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ILUSTRADO
Sábado, 19 de Junho de 2010, 12h:44

ARTE-TERAPIA

Portas da percepção

A função da arte vai além da expressão estética. A ponte criada pela mesma é uma ferramenta poderosa para a busca pela saúde

Claudio de Oliveira
Da Reportagem
“A arte é um canal de conhecimento que o ser humano tem a seu favor e é acessível a qualquer um. É um meio de expressão dos sentimentos que vai além da forma, da palavra, é uma leitura de mundo que extrapola a lógica” disse João Batista Conrado, artista que dedicou uma vida ao ensino das artes e sem dúvida formou inúmeros outros artistas entre os milhares de alunos de todas as idades. Conrado deu aula em escolas particulares e públicas, projetos sociais e universidades estimulando a criatividade e o despertar. João Batista é especialista em arte terapia, quando questionado sobre o poder de cura da arte ele explica de forma metafísica: “a arte é uma energia que se não tiver um meio para fluir pode se tornar estagnada e, (consequentemente) doente. A arte pode curar junto com as terapias, deveria ser praticada como praticamos a ginástica. Ela equilibra, favorece o autoconhecimento, a autoestima, e com isso fortalece a pessoa”. Entre as histórias, que são incontáveis, o professor citou três. Recentemente dando aula a uma turma de terceira idade ele estava aplicando a técnica de reconhecimento dos movimentos. Movimentos do reino vegetal, animal e mineral que fazem parte do cotidiano e que às vezes, não vemos. Entre os exercícios durante um tempo praticaram a concentração e a expansão. O primeiro refletido na forma do círculo e o segundo na espiral. São exercícios que favorecem a memória e uma senhora deu um testemunho neste sentido. Segundo Conrado ela disse que esquecia de noite o que tinha feito de dia e após os exercícios percebeu que a memória estava voltando. Para Conrado “os antidepressivos, por exemplo, apenas camuflam o problema, não resolvem nada. A arte é uma arma boa, muito potente e que infelizmente é mal aproveitada.” A segunda história é mais interessante. Uma aluna sua dizia que sua sugestão de ver o mundo pelos olhos dos animais era coisa do demo. Chegou até a pedir o seu afastamento na diretoria. Não logrando êxito, resolveu levar a bíblia em todas as aulas e ler um salmo para o professor. Uma outra, também muito religiosa e frequentadora do curso de arte terapia que o professor ministrava na Unic, escondeu o ouro. Terminou o desenho e não quis mostrar de jeito nenhum. Muito tempo depois ela mostrou uma série de capetas. Como ela religiosa poderia ter feito isso? A arte é isso, uma linguagem que pode depurar as frustrações em símbolos ou formas que a palavra, às vezes, não resolve. E o resultado além de virar o poema Anjos e Arcanjos (abaixo) também libertou a pessoa para produzir obras lindíssimas segundo o professor. Este poema e outros centenas nascidos muitas vezes em salas de aula, estão no Overmundo.com.br onde JBConrado posta suas poesias e experimenta a arte gráfica mesclando imagens fotográficas e manipulação digital. Ele também publica os seus trabalhos na sua página pessoal, seu website é www.ayruman.com.br. No Overmundo, ele se define poeticamente: “Nasci na roça... Ser-tão mineiro. Filho de "Sô Liveira e Dona Zilica”. Córrego do Espraiado. Manhumirim. Minas Gerais. Caipira de corpo e alma. Caipira, caboclo por inteiro. Preparei a terra. Semeei, plantei e colhi. Criei gado, meu boi "rajado". Carro de boi que chora no fundo do grotão. Tive uma longa vivência, com a natureza e seus encantos. Vim para a cidade grande. Floresta de concreto armado. Comecei a estudar e trabalhar. Sempre procurando uma direção, um caminho de vida. Sempre gostei de pesquisar, experimentar opções inusitadas. Conhecer amplamente os materiais expressivos. Descobrir minhas próprias técnicas. Desafiar o desconhecido. Romper com a mesmice do caminho fácil, o vírus do modismo. Superar a cegueira do nosso mundinho trivial. Ignóbil. Incomodar o banquete das ratazanas. A comilança dos opulentos. Mostrar o que a sociedade se nega a ver; entre tantas ‘coisitas’ a mais. Tudo isto sempre fez parte de minha história pessoal.” A obra do Conrado não é pop. Não é algo a ser digerido a primeira vista. Exige uma reflexão e um tempo para se apreciar e entender o que está subliminarmente exposto. As técnicas que ele usa são mistas. Desde o giz de cera, caneta BIC até a tinta óleo. Ele também tem três pequenas esculturas em madeira que impressionam, mas são filhas “únicas”. Tanto isso é verdade que a editora Paulus rejeitou seus trabalhos que ilustrariam um livro infantil. Para a responsável da editora a arte (ilustrações) era feita em computador e eles não publicam isso. É óbvio que mesmo que o fosse, seu valor não fica diminuído em função disto. Para o artista ele está entre o figurativo e o abstrato, um limite ou um misto das duas coisas. Seus trabalhos não têm exatamente fronteira entre as formas, a diferenciação é dada pelo peso e não pela forma na maioria das vezes. “A arte tem que fazer pensar, ela pode ser decorativa, esta é uma das suas funções, mas têm coisas bem mais importantes que isso.” Anjos e Arcanjos Não se pode conhecer a Luz se indiferentes, ainda ignoramos o que as sombras têm para nos ensinar. Também é impossível conectar Anjos e Arcanjos, se por medo, comodismo ou ausência de humildade, ainda ignoramos nossos demônios. (JBConrado)

Edição EDIÇÃO 16962




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