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Cuiabá MT, Terça-feira, 23 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 17 de Agosto de 2013, 12h:49

A CIDADE VIVE DOS QUE VIVEM E VIVERAM NELA

Sargento Braulio Cerqueira: Pai maravilhoso e soldado exemplar

Evaldo de Barros
Especial para o Diário de Cuiabá
Benedito Ramiro de Cerqueira é cuiabaníssimo da Praça da Mandioca nascido no dia 05 de abril de 1927. São seus pais o Sargento Bráulio Ramos D’Anunciação Cerqueira e D. Maria do Carmo Monteiro de Cerqueira. Ramiro, como é mais conhecido, é casado com D. Maria Neuza Provenzano de Cerqueira desde 28 de janeiro de 1956 e o casal teve 12 filhos agora reduzidos a 10 com as mortes de Maria Ilma e Déia Regina. Na família do pai eram 11 irmãos, incluindo no rol o caçula João Carlos, que é filho biológico de Ramiro, mas foi criado como filho pelo avô Bráulio. Aposentado pelo antigo DNER, hoje DENIT e pelo Dermat, hoje Secretaria de Transporte e Pavimentação, Benedito Ramiro não tem doença, gaba-se da pressão arterial 12x8, tem uma memória privilegiada e cultiva um imenso grupo de amigos por força da sua maneira elegante de tratar as pessoas. Na casa onde nasceu e cresceu na Praça Conde de Azambuja, mais conhecida como Pracinha da Mandioca, há um poço de água potável que muito contribuiu para a vida familiar. Atualmente não se utiliza mais a água do poço, mas ele está lá para atestar a ajuda prestada à família Cerqueira. A respeito do nome da praça Azambuja, diz Ramiro que é uma homenagem ao Capitão General Antônio Rolim de Moura Tavares, fundador da Vila Bela da Santíssima Trindade, em 1752. Falando de ex-governador Ramiro diz: “na minha opinião, o maior de todos eles foi Luis de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres quarto governador geral e fundador, dentre outras cidades, de Corumbá, São Pedro Del Rei (Poconé), Vila Maria (Cáceres), Forte de Coimbra etc”. Benedito Ramiro é apaixonadíssimo pela família de seus pais e se emociona de suas origens. Decidimos, por isso, falar na coluna de hoje dos dois: de Benedito Ramiro e do Sargento Bráulio. DC Ilustrado – Conte-nos de sua primeira escola. Ramiro – Estudei na Escola Modelo Barão de Melgaço. Na época dirigida pela famosa professora Tereza Lobo. A professora que me marcou e que me ensinou as primeiras letras foi Carolina de Souza, falecida recentemente com mais de 100 anos; DC Ilustrado – E o Exército? Ramiro – Servi o Exército de maio de 1945 a julho de 1946 no antigo 16º Batalhão de Caçadores. Na minha época o Comandante era o Tenente Coronel Laureano Gomes Monteiro e como Comandantes de companhias o Capitão José Machado Pereira Neves, depois General Neves e o Capitão João Luiz Pereira Neto, depois Coronel Neto, ambos de saudosa memória. DC Ilustrado –O Sr. tem alguma explicação para o declínio do carnaval cuiabano? Ramiro – Olha Evaldo, antigamente nós, cuiabanos, tínhamos a necessidade de criar as nossas próprias distrações e entretenimentos. Assim, todos se cotizavam para promover os mais diversos eventos. Com o advento da TV e a falta de recursos da Prefeitura Municipal o nosso carnaval foi minguando. Há algum esforço isolado de folião apaixonado aqui e ali mas sem força de fazer voltar o brilho no nosso Reinado de Momo. DC Ilustrado – Como aposentado dos antigos DNER e Dermat o sr. tem explicação do por que tudo é difícil para nós? Ramiro – Debito um pouco essa situação de descaso à falta de ação política. Quando atravessamos o rio correntes, no limite entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, vemos um tapete do lado de lá e uma buraqueira do lado de cá. É uma discriminação odiosa e que já vem de muito tempo. Veja você que em 1912, na Várzea Ana Poupina, meu pai compareceu à solenidade de lançamento da pedra fundamental da estrada de ferro araraquarense até Cuiabá. E até agora nada de ferrovia. Além disso, Campo Grande sedia os Comandos Regionais do Exército e da Aeronáutica e Corumbá é a sede do Distrito Naval. Quer dizer: tudo, até a compensação de cheques (!), é dirigida e/ou comandada por Campo Grande. DC Ilustrado – O sr. fala das figuras de seus pais com vivo encantamento. Chega a ser muito bonita essa atitude. Ramiro – Papai, foi um pai magnífico e um soldado exemplar. Era um homem culto, estudioso, que nos deixou documentada toda a história da vida dele. Com uma caligrafia de dar inveja a professores, papai documentou todos os eventos dos quais participou e muitos deles até com fotografias. Narrava os fatos com todos os detalhes, com datas e nomes dos personagens. Há de tudo: Dom Aquino, Dr. Agrícola, políticos, magistrados, militares, tudo organizado em ordem cronológica. Uma aula de História Regional! Eu e meus irmãos jamais precisamos de aulas particulares, pois, o papai se encarregava de nos ensinar. Era amoroso e brilhante. Nunca nos bateu e sempre foi o exemplo maior de nossas vidas. DC Ilustrado – Quantos filhos teve o casal Bráulio e D. Maria do Carmo? Ramiro – Somos dez irmãos biológicos e mais o meu filho João Carlos que se tornou filho do papai de criação. São eles: Rosina, Benedito Ramiro, Terezinha, Aluísio, Liomita, Janete, Cláudio, Marlene, Regina, José Luiz e João Carlos. DC Ilustrado – O sr. tem alguma alegria, tristeza ou mágoa? Ramiro – Minha maior alegria é ser filho desse adorado casal. As tristezas foram as perdas dos pais, irmãos e filhos. Quanto a mágoa acho apenas que o Exército deveria ter promovido papai ao posto de tenente depois de tudo o que ele fez pelo Brasil. DC Ilustrado – Algum desejo sr. Ramiro? Ramiro – Eu e meus irmãos gostaríamos de ver o nome do Sargento Bráulio numa das ruas da cidade. Ainda que fosse esse pequeno beco ao lado de nossa casa na pracinha da Mandioca. DC Ilustrado – Pelo estilo, pelas narrativas, o Sargento Bráulio era um homem muito preparado. Ramiro – Ele era bacharel pelo Liceu de Artes e Ofícios do Liceu São Gonçalo e estudou latim, grego, francês, inglês, etc e saiu do Exército no posto de sargento. Veja este artigo que ele escreveu para o jornal Ganga: CANÇÃO DO CEGO BRÁULIO RAMOS DE CERQUEIRA Era alta a madrugada, madrugada de verão, tranqüila e perfumosa. Termina o baile. A maioria dos rapazes e moças já se havia retirado. Agora, de acordo com o costume da época, os que ficaram, reunidos na varanda, cantavam modinhas e lundus ao som dos violões. Em dado instante, eu e o companheiro saímos à porta. Naquela rua de arrabalde o silêncio era profundo. As estrelas namoravam-se na imensidade dos céus, brincando de piscar. Ao lado da porta, acocorado, encolhido, estava o cego com a sua sanfona. Dissemos-lhe então: - canta qualquer coisa meu velho. Amável e sorridente o cego, tateando, entrou pelo corredor, agachou-se e tirou da sanfona os primeiros acordes. Ao som daquele instrumento maravilhoso, ele pôs-se a cantar uma canção, uma valsa tão linda, sentimental e tão triste... A cada estrofe seguia-se o estribilho: Oh! Que valsa tão bonita Dentro do meu coração!... Eu vivo triste, pensando, Sem achar consolação... Silêncio dos assistentes! A sanfona parecia chorar. Foi então que notei dois fios de lágrimas a se deslizarem pela face do velho. Caíram-lhe nas mãos algumas moedas. Continuou a serenata. Cantaram os rapazes, cantaram as moças. E ao som mavioso dos bandolins e cavaquinhos, as declarações de amor se sucediam. Oh! Que tempo lindo, Como é linda a mocidade! Parece que a alma da gente vive eternamente embriagada por um misto de sonhos, de sorrisos, de música e...perfumes de mulher: A mocidade é um jardim de delícias. Faz quanto tempo meu Deus! Quantos anos se passaram! Depois, tudo mudou, tudo evoluiu. Mudaram-se os costumes, evoluíram-se as danças. Tudo passou... Hoje é morto o companheiro. É morto o cego. Mortas são as minhas esperanças. Só não morre dentro de mim o estribilho daquela canção tão linda e pungente como a saudade a cantar, eternamente, nos meus ouvidos. Oh! Que valsa tão bonita Dentro do meu coração!... Eu vivo triste, pensando, Sem achar consolação... - No livro A cidade vive dos que vivem e viveram nela, na entrevista com Antônio Armindo Pedroso Dias (Pedroso Alfaiate) está à página 47, a notícia do atentado sofrido pelos senadores João Vilas Boas e Vespasiano Martins. CONCLUSÃO O dr. Benedito Ramiro de Cerqueira é advogado da 1ª turma da Faculdade de Direito de Mato Grosso. Segundo filho de uma família de pessoas brilhantes, acha que Cuiabá de hoje é muito melhor para se viver que a Cuiabá de antigamente. E cita como exemplo: Eu e meus irmãos fomos assistidos por parteira; hoje as nossas crianças nascem em hospitais e temos duas Faculdades de Medicina. Para ele o melhor governador foi Fragelli e o maior prefeito foi Garcia Neto “que encarou a briga da ponte da confusão”. Fiz a ele uma sugestão: publicar um documentário sobre o sargento Bráulio. Está tudo quase pronto, redigido com esmero e com riqueza de detalhes. A família Cerqueira pelo muito que já fez por Cuiabá merece esta e outras homenagens.

Edição EDIÇÃO 16967




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