ILUSTRADO
Segunda-feira, 21 de Novembro de 2011, 20h:33
A
A
ACADEMIA
Três homens e um cicerone
Eram três homens. Chegaram à cidade por caminhos diferentes, o alto de avião, o baixo num candango empoeirado e o outro num raio de sol. O primeiro vestia roupa bem talhada, toda no linho cortada, levava o último jornal embaixo do braço e uma piteira com cigarro americano. Faz logo perguntas a um cicerone que lhe apareceu e soube que a cidade tinha um hotel todo rosa, outro que lembrava os amigos fenícios, aquele no centro da América e o que era Presidente. Os quatros subiam acima das palmeiras imperiais. - Sim. Cinema havia um, atapetado e cheio de cristais, outro antigo, jovial e barulhento, o que era calmo e formal e um com nome de santo. E o homem queria saber por quantas rotas aéreas, poderia voltar. Depois perguntou pelos colégios e soube que um menininho de fala incerta poderia entrar numa escola por uma porta e sair por outra, já doutor formado. De noite, o homem pôs um monóculo e quis divertir-se. Foi aos clubes. Antes num bem feminino, subiu lá na colina e nadou no aristocrático, passou pelo alegre e carnavalesco e à meia-noite dançou no que se refletia a meia luz nas águas do Coxipó. Sim, tinha usina, refinaria, bancos mais de quinze, um governador jovem com planos de progressos nas mãos, num palácio todo moderno. E o homem marcou números e mais números em sua caderneta e resolveu ficar na cidade. Depois o cicerone serviu ao outro homem, o que usava uma roupa esportiva, um cachimbo semi-apagado na boca e máquina fotográfica a tiracolo. - Oh! Senhor, se for tarde da noite no Largo da Mandioca, ouvira ainda o bater dos cascos dos cavalos nas pedras irregulares. Esperam impacientes pelos Capitães Generais, que a luz de lamparinas estudam mapas e aumentam as fronteiras do Brasil. - Mas, por favor, não vá ao Largo da Força que lhe pode aparecer a alma do negro Severino. Sim, também eu sinto derrubarem a nossa catedral histórica que guardava os ossos do grande bandeirante Pascoal Moreira Cabral e que conservava estampada em sua fachada, o nosso passado. - Bem sei que esta cidade nunca mais será a mesma! E o homem de roupa esporte, seguiu o cicerone pelas ruelas estreitas e tortas e quis conhecer-lhes os nomes antigos. Foi na rua do Meio, na rua de Cima e na rua de Baixo; na rua do Campo, no Beco do Candieiro e na Bela do Juiz. Na rua dos Porcos fotografou velhas e lindas casas de adobe com muros de taipa socada. Numa esquina encontrou sete boizinhos carregados de lenha e os prendeu para sempre. Como era sábado captou também a feira multicolorida com os montes de bananas da terra, as abóboras douradas e os morenos vendedores. Depois, seguiu olhou o rio, as casas e o céu, tirou outra fotografia e disse que ia ficar na cidade. Mais tarde quando a lua saiu e ficou dependurada entre as folhas duma palmeira, o cicerone encontrou o terceiro homem, nem sei que roupa usava, só sei que era poeta e não fez pergunta alguma. Mas nas mãos longas e nervosas, trazia um monte de poemas. Com uma voz de chuvas da madrugada foi lendo todos, um a um. Um poema, outro poema e mais outro ainda, sobre as moças que passeavam no jardim. Outro era sobre a missa das madrugadas, todas elas para São Benedito. Num soneto, saiu um morceguinho da torre da igreja e mais outro, mais cem, mais mil e formaram um arco escuro no crepúsculo rosa outro e rosa azul. Cantou o rio com suas levas e levas de bandeirantes audaciosos, paiaguás de lança em punho, bravos, bravos e pegou na última estrofe uma rede cheia de pacus grandes e vermelhas piraputangas. O vento norte chegou bem leve e derrubou a delicada poesia onde as moças de vestido longos, escuras tranças e olhares travessos tocavam piano na noite de mil e oitocentos ou recitavam as poesias do outro poeta, aquele que morreu moço e era filho de Ricardo Franco. Quando era quase dia, o poeta fez uma pergunta só, e era sobre estradas, quantas havia, aonde iam ou eram encatadas? O cicerone respondeu que levavam ao norte e levavam ao sul, mas agora iam terminar mais uma e esta ia até o Pacífico buscar maresia. O poeta fez logo outro poema e resolveu ficar. E os três homens ficaram para sempre na Cidade-Verde, também chamada de Cuiabá. Acadêmica Vera Iolanda Randazzo - Cadeira 19