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Cuiabá MT, Terça-feira, 16 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Quarta-feira, 20 de Agosto de 2014, 20h:18

HILDA HILST

Para além da (belíssima) pornografia

*Matheus Jacob Barreto
Especial para o DC Ilustrado
“Me queimo em sonhos, tocando estrelas.” Hilda Hilst Sempre que penso nas “meninas” Lygia Fagundes Telles (1923- ) e Hilda Hilst (1930-2004), imagino as duas como opostos-não-tão-opostos-assim: a primeira é apolínea, cerebral; a segunda é dionisíaca, passional. A coluna de hoje é dedicada à segunda, Hilda Hilst. Lygia fica para outra semana. Hilda Hilst sempre me pareceu um trovador medieval que tivesse caído por acaso e desespero no século XX -- mas que tivesse se adaptado (e muito bem!) a esse século XX. Os leitores mais familiares com a obra de final de vida da Hilda Hilst talvez estranhem essa minha afirmação. De fato, é difícil imaginar que a autora dos versos mais do que obscenos de “Bufólicas” tenha escrito poesia remotamente similar aos versos de trovadores medievais. Quem não se lembra dos versos de “O anão triste”? Uma pausa no texto da coluna: aviso que as “senhoras mui finas e virtuosas” não vão gostar dos versos seguintes. Não digam que não avisei. Aviso feito, lá vão: “De pau em riste / o anão Cidão / vivia triste. / Além do chato de ser anão / nunca podia / meter o ganso na tia / nem na rodela do negão (...)”. Eu avisei. É realmente difícil imaginar que a poetisa que escreveu os (ótimos) versos acima tenha escrito também poesia devota, metafísica, à maneira dos grandes poetas místicos do passado. Sobre isso posso falar duas coisas: 1) o fato mesmo de se alinhar a esses poetas tão antigos já a autoriza (precisa de autorização?) a ter a vasta produção obscena ou de escárnio que tem, já que muitos deles em maior ou menor grau também a tiveram (Catulo, François Villon, Gregório de Matos, Bocage, para citar alguns). 2) Livros como “Bufólicas” dão a ver a incrível versatilidade e o enorme leque de possibilidades dos quais Hilda Hilst dispunha. Capaz de escrever os versos que citei acima, era também capaz de compor estes outros: XXI. “Não te machuque a minha ausência, meu Deus,/ Quando eu não mais estiver na Terra/ Onde agora canto amor e heresia./ Outros hão de ferir e amar/ Teu coração e corpo. Tuas bifrontes/ Valias, mandarim e ovelha, soberba e timidez/ Não temas./ Meus pares e outros homens/ Te farão viver destas duas voragens:/ Matança e amanhecer, sangue e poesia. Chora por mim. Pela poeira que fui/ Serei, e sou agora. Pelo esquecimento/ Que virá de ti e dos amigos./ Pelas palavras que te deram vida/ E hoje me dão morte. Punhal, cegueira/ Sorri, meu Deus, por mim. De cedro/ De mil abelhas tu és. Cavalo-d'água/ Rondando o ego. Sorri. Te amei sonâmbula/ Esdrúxula, mas te amei inteira.” Os versos do livro “Poemas malditos, gozosos e devotos” (do qual vem o poema acima) estão estre os mais belos (essa palavra gasta e velha, mas que às vezes ainda precisamos usar) da recente poesia brasileira. Muitos outros poemas da “lira séria” de Hilda Hilst também estão perto do topo da lista. Como o poema sempre fala melhor do que qualquer outra coisa, deixo as explicações de lado e apresento outros três trechos do mesmo livro: IX. “(...) Poderia, meu Deus, me aproximar?/ Tu, na montanha./ Eu no meu sonho de estar/ No resíduo dos teus sonhos?” XII. “Estou sozinha se penso que tu existes./ Não tenho dados de ti, nem tenho tua vizinhança./ E igualmente sozinha se tu não existes./ De que me adiantam/ Poemas ou narrativas buscando/ Aquilo, que se não é, não existe/ Ou se existe, então se esconde/ Em sumidouros e cimos, nomenclaturas/ Naquelas não evidências/ Da matemática pura?/ É preciso conhecer/ Com precisão para amar?/ Não te conheço. / Só sei que me desmereço se não sangro./ Só sei que fico afastada/ De uns fios de conhecimento, se não tento./ Estou sozinha, meu Deus, se te penso.” XIX “Teus passos somem/ Onde começam as armadilhas./ Curvo-me sobre a treva que me espia./ Ninguém ali. Nem humanos, nem feras./ De escuro e terra tua moradia?/ Pegadas finas/ Feitas a fogo e a espinho./ Teu passo queima se me aproximo./ Então me deito sobre as roseiras./ Hei de saber o amor à tua maneira./ Me queimo em sonhos, tocando estrelas.” Como sempre foi (e continuará a ser) muito curto o espaço de uma coluna de jornal para falar sobre qualquer bom livro, deixo a sugestão de leitura do “Poemas malditos, gozosos e devotos”. A grande originalidade (e ao mesmo tempo aquilo que a aproxima dos grandes poetas antigos) da “lira séria” (sempre entre muitas aspas) de Hilda Hilst talvez tenha sido esta: usar os temas, voltas, ritmos e tons da poesia de amor antiga mas -- e aí está o ponto principal, aí está o que a aproxima dos grandes poetas místicos orientais e ocidentais -- o “amado” é ninguém menos que Deus. Deus, ou aquilo que mais se aproxima disso, ou o Criador, ou o Sem Nome, ou o Senhor do meu canto, ou o Executor, ou o Sedutor Nato, ou o Inventado Imprudente Menino. Hilda Hilst alcança aquilo que toda grande poesia (e a única que vale algo) alcança: supera os limites do seu tempo e do seu espaço para ganhar todos os tempos e todos os espaços, para alcançar o homem de hoje, o de amanhã e o de depois de amanhã. É poesia que, a partir do presente, se sublima em eternidade. Parece que Hilda Hilst realmente se queimou em sonhos, tocando estrelas. E depois de 40 anos escrevendo uma das mais altas poesias feitas em terras brasileiras, aos 60 anos de idade começa a publicar seus livros pornográficos. É sempre insuficiente tentar adivinhar razões, chutar motivos para essas mudanças drásticas: no fim não importa muito. O fato é que Hilda Hilst se dedicou a essa produção de baixíssima poesia -- baixíssima poesia belíssima, bem-trabalhada, absolutamente engraçada, cômica. Vou contra aquilo que eu mesmo disse e tentarei chutar um motivo: os livros de velhice de Hilda, os pornográficos, parecem um riso de escárnio (quem se lembra das “Canções de escárnio e maldizer” medievais, nas aulas de literatura do ensino médio?), um riso de revolta da poetisa que se dedicou por 40 anos à poesia e foi quase que totalmente ignorada. Como disse a própria autora em uma entrevista sobre “O caderno rosa de Lori Lamby”: “É um ato de agressão. Não é um livro, é uma banana -- a Lori Lamby -- que eu estou dando pros editores, pro mercado editorial.” Termino a coluna de hoje com outro poema da nossa Hilda Hilst, este também do livro “Poemas malditos, gozosos e devotos”. Antes, minhas últimas palavras: a nós fica o assombro, a gargalhada e o êxtase de ter por perto as duas produções de Hilda Hilst: a alta e a baixa -- e as duas altíssimas. Graças a Deus. XX “Move-te. Desperta./ Há homens à tua procura./ Há uma mulher, que sou eu./ A Terra mora na Via-Láctea/ Eu moro à beira de estradas/ Não sou pequena nem alta./ Sou muito pálida /Porque muito caminhei/ Nas escurezas, no vício/ De perseguir uns falares/ Teus indícios. Move-te./ Tua aliança com os homens/ Teu atar-se comigo/ Tem muito de quebra e dessemelhança./ Muitos de nós agonizam./ A Terra toda. Há de ser quase/ Brinquedo adivinhares/ Onde reside o pó, onde reside o medo./ Não te demores./ Eu tenho nome: Poeira./ Move-te se te queres vivo.” *Matheus Jacob Barreto é estudante de cinema, escritor (seu “É”, em 2ª edição, foi lançado recentemente) e mantém uma coluna semanal neste DC Ilustrado.

Edição EDIÇÃO 16962




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