A relação é tão intensamente retratada pelas atrizes que o júri, ao conceder o prêmio, falou em “três grandes artistas”. “Ficamos fascinados pelo trabalho dessas duas atrizes capturadas por um diretor sensível”, disse Spielberg sobre a dupla, que atua em cenas de sexo explícitas. Ah, sim! O filme contém cenas fortíssimas de sexo entre as duas protagonistas. É consenso entre os críticos que não se via nada igual desde Vincent Gallo e Chloe Sevigny escandalizaram a Croissete com a cena de sexo oral em “The Brown Bunny”. “As sequências são corajosas, e espero que o longa seja permitido nos EUA.” O filme deve chegar ao Brasil no segundo semestre. O segundo prêmio mais importante, o Gran Prix, foi para “Inside Llewin Davis”, dos irmãos Coen. Os Estados Unidos levaram também o de melhor ator: Bruce Dern, de “Nebraska”, de Alexander Payne (“Os Descendentes”). Bérénice Bejo, que ganhou como melhor atriz por “Le Passé” (“O Passado”), do iraniano Asghar Farhadi, foi favorecida pela vitória de “La Vie d’Adèle”, já que havia perdido o favoritismo para as atrizes do drama gay. Dois outros favoritos venceram: o japonês “Like Father, Like Son”, de Hirokazu Kore-Eda (prêmio do júri), e o chinês “Tian zhu Ding” (melhor roteiro). A única surpresa foi a escolha de melhor diretor. Amat Escalante, de “Heli”, sobre família afetada pelo tráfico de drogas, não foi bem recebido pela crítica. Trajetória similar à do também mexicano Carlos Reygadas, que ganhou no ano passado por “Post Tenebras Lux” —e é produtor de “Heli”. PRÊMIOS • Palma de Ouro: A Vida de Adele (Abdellatif Kechiche- França) • Grand Prix: Inside Llewyn Davis (Joel e Ethan Coen, EUA) • Melhor diretor: Amat Escalante, Heli (México) • Prêmio do Juri: Like Father, Like Son (Japão) • Melhor Ator: Bruce Dern, Nebraska (EUA) • Melhor Atriz: Berenice Bejo, The Past (França/Itália) • Melhor roteiro: Jia Zhangke, A Touch of Sin (China)

Edição EDIÇÃO 16967




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