ILUSTRADO
Quarta-feira, 20 de Agosto de 2014, 20h:18
A
A
HILDA HILST
Para além da (belíssima) pornografia
*Matheus Jacob Barreto
Especial para o DC Ilustrado
Me queimo em sonhos, tocando estrelas. Hilda Hilst Sempre que penso nas meninas Lygia Fagundes Telles (1923- ) e Hilda Hilst (1930-2004), imagino as duas como opostos-não-tão-opostos-assim: a primeira é apolínea, cerebral; a segunda é dionisíaca, passional. A coluna de hoje é dedicada à segunda, Hilda Hilst. Lygia fica para outra semana. Hilda Hilst sempre me pareceu um trovador medieval que tivesse caído por acaso e desespero no século XX -- mas que tivesse se adaptado (e muito bem!) a esse século XX. Os leitores mais familiares com a obra de final de vida da Hilda Hilst talvez estranhem essa minha afirmação. De fato, é difícil imaginar que a autora dos versos mais do que obscenos de Bufólicas tenha escrito poesia remotamente similar aos versos de trovadores medievais. Quem não se lembra dos versos de O anão triste? Uma pausa no texto da coluna: aviso que as senhoras mui finas e virtuosas não vão gostar dos versos seguintes. Não digam que não avisei. Aviso feito, lá vão: De pau em riste / o anão Cidão / vivia triste. / Além do chato de ser anão / nunca podia / meter o ganso na tia / nem na rodela do negão (...). Eu avisei. É realmente difícil imaginar que a poetisa que escreveu os (ótimos) versos acima tenha escrito também poesia devota, metafísica, à maneira dos grandes poetas místicos do passado. Sobre isso posso falar duas coisas: 1) o fato mesmo de se alinhar a esses poetas tão antigos já a autoriza (precisa de autorização?) a ter a vasta produção obscena ou de escárnio que tem, já que muitos deles em maior ou menor grau também a tiveram (Catulo, François Villon, Gregório de Matos, Bocage, para citar alguns). 2) Livros como Bufólicas dão a ver a incrível versatilidade e o enorme leque de possibilidades dos quais Hilda Hilst dispunha. Capaz de escrever os versos que citei acima, era também capaz de compor estes outros: XXI. Não te machuque a minha ausência, meu Deus,/ Quando eu não mais estiver na Terra/ Onde agora canto amor e heresia./ Outros hão de ferir e amar/ Teu coração e corpo. Tuas bifrontes/ Valias, mandarim e ovelha, soberba e timidez/ Não temas./ Meus pares e outros homens/ Te farão viver destas duas voragens:/ Matança e amanhecer, sangue e poesia. Chora por mim. Pela poeira que fui/ Serei, e sou agora. Pelo esquecimento/ Que virá de ti e dos amigos./ Pelas palavras que te deram vida/ E hoje me dão morte. Punhal, cegueira/ Sorri, meu Deus, por mim. De cedro/ De mil abelhas tu és. Cavalo-d'água/ Rondando o ego. Sorri. Te amei sonâmbula/ Esdrúxula, mas te amei inteira. Os versos do livro Poemas malditos, gozosos e devotos (do qual vem o poema acima) estão estre os mais belos (essa palavra gasta e velha, mas que às vezes ainda precisamos usar) da recente poesia brasileira. Muitos outros poemas da lira séria de Hilda Hilst também estão perto do topo da lista. Como o poema sempre fala melhor do que qualquer outra coisa, deixo as explicações de lado e apresento outros três trechos do mesmo livro: IX. (...) Poderia, meu Deus, me aproximar?/ Tu, na montanha./ Eu no meu sonho de estar/ No resíduo dos teus sonhos? XII. Estou sozinha se penso que tu existes./ Não tenho dados de ti, nem tenho tua vizinhança./ E igualmente sozinha se tu não existes./ De que me adiantam/ Poemas ou narrativas buscando/ Aquilo, que se não é, não existe/ Ou se existe, então se esconde/ Em sumidouros e cimos, nomenclaturas/ Naquelas não evidências/ Da matemática pura?/ É preciso conhecer/ Com precisão para amar?/ Não te conheço. / Só sei que me desmereço se não sangro./ Só sei que fico afastada/ De uns fios de conhecimento, se não tento./ Estou sozinha, meu Deus, se te penso. XIX Teus passos somem/ Onde começam as armadilhas./ Curvo-me sobre a treva que me espia./ Ninguém ali. Nem humanos, nem feras./ De escuro e terra tua moradia?/ Pegadas finas/ Feitas a fogo e a espinho./ Teu passo queima se me aproximo./ Então me deito sobre as roseiras./ Hei de saber o amor à tua maneira./ Me queimo em sonhos, tocando estrelas. Como sempre foi (e continuará a ser) muito curto o espaço de uma coluna de jornal para falar sobre qualquer bom livro, deixo a sugestão de leitura do Poemas malditos, gozosos e devotos. A grande originalidade (e ao mesmo tempo aquilo que a aproxima dos grandes poetas antigos) da lira séria (sempre entre muitas aspas) de Hilda Hilst talvez tenha sido esta: usar os temas, voltas, ritmos e tons da poesia de amor antiga mas -- e aí está o ponto principal, aí está o que a aproxima dos grandes poetas místicos orientais e ocidentais -- o amado é ninguém menos que Deus. Deus, ou aquilo que mais se aproxima disso, ou o Criador, ou o Sem Nome, ou o Senhor do meu canto, ou o Executor, ou o Sedutor Nato, ou o Inventado Imprudente Menino. Hilda Hilst alcança aquilo que toda grande poesia (e a única que vale algo) alcança: supera os limites do seu tempo e do seu espaço para ganhar todos os tempos e todos os espaços, para alcançar o homem de hoje, o de amanhã e o de depois de amanhã. É poesia que, a partir do presente, se sublima em eternidade. Parece que Hilda Hilst realmente se queimou em sonhos, tocando estrelas. E depois de 40 anos escrevendo uma das mais altas poesias feitas em terras brasileiras, aos 60 anos de idade começa a publicar seus livros pornográficos. É sempre insuficiente tentar adivinhar razões, chutar motivos para essas mudanças drásticas: no fim não importa muito. O fato é que Hilda Hilst se dedicou a essa produção de baixíssima poesia -- baixíssima poesia belíssima, bem-trabalhada, absolutamente engraçada, cômica. Vou contra aquilo que eu mesmo disse e tentarei chutar um motivo: os livros de velhice de Hilda, os pornográficos, parecem um riso de escárnio (quem se lembra das Canções de escárnio e maldizer medievais, nas aulas de literatura do ensino médio?), um riso de revolta da poetisa que se dedicou por 40 anos à poesia e foi quase que totalmente ignorada. Como disse a própria autora em uma entrevista sobre O caderno rosa de Lori Lamby: É um ato de agressão. Não é um livro, é uma banana -- a Lori Lamby -- que eu estou dando pros editores, pro mercado editorial. Termino a coluna de hoje com outro poema da nossa Hilda Hilst, este também do livro Poemas malditos, gozosos e devotos. Antes, minhas últimas palavras: a nós fica o assombro, a gargalhada e o êxtase de ter por perto as duas produções de Hilda Hilst: a alta e a baixa -- e as duas altíssimas. Graças a Deus. XX Move-te. Desperta./ Há homens à tua procura./ Há uma mulher, que sou eu./ A Terra mora na Via-Láctea/ Eu moro à beira de estradas/ Não sou pequena nem alta./ Sou muito pálida /Porque muito caminhei/ Nas escurezas, no vício/ De perseguir uns falares/ Teus indícios. Move-te./ Tua aliança com os homens/ Teu atar-se comigo/ Tem muito de quebra e dessemelhança./ Muitos de nós agonizam./ A Terra toda. Há de ser quase/ Brinquedo adivinhares/ Onde reside o pó, onde reside o medo./ Não te demores./ Eu tenho nome: Poeira./ Move-te se te queres vivo. *Matheus Jacob Barreto é estudante de cinema, escritor (seu É, em 2ª edição, foi lançado recentemente) e mantém uma coluna semanal neste DC Ilustrado.