ILUSTRADO
Sábado, 07 de Abril de 2012, 13h:06
A
A
CRÔNICA
Outono
Juliana Curvo*
Especial para o Diário de Cuiabá
Arrumo umas gavetas em outra casa, casa que já foi minha agora é apenas a casa da mãe. Encontro escondido em uma pasta de cor laranja, alguns contos. Felicidade é ver um entre tantos que persiste ao tempo e serve como alguma literatura. Ler algum que o tempo não transformou apenas em um amontoado de palavras. Coincidência esse um ser a primeira decepção ou o primeiro não. Foi um conto que mandei para uma revista e que não foi publicado. E publicaram o conto de um colega e me lembro de ter não ter gostado. Achei, na época, que era o ego gritando: prefira o seu. Hoje acredito: o primeiro não, nunca se esquece. O conto era uma grande experimentação, sem marcações ortográficas, sem pontuação. Falava sobre uma mulher que foge correndo no outono. A falta de pontuação, com a mulher correndo, parecia genial. De qualquer maneira, insisto: não publicado. O mais estranho de tudo, ao relê-lo é o conto não falar de mim. Ou não me expor naquele momento e ter muito de mim agora. E pode ser que tenha muito de mim, quando eu reler daqui uns dez ou vinte anos. Isso sim é resistir ao tempo. Mas, o final do conto não é bom. Ele não acaba bem, não está bem escrito. Eu resolvi colocar um ponto, no final do conto, como se ela chegasse (a mulher, fugindo no outono), mas ela não chega, não vai chegar. Como diria Caio F. Abreu: batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo nesta porta que não abre nunca. (reparem: são treze vezes repetindo a palavra batendo, para finalizar com o fato dela não abrir nunca). A mulher do meu conto não vai chegar nunca, a porta não vai abrir. A fuga é eterna e o conto não deveria ter um ponto final. Depois de anos entendo a razão do conto não ter sido público, do conto não ser bom. Foi a insistência em colocar um ponto final. Vejam como o conto termina: eu continuo andando como louca perdida uma puta sem clientes numa noite fria eu sei que não vou continuar que não vou conseguir desperdicei todas as chances eu vou fazer meia volta e continuar andando na direção contrária do que pretendi no início gostaria de quando voltar ter alguém me esperando com comida vinho cobertor mas também sei que não vai existir ninguém porque eu pedi para que todos fossem embora agora observo que as pessoas me olham quando cruzam por mim talvez se eu pendurasse uma placa no meu pescoço pedindo desculpas e por favor não-te-esqueças-de-mim ficaria melhor e continuo andando voltando mas ainda sem saber bem pra onde. Quem sabe, se eu não tivesse tentado dar um final ao conto, ele seria bom, de verdade. Se eu o alimentasse diariamente, todos os anos, com mais parágrafos falando da fuga, o conto ficaria bom. Mas, sem fim ele não seria publicado nunca, você pode pensar (eu pensei nisso) e talvez ele exista apenas para isso: não ter fim, não ter finalidade, não ter publicidade, não ser de conhecimento. Ele pode ser a metáfora do meu próprio ato de escrever e não ter fim ou o final ser além de mim. Enfim, cabe dizer que é interessante o outono em Cuiabá: ainda temos chuva, não há muitas folhas secas no chão e nem manhãs frias. Venta bastante, a cidade faz aniversário e eu redescubro alguns meus pedaços perdidos por aí, valorizando, meus primeiros cabelos brancos. *Juliana Curvo é professora de literatura, inútil, mas agora com mestrado. Míope, mãe e problemática. Escreve mais do que lê, gosta mesmo de colecionar coisas velhas e ultrapassadas, e colabora com o DC Ilustrado