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Cuiabá MT, Terça-feira, 23 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 21 de Julho de 2012, 15h:36

ENTREVISTA

Sala de Retratos: Jamil Almansur Haddad

Minha incursão pelo território da tradução é grande. Acho que minha maior façanha foi a tradução total das Flores do mal, de Baudelaire

Floriano Martins*
Especial para o Diário de Cuiabá
A Biblioteca Pública de Guaianazes, bairro situado no extremo leste de São Paulo, foi criada em 1991 e leva o nome de Jamil Almansur Haddad. Na página web do Sistema Municipal de Bibliotecas, da Secretaria da Cultura de São Paulo, há a seguinte informação a respeito do patrono dessa casa: “Jamil Almansur Haddad nasceu em 13 de outubro de 1914 em São Paulo. Formou-se em Medicina e, paralelamente, foi crítico, ensaísta, historiador, teatrólogo, antologista e tradutor. Recebeu um prêmio da Associação Paulista de Medicina e posteriormente foi convidado a ocupar o cargo de Diretor do Departamento de Cultura dessa Instituição. Foi presidente da Casa Castro Alves e participou do Congresso Brasileiro de Escritores. Jamil também colaborou em diversos diários de São Paulo. Era de origem libanesa e converteu-se ao Islamismo. Faleceu em 4 de maio de 1988, em São Paulo. É considerado um dos maiores poetas contemporâneos. Algumas Obras: História poética do Brasil, O que é islamismo, Raízes de Castro Alves.” Em 1984, Almansur Haddad foi protagonista (quase diria vítima) de um entrevero relacionado a este mesmo Sistema Municipal de Bibliotecas, conforme registramos em entrevista concedida pelo poeta a Antonio Possidonio, Floriano Martins e J. B. Sayeg, originalmente publicada no jornal O Escritor (São Paulo, agosto de 1984). PERGUNTA: Você havia doado a sua biblioteca para a Biblioteca Municipal de São Paulo, e essa doação não teria sido aceita. O que houve? JAMIL ALMANSUR HADDAD: Minha biblioteca, com o passar dos anos, cresceu muito. Eu não tinha mais espaço dentro de casa e, como não tenho mansão e não posso alugar uma casa só para os livros, fiquei com as obras que acabam sendo funcionais para mim, e quis dispor do restante. Não tenho espírito comercial, nem pensei em vendê-los. Me ocorreu a Biblioteca Municipal de São Paulo. Apareci por lá, falei com a funcionária responsável. Ela disse que aceitava e me fez assinar um documento, pelo qual eu autorizava o remanejamento, a redistribuição dos livros. Depois, ela me perguntou qual a condição que eu impunha, ao que lhe respondi que a única era que eles fossem buscar os livros. Nada mais. E no entanto, fiquei à espera deles durante seis meses. Eu atribuía isso a dificuldades burocráticas, transportes, sei lá que mais. Entrei em contato. Eles ficaram de mandar buscar os livros. Nunca vieram. Aí, por acaso eu me encontrei com o então secretário Mário Chamie. Expus meu caso e fiquei à espera que ele resolvesse. Então ele me telefona e diz que eu fosse até à Biblioteca e fizesse um ofício. Eu apenas lhe disse que se para doar a minha biblioteca eu tinha que fazer pressão política, então eu preferia vender os livros a peso. E esta venda a peso não preciso ser feita, porque se tornou possível doar os livros à Biblioteca de Santo André. P: Que tipo de livros foram doados? JAH: Minha biblioteca tem suas qualidades e seus defeitos. São livros que abrangem todos os assuntos do mundo. Não é especializada, o que torna difícil enquadrá-la numa instituição específica. Desta forma, só caberia a doação a uma biblioteca pública, que por definição deveria ter todos os assuntos do mundo. P:Provavelmente, a maior parte de literatura. JAH: Tem de tudo, folclore, literatura, sociologia, política, psicologia. Mas a dificuldade dos livros não é de que as bibliotecas os aceitem e sim de que haja leitores para eles. P:Foram quantos volumes? JAH: Uns seis mil, ou mais. E eu queria apenas colocá-los num lugar onde eu soubesse que os teria ao meu alcance, quando deles precisasse. P:EFale-nos sobre seu trabalho como tradutor. JAH: Ah, minha incursão pelo território da tradução é grande. Acredito que minha maior façanha tenha sido a tradução total das Flores do mal, de Baudelaire, a única em língua portuguesa. Essa tradução tem mais de vinte anos e, eu nem imaginava que essas coisas pudessem acontecer, existem três edições simultâneas por aí: uma, da Max Limonad; outra, para os sócios do Círculo do Livro; e uma da Editora Abril, para as bancas de jornais. P:E a sua tradução de Verlaine? JAH: Foi feita por volta de 1960. Lembro-me de que uma das críticas que recebeu era de que o meu Verlaine não era muito verlainiano. Aquela famosa delicadeza, aquela sutileza. Mas a realidade é que nem todo Verlaine é verlainiano. Ele tem partes que não respondem a esse ideal de poesia fluída, líquida, imponderável. Ele tem uma parte de parnasianismo pétreo. P:A influência de Baudelaire, de Verlaine, foi muito importante para a Geração de 45. Você se considera da Geração de 45? JAH: Eu me incluo na Geração de 35, porque esse ano marca a aparição do meu primeiro livro de poesia, Alkamar, a minha amante. O que vale dizer que daqui a pouco posso comemorar meio século de poesia. P:A sua trajetória poética sofreu várias alterações. O que o levou a dar novos rumos à poesia? JAH: Aqui, a política é apenas um detalhe. Quem quiser analisar a minha obra poética, verá que nunca um livro repetiu outro. Há sempre a busca de novos caminhos. Na verdade, a gente publica um livro só. Acho que quando Euclides da Cunha publica Os sertões, não tinha que fazer mais nada. A mesma coisa com Casa Grande & Senzala. Quem não tem a sorte de explodir com uma obra-prima, fica a vida inteira à procura do que eu chamo de livro-só. É o caso de Lautréamont, Mallarmé, Rimbaud, Augusto dos Anjos, mesmo poetas como Bilac ou Vicente de Carvalho. Não é preciso morrer deixando cem livros. P: Quando você começou havia alguma coisa que você vê nos poetas jovens de hoje? JAH: Uma coisa tradicional na história literária são os jovens se contrapondo às gerações mais antigas, principalmente às imediatamente anteriores. Na minha época não havia exatamente um grupo. Mas acontece que a sociedade mudou, e não a poesia. Há coisas muito práticas, objetivas, às quais não se dá importância. Antigamente se dava muita publicidade à literatura. Hoje, o escritor está silenciado pelos veículos de publicidade. Mas, antigamente era preciso que a coisa fosse importante para que fosse anunciada; hoje ela é importante porque foi noticiada. Uma inversão total de valores. Isto é o que impede basicamente, ou dificulta muito, as carreiras. Às vezes eu vejo, pelas revistas jovens literárias, poetas de nível muito alto que são estrangulados pelo silêncio. Quanto ao problema geracional, este sempre existirá. É verdade que hoje está muito diminuído. Há também o fato de que muitas coisas desapareceram, como, por exemplo, os suplementos literários. P: Como você vê a colocação de um escritor brasileiro no quadro das disputas do Nobel? JAH: O prêmio Nobel não é concedido a indivíduos e sim a países. Não nos faltam valores, até porque o Nobel está cheio de pessoas medíocres. O Nobel é um prêmio político, e o Brasil não tem condições de barganha para esse prêmio. *Floriano Martins (Ceará, 1957) é poeta, editor, ensaísta e tradutor. Dirige a Agulha Revista de Cultura (www.revista.agulha.nom.br) e colabora semanalmente com o DC Ilustrado com uma série de entrevistas que futuramente reunirá em livro intitulado Invenção do Brasil. Contato: [email protected].

Edição EDIÇÃO 16968




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