ILUSTRADO
Terça-feira, 15 de Agosto de 2006, 20h:03
A
A
CENTENÁRIO
Papazian, o olho flagrante
O fotógrafo Lázaro Papazian teria completado 100 anos na última terça-feira,caso estivesse entre nós. Ele se mandou para o andar de cima, mas deixou um intenso acervo fotográfico
Neusa Baptista
Da Reportagem
Um casal de jovens curte o carnaval em trajes que hoje seriam considerados antiquados. Jânio Quadros posa sério com seus óculos inconfundíveis. Uma fotografia aérea da Cuiabá de outros tempos etc. Estas imagens, espalhadas por mesas e cuidadosamente catalogadas, são mostradas com orgulho pela responsável pelo acervo Lázaro Papazian, na UFMT, Maria Auxiliadora Freitas. Responsável por um acervo de cerca de 20 mil imagens, além de materiais como a primeira câmera utilizada pelo fotógrafo e sua inseparável máquina filmadora, ela conta como, quando criança, tinha medo do fotógrafo, que era alto, gordo e expansivo. Eu morava a poucos metros de sua loja a Photo Cháu e ia lá espiar as fotos. Quando ele me via, gritava: Menina, vem cá que eu quero tirar uma foto sua! e eu saía correndo, conta Auxiliadora. A tão requisitada foto foi feita anos mais tarde quando, aos 10 anos de idade, ele registrou a sua primeira comunhão, na igreja de São Benedito. O trabalho de Lázaro Papazian parece ter sido ininterrupto: pessoas, famílias, cenários, festas, nada escapou ao seu olho. Suas lentes registraram 60 anos da história e das mudanças da cidade. Seu interesse não era o de registrar apenas, mas de mostrar essas mudanças, como se quisesse acompanhar a história da cidade, e deixá-la registrada para as gerações futuras, explica Auxiliadora, cuja pesquisa de Mestrado tratou da história da fotografia em Cuiabá entre 1869 e 1950. As diferenças entre os estilos dos fotógrafos da época entre eles Mitsuo Dayma e Arturo Perez foram observados por ela em seu estudo, no qual ela constatou uma característica marcante: o estilo arrojado de Papazian, que ela considera o primeiro repórter fotográfico da época, quando a denominação ainda não existia. A paixão do jovem Papazian pela pintura e pela fotografia foi muito influenciada pela sua estadia em Paris, nos anos 20, durante o período de efervescência cultural, acredita a pesquisadora. Foi para lá que ele fugiu, vindo de uma Armênia atingida pela guerra. Depois de uma passagem pela Argentina, em 1922, veio para o Brasil, fixando-se no Rio de Janeiro, onde passou a trabalhar unicamente com a fotografia. Em 1926, um convite do então presidente do Estado, Mário Corrêa da Costa, trouxe-o definitivamente para Cuiabá. Filmagem Além da fotografia, Papazian também era apaixonado por filmagem, tendo produzido diversos curta-metragens mudos. Tudo o que fotografou a partir da década de 50 foi também filmado com a ajuda do filho Eduardo. Entre os momentos solenes, registrou a chegada dos presidentes Castelo Branco, Costa e Silva e João Goulart a Cuiabá. A derrubada das torres da catedral de Cuiabá, em 1968, também foi alvo de sua câmera. Sempre com sua máquina speed graf no pescoço, Papazian percorria a cidade em busca de fatos novos. Depois de feitas, as fotos eram coloridas pela filha Yolanda, que fazia a pintura à mão, desde muito pequena. Ele gostava do belo, transformava tudo o que via em arte, pois era muito sensível, relata Auxiliadora. Nesta semana em que Papazian completaria 100 anos de idade, as lembranças são muitas. Ele era muito expansivo, irrequieto, não se separava de sua câmera fotográfica para nada. Nem no hospital deixou que a tirassem dele. O acervo, que está sendo catalogado, terá em breve sua versão digital. Um convênio com o MISC (Museu da Imagem e do Som de Cuiabá) permitirá a visitação pública.