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ILUSTRADO
Sexta-feira, 12 de Fevereiro de 2010, 09h:28

BERLINALE

Presidente promete júri sem preconceitos

“Apart Together”, do chinês Wang Quan’na, filme escolhido para a abertura não conseguiu arrancar da platéia nem mesmo os costumeiros aplausos protocolares

Luiz Carlos Merten
Da Reportagem
Berlim organizou uma bela festa para comemorar seu 60º aniversário, mas o presidente da Berlinale, além de diretor artístico do evento, Dieter Kosslick, só parece ter negligenciado um aspecto. O filme que ele escolheu para a abertura do 60º Festival de Berlim foi anticlimático. No fim da sessão de imprensa, não recebeu nem aplausos protocolares. Isso pode atestar contra a qualidade do filme do chinês Wang Quan’an, que volta a concorrer ao Urso de Ouro, depois de haver recebido o prêmio, há três anos, por "O Casamento de Tuya". "Apart Together" é bom, mas não tem atrativos para levantar uma plateia. Roman Polanski, que terá seu filme exibido hoje (12) ("The Ghost Writer"), ou Martin Scorsese, amanhã (13) ("Shutter Island"), garantiriam uma abertura muito mais ‘midiática’. Talvez tenha sido isso que Kosslick tenha querido evitar. "Apart Together" tem tudo para estar aqui. Ao longo dos 60 anos de festival, a capital alemã resistiu a muita coisa, inclusive ao muro que dividiu a cidade em duas partes. Berlim Oeste e Leste eram representações de divisões muito mais profundas - entre capitalismo e comunismo, por exemplo. A metáfora do país dividido volta no filme de Wang Quan’an. Em 1949, durante a Guerra Civil, combatiam os exércitos de Mao Tsé-tung e Chiang Kai-shek. Este último se retirou com suas forças para Taiwan. O filme conta a história desse casamento separado durante 50 anos. O marido, que era soldado, foi para Taiwan, construiu outra vida. A mulher arranjou outro companheiro, criou o filho do primeiro casamento e as duas filhas do atual. A reunificação da China traz o primeiro marido de volta. Cria-se o impasse. A mulher parece disposta a voltar com o ex-soldado para Taiwan. Depois de se dedicar à família por tantos anos, ela quer retomar, no outono da vida, o amor de seus verdes anos. Mas as coisas não são fáceis. Os filhos reagem. O próprio marido atual é um homem tão bom que ela vacila em abandoná-lo. Come-se muito no filme, como nas obras do começo da carreira de Ang Lee - "Comer, Beber, Viver" e "Banquete de Casamento". Canta-se, também. A cena inicial, em torno de uma mesa, comemorando a volta, é magnífica, porque as tensões imediatamente afloram. O trio marido/mulher/outro, cantando, rende outra cena magnífica. Lembra algo de Terence Davies, cujas famílias também se despedaçam cantando. Quan’an filmou em Xangai e, conforme declarou na coletiva após a projeção, foi muito difícil ‘captar’ a cidade. "Xangai é como uma terra da fantasia", disse. "Expressa os extremos da China, a modernidade que convive com o antigo, a opulência de alguns e a falta de recursos de outros. Xangai produziu em mim, o tempo todo, um sentimento de confusão e até irrealidade. Acho que serve à história." O mais interessante em relação a "Apart Together" é que, imediatamente após constatar a falta de impacto do filme, você pode decantá-lo e, aí sim, as qualidades começam a aparecer. Riqueza política, humana, o tema da família, "Apart Together" fica com o espectador e até cresce depois. Não é daqueles filmes que você termina de ver e já esquece. O júri da 60ª Berlinale é presidido pelo cineasta Werner Herzog. É integrado também pela diretora Cristina Comencini e pelas atrizes Renee Zellweger e Yu Nan, a Tuya cujo casamento Wang Quan’an filmou antes. Aliás, o embate entre tradição e modernidade e a mulher dividida entre dois homens já estava no filme anterior. Herzog lembrou quando veio à Berlinale pela primeira vez, há 42 anos. Era um jovem de 25, iniciando-se na carreira. Foi premiado com Sinais de Vida. Já naquela época, ele, cinéfilo, criou um sistema para exibir os filmes da mostra na periferia de Berlim. Ele se alegrou que, ao completar 60 anos - e com ele na presidência do júri -, o festival retome sua prática. Dieter Kosslick criou uma mostra itinerante que exibe, a cada dia, dois filmes da competição em diferentes pontos da cidade. Uma jornalista quis saber por que os grandes festivais são reticentes a incorporar as novas tecnologias. (Berlim talvez seja, Cannes não é.) Herzog revelou que, a par de defeitos - que chamou de déficits narrativos -, gostou muito de "Avatar", de James Cameron. Sobre o que premiar, ele desconversou. "O cinema é como a grande poesia. Tem algo de misterioso, que a gente não consegue identificar de imediato. Exige decantação." Como o filme de Wang Quan’na. Uma coisa ele já garantiu - seu júri não terá preconceitos. Está aberto para ser surpreendido. Só para constar. Do júri também faz parte o escritor somali Nuriddin Farah, que fez da Berlinale uma tribuna para pedir pressão internacional contra a mutilação clitoriana das mulheres africanas.

Edição EDIÇÃO 16961




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