NA HORA
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Cuiabá MT, Sexta-feira, 12 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 02 de Junho de 2012, 21h:31

CRÔNICA

Rezadeira

Luís Gonçalves*
Especial para o Diário de Cuiabá
“Senhoras e senhores, vamos rezar!” Da porta lança o convite. Assunta um pouco enquanto a massa se movimenta buscando posição. As mães fervorosas ralham com os barrigudinhos para que cessem a brincadeira. Ela dirige ao altar já em sentido de total reverência. A partir de então se ouve apenas um breve escovar de calçados silenciosos. Ajoelha diante do altar. Folheia lentamente o caderno. O devoto se posiciona do lado direito do altar. Empunhando uma vela em chama. O cônjuge se aproxima aparando a imagem do santo promesseiro. Forma-se um círculo alinhando as melhores vozes na face do altar. Cessa os passos. Então se ouve a voz que rompe a primeira frase. Em seguida se ouve o “baixão”. Sendo possível distinguir a forte entonação de vozes femininas bolinadas pelas vozes roucas masculinas. O teatro de emoção segue fabricando gestos de adoração e suplicio. As ladainhas desenham a dramatização e exposição da fé cristã. Encerrando também com um convite de adoração. Finda a reza e ela é convidada a provar do licor e aloá. Os cururueiros tomam conta da frente do altar com a função. Na porta dos fundos alguns se animam a tocar a bruaca. Fulano de tal abandona a roda do Cururu e vem surrar a viola de cocho para brincarem o Siriri. Geralmente a dona da casa vai até lá com boas maneiras e “arrasta” ela até a porta da cozinha. Logo ao apontar na porta ouve um coro de gritos e vivas e vários braços a acolhem. A bruaca ronca e a viola de cocho crispa em cima. Ela ergue a voz que puxa um refrão ao encontro de tantas outras. Fechando o círculo entre o sagrado e o profano. Essa transmissão cultural e religiosa são raízes alicerçadas dentro da própria comunidade. Encorajados por rústicos métodos de aculturação. Levando em consideração a capacidade vocal da rezadeira, timbre e entonação. O período de iniciação é fazendo coro junto às vozes que ladeiam o altar. Em seguida as mesmas vozes “respostam” o refrão no Siriri. A própria rezadeira escolhe sua substituta entre a assistência. Durante a roda do Siriri quando a formalidade quase é esquecida. Em dado momento ela coloca aquela nova voz para puxar enquanto toma um fôlego. Na primeira oportunidade a noviça é colocada diante do altar. Isso geralmente acontece em rezas entre parentes e com poucas pessoas estranhas. Quando a titular não está em condições de praticar o ofício. Caso os devotos aprovem a partir de então já assume o posto de substituta oficial da titular. Quando é da mesma família a própria titular faz questão de sentar ao lado do altar. Numa clara demonstração de aprovação e para dar segurança. Permitindo que a estreante dê início a nova missão. Assumindo o posto de rezadeira da comunidade. A anterior lhe entrega definitivamente o “caderno de reza”. Toda essa ritualização repleta de simbolismo promove um estreitamento comprometedor. Á medida que submete ao universo inventivo. A reza não seria a mesma sem o encanto da voz feminina que faz a alegria no terreiro do Siriri. No entanto, o Siriri não teria uma melodia sincronizada sem os acordes da viola de cocho. Enquanto a reza empresta toda doutrina e conhecimento alçado pelas ladainhas. O Siriri além de praticar o conjunto cuida da afinação. Esse riquíssimo legado de cultura popular é amparado única e exclusivamente na imensa facilidade do homem e a sua música. Da Arte de cantar e tocar a própria música. Total envolvimento com ritmos e cânticos que apesar de pouca singeleza permitem que dancem. Festejem. Deixando se envolver com o próprio equilíbrio de emoções. Totalmente emaranhados em movimentos coreógrafos de extrema paixão. *Luís Gonçalves é publicitário, escritor e colabora com o DC Ilustrado ([email protected] )

Edição EDIÇÃO 16961




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