Nem sei dizer com precisão qual o motivo. Mas o meu trabalho só rende bem na sexta. Na segunda empaca pelo caminho. Patina. Joga barro para trás. Mas nem sai do lugar. Como estou acostumado com a sem vergonheira do bruto. Nem dou muito conversa. Faço a primeira arrancada. Dou uma paradinha e assunto qual foi o desacerto. Aprumo o pé na estrada. Dou uma cismada somente para sentir onde está a treta. Volto ao tino e experimento outra vez. Nada. Espero a poeira abaixar. Dou uma curva de riso bobo. De graça para o tempo. Estico a costela de lado a lado. Faço jogo de canseira. Mando duas ou três cafungadas como lembrança a brisa. Só para entender que não estou a gostar nadinha da situação. Na terceira arrancada já está saber que não estou para brincadeira. Grudo no granito do bruto e chamo a responsabilidade. Começa aquele alvoroço. Eu atarracado virado no doze. Ele negando corpo pra mim. Quando vejo que a coisa não vai mesmo progredir dessa tal maneira. Procuro uma boa peia. Atraco o bicho no local possível. Arranjo duas boas junto de boi e saio com ele no arrasto. Ao final de cada punhado de letra. Encosto no ouvido dele e digo: conheceu papudo? Dessa tal maneira rasgo a segunda no grito. Ao findar da noite estou com a garganta moída. De tanto gritar com as letras e com os bois para puxar as letras. Na terça está tanto eu como ela todo moído e esculhambado. Dedicamos o dia indo e vindo na enfermaria. No intervalo. Entre um soro e outro curativo qualquer. Soltamos algumas letrinhas aqui e outras acolá. Coisa triste de rachar peito ao meio. Na quarta estamos de repouso. Geralmente colocamos a cadeira no quintal e ficamos ali tomando sol. Igual jacaré sondando o tempo. De quando e vez. Quando o marasmo permite. Desgarramos um tantinho de letras perdido em meio aos outros. A quinta encosta com aquele jeitinho faceiro de quem provou e quer tudo novamente. Chega chegando de mansinho. Fala aquelas coisas bobas que faz todo homem pensar que vale a pena. Traz o perfume das rosas. Geralmente encosta sorrateiramente. Vestida aquelas esculhambação amiga da sedução. Deleita em decotes que leva a consciência a esquecer da decência. Acampa no parapeito da APP e fica me olhando com aquele olhar de furacão engole tudo. Aquilo desorganiza totalmente TI. Afronta a minha alma. Larga o espírito libertino no vácuo do pensamento livre. Nem vejo a hora que estou completamente atarraxado de corpo, alma e coração. Completamente encharcado nas letras mais quentes da minha vida. Quando penso que não. Já enchi a plataforma de letra. Ás vezes ficando até com um gostinho de quero mais. Uma vontade de abrir novas portas e entulhar letra dentro. Mas com muito custo me controlo. Sabendo que não se deve ir com muita sede ao pote. Pronto! Está arrumada a cama. Na sexta é só alegria. Logo na cabeça do dia já largo uma braçada de letra. Faço por bem escolher um punhado de bom tamanho e envio para o jornal. Devido á consideração tiro a melhor fatia. Para felicidade geral da nação. O editor é espinhado. Qualquer coisa é motivo para negar beijo. Na sexta evito todo tipo de contenda. Espírito herdeiro da vida vivida. Quando vivia por ai. Embaralhado na vida de ilusão. Nunca curti arranjar desgosto na sexta. Nesse dia começava a agasalhar todo tipo de alegria para gastar durante o fim de semana. Quando imbicava para a folia. Podia cair o teto do mundo que tudo daria tão certo. Caso tivesse de morrer seria de alegria. Para evitar pensamento ruim. Fazia questão de colocar fim nos namoros nas quintas. Assim estava livre para a folia do fim de semana. Na segunda ia até lá. Com aquela cara de gente que não tem o que fazer. Sempre munido de dois alqueires e meio de flores. Duas arrobas de chocolate. Mais um milhão de segundo e terceiras boas intenções. Atava o namoro com beijo e braçada e meia de dengos. Levava o compromisso muito bem atarraxado até a quinta. Depois endoidava novamente. Mas não era perversidade. Somente uma maneira gentil de evitar brigas. Sabia perfeitamente que nos fins de semanas ia cair na folia. O corpo acostuma com a safadeza. Chega aquele momento desanda a pedir confusão e não há quem segure. A melhor maneira é a prevenção. Era bom para testar o amor da sirigaita. Algumas reviravam o mundo a minha procura. Estava mais amoitado que onça acuada. Viu como na sexta tudo funciona que é uma beleza? Já acabei. *Luís Gonçalves é publicitário, escritor e colabora com o DC Ilustrado (
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