ILUSTRADO
Segunda-feira, 23 de Abril de 2012, 20h:40
A
A
ACADEMIA
Tristeza de Siá Joaninha
Siá Joaninha limpava o feijão virando e revirando a peneira em rápidos movimentos circulares que lhe sacudiam as cadeiras magras e depois o jogava para o alto para que o fresco vento da tarde carregasse consigo os restos das vagens secas ou os ciscos e gravetos misturado. Tinha chovido há pouco e assim como não tinha podido ir trabalhar na roça, aproveitava para preparar o feijão para ser vendido. Quase acompanhando o ritmo do feijão para ser vendido em Nobres lá no bolicho do Pedro Mineiro ou com os Turcos. Quase acompanhando o ritmo do feijão caindo na peneira se ouvia o pam-pam surdo das batidas do pilão onde a filha mocinha socava o arroz para a janta e o quebra torto do outro dia. E assim no suave fim de tarde, Siá Joaninha foi terminando a sua faina diária quando quase sem querer rolou os olhos do feijão para o céu e viu o arco-íris. Como sempre, tinha uma ponta enterrada para trás da Serra do Tombador, na direção dos garimpos. E foi nessa direção que Siá Joaninha ficou um tempão parada, esquecida de tudo. Fazia tantos anos, mas nunca podia esquecer, que o marido, bonito morenão, se fora um dia, cansado da roça e do pouco dinheiro que rendia, tentar a vida de outro jeito. - Joaninha, ocê há de vê, eu trabaiando de meia praça no garimpo, faço uma bamburrage e nóis ta feito. Um dia ocê vai lá nos turcos e tira os panos que quisé, cordão de ouro e até máquina de costura. E alegremente vendeu o milho ainda na plantação e um cavalo muito bom que tinha, e se foi a pé mesmo, para os garimpos do Gato e da Melgueira. Ela ficou cuidando das suas lides de mulher e do serviço dele enquanto esperava que o marido viesse buscá-la e aos dois filinhos um mal caminhava e o outro de peito ainda. Está certo, ele voltou passados poucos meses, mas como veio mudado, de óculos escuros, vestindo umas caças apertadinhas e rindo à toa por causa de um dente de ouro que tinha mandado por. Ela até ficou constrangida perto dele que já nem parecia o mesmo. Chegou a nem ligar muito o que ela tinha plantado na rocinha perto do córrego do fundo da casa. É verdade que trouxe um corte de vestido dum pano bem floreado para ela e brinquedos de plástico para as crianças, mas não a levou dessa vez, porque agora ia para outro garimpo onde estava dando muito diamante e onde ele tinha pegado um batido num rego dágua. E partiu novamente, desta vez cantarolando uma modinha que ela nem conhecia. Partiu na mesma direção que em certos dias, após alguma chuvarada, surgia o arco-íris, esplendoroso em suas belas cores. Pois o bonito e moreno marido de Siá Joaninha, nunca mais voltou! Volta e meia algum conhecido trazia novidades que embora as escutasse com o rosto impassível, só ela sabia como a magoavam. Às vezes contavam que tinha bamburrado e andava endinheirado, outras que estava mal de vida. Mas sempre diziam que estava metido com alguma mulher. Ora com uma baiana chamada Raimunda Bonita (esta levou anos), ora de namoro sério, feito rapaz solteiro, com alguma moça nova. Não adiantou nada, cartas, recados, nem mesmo aquela ocasião em que ela mesma foi procurá-lo, carregando as crianças, não o encontrou e soube que tinha partido às pressas para outro garimpo. E assim passaram os anos. Siá Joaninha foi criando os dois filhos, indo todos os dias de enxadas nos ombros, para a roça. Agora, embora sentisse ainda um aperto no peito quando pensava no marido, já não desejava que voltasse. Não de raiva, porque se tivera, já passara, mas porque coitada dela, teria vergonha que ele a visse assim, ela que fora sacudida com suas ancas redondas e braços macios, estava magra e quase murcha, a boca desdentada e o cabelo estriado de branco. Bem, o que passou, passou, a sina era dela mesmo. Siá Joaninha deu um longo suspiro e chamou o filho para dizer-lhe que preparasse as cangalhas e o burro para levar o feijão em Nobres, no outro dia. O filho, um rapagão mais alto que o pai, com uma sombra escura a sombrear-lhe os lábios grossos, veio um tanto vagarosamente e como que indeciso. Parou em frente da mãe e depois de ficar um longo tempo como se procurasse palavras, ergueu a cabeça e quase desafiadoramente, disse - Mãe, eu levo esses mantimentos lá pros turcos de Nobres, mas não volto não, que já to cansado de bate enxada todo o santo dia. Eu vô é pros garimpos. Não chore mãe, que eu volto cheio de dinheiro prá mode a senhora compra muito pano bonito, cordão de ouro, radinho de pilha e tudo o que quisé. Acadêmica Vera Yolanda Randazzo - Cadeira 19