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Terça-feira, 05 de Julho de 2022, 00h:00

SÉRIES - ANÁLISE

"Stranger Things 4": do bullying a pesadelos, veja de onde vem o horror

Quarta temporada da atração da Netflix acerta ao se apoiar nos clássicos "A Hora do Pesadelo" e "Carrie, A Estranha"

VIVIAN MASUTTI
Da Folhapress – São Paulo
Stranger Things 4

De tantas imagens impactantes e bons efeitos especiais, a que mais marcou a primeira fase da quarta temporada de "Stranger Things" foi a que mostrou a atriz Sadie Sink, que vive Max, levitando, com os olhos revirados e o corpo a ponto de se retorcer, para o olhar atônito dos amigos, reunidos abaixo dela, em um cemitério.

Bom para ela que todos perceberam que o antídoto para não ter os ossos quebrados, o maxilar deslocado e os olhos esbugalhados, chocando-se violentamente contra o chão, era ouvir a música favorita, criando assim uma distância saudável entre a realidade e o mundo invertido.

Logo que a personagem, sempre com seu discman a tiracolo, tem contato com "Running Up that Hill (A Deal with God)", de Kate Bush, ela consegue acordar do transe e se safar da morte. A cena, presente em todos os trailers desta temporada, é um símbolo das diversas referências do horror dos anos 1980 que influenciaram os irmãos Matt Duffer e Ross Duffe, criadores da atração da Netflix.

Se você não quiser saber spoilers da temporada, é melhor parar de ler este texto por aqui.

É nesse jogo de estar dormindo e não conseguir acordar do próprio pesadelo que se baseou a sequência de filmes protagonizada por Freddy Krueger: "A Hora do Pesadelo". Nesse sentido, não apenas Max é abduzida a um mundo de escuridão, do qual não consegue achar a saída, mas Eleven (Millie Bobby Brown) sofre ao topar se submeter a um tratamento para recuperar os seus poderes.

Foi exatamente nos anos 1980, década em que a série estava ambientada, que Krueger se tornou famoso, ao começar a matar as crianças da rua Elm. A certa altura ele até consegue ressuscitar com pesadelos os protagonistas do filme anterior, reforçando um emaranhado de tempos com o qual "Stranger Things" chega a se aproximar, em certos momentos, do mundo rocambolesco de "Dark".

É nesse clima de ficção científica que se passa a parte da atração que acompanha Eleven. De volta ao laboratório de Hawkins, ela vai novamente entrar nesse quebra-cabeças entre sonho e realidade para tentar descobrir quem motivou o massacre no local, do qual ela apenas se lembra de alguns trechos.

Esse clima onírico da série, que aposta ainda em portais capazes de viajar no tempo e no espaço —em dado momento, Nancy Wheeler (Natalia Dyer) percebe que não só está no mundo invertido, como retornou dois anos no tempo—, nada mais é do que uma metáfora do quanto de horror há dentro de nós mesmos e, daí, a dificuldade de nos livrarmos dele. Quanto tempo o espectador não passa se questionando se foi Eleven mesmo quem matou todas aquelas criancinhas?

Maior nome do terror atual, Stephen King estava certo quando questionou a produção de "Stranger Things" sobre ter dividido a quarta temporada em dois. Afinal, ninguém quer esperar justamente para saber se a mesma Nancy vai sucumbir e ser absorvida pelos pesadelos do vilão Vecna.

Mas King não pode reclamar de não ter sido lembrado. Se Wes Craven (1939-2015), pai de Freddy Krueger, ficaria feliz em ter tanta influência ainda hoje no imaginário popular de jovens e adultos, o escritor de "Carrie, a Estranha" (1974) foi claramente citado na cena em que Eleven reage violentamente, cravando um patins na testa da colega que praticava bullying contra ela.

No livro, que foi depois adaptado ao cinema, a protagonista, vítima da mãe fanática religiosa e da zombação dos colegas no colégio, é levada ao limite no baile de formatura, quando se vinga de todos ao expor seus poderes telecinéticos e acaba causando um massacre na cidade.

A julgar sobre o que os irmãos Duffe costuraram nesses primeiros episódios, os próximos devem ser ainda mais horripilantes com o embate direto da turma de nerds com o vilão Vecna, agora representado por um ator de carne e osso e com um passado que justifica todas as suas maldades.

O único fio que fica solto é o fato de esses acontecimentos só terem chegado ao conhecimento do espectador nesta temporada, o que em literatura é avaliado como recurso de pobreza dramática, o deus ex-machina —utilizado para indicar uma solução inesperada, improvável e mirabolante para terminar uma obra ficcional.

 


Edição EDIÇÃO 16962




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