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Cuiabá MT, Quinta-feira, 11 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 31 de Março de 2012, 11h:48

RESENHA

Os limites da sensibilidade humana

O Estrangeiro nos leva a crer que estamos diante de uma sociedade acostumada a julgar as pessoas pelo seu comportamento e não pelos seus atos

Jacir Alfonso Zanatta*
Da Reportagem
Por fazer um raio X do ser humano, o livro está classificado em 13º lugar entre os cem melhores do século XX. “O estrangeiro”, do escritor francês nascido na Argélia, Albert Camus, é a narrativa das desventuras humanas. Uma espécie de autobiografia de todo mundo. O drama da obra pode ser visto como o drama de qualquer homem, onde o ser humano se depara constantemente com o absurdo, ponto central do pensamento do ganhador do prêmio Nobel de Literatura de 1957. Uma obra de difícil degustação. Um livro inebriante e envolvente com um personagem seco e apático. Chega a ser contraditório, assim como são os personagens do século XX e deste início do século XXI. O absurdo da vida bate à nossa porta e não sabemos o que fazer. Catástrofes e guerras que não nos comovem mais. O outro é apenas um detalhe e em alguns momentos nosso próprio inferno. Um livro que mostra que quando nosso comportamento sai do padrão ditado pelo consumismo social, acabamos por nos tornar vítimas de nós mesmos. O homem é o inimigo do homem. De nós mesmos somos desconhecidos, estranhos e neste início de século estamos nos tornando estrangeiros de nós mesmos. Se não aceitamos de bom grado os padrões de consumo social, vamos aos poucos sendo julgados pelos olhares dos nossos semelhantes nem tão semelhantes assim. Temor, medo, dúvida, incerteza e por que não dizer insegurança com relação ao futuro acabam por transformar o homem em fera predatória do homem. Humano, mas nem tanto. Racional apenas quando convém. Assim, o homem é escravo do homem. Este início de século mostra que estamos vivendo um período de contradições, de desilusão. Perdemos a esperança, a confiança e por que não dizer a fé num futuro diferente. Com isso, vamos apenas vivendo. Alguns com mais, outros com menos, mas todos são apenas sombras do que poderiam ser. Assim, somos extraterrestres no planeta que estamos. Estrangeiros no país que nascemos. Desconhecidos na sociedade que vivemos e estranhos no lar que habitamos. Em outras palavras, nós não somos nós, mas também não somos o outro e assim, sem saber quem somos vamos vagando até o dia em que, de acordo com o próprio Camus, deixaremos de ser ou de estar e passaremos a vagar, como todos fazem agora. Uma obra que mostra que não há muita saída para o ser humano. No livro, o personagem foi condenado, não pelo crime que cometeu, mas pelo seu comportamento. Assim, vemos que na sociedade dita civilizada, não importa muito nossos atos, seremos julgados pelo nosso comportamento. Neste opúsculo, Camus retrata um personagem mergulhado num mundo sem emoção e sentimento, carente de sensibilidade humana. Quem sabe seja isso o que mais nos falta: sensibilidade para a vida. Não tem como ler “O estrangeiro” e não sentir um mal-estar diante de tanta frieza. Uma obra que mostra um personagem que resume bem as pessoas deste século: tentam apenas viver, mesmo que não saibam o que isso signifique realmente. Mersault, o personagem central da obra, ao contrário de seus antepassados, não encontra mais nem explicação nem consolo para o que acontece. Sua vida não é explicada por nenhuma fé, nenhuma religião, nenhuma ideologia, nem mesmo pela fé nas ciências. O homem é livre, pode se fazer a si mesmo, sua vida está em aberto. Ele se depara, e se angustia, diante da sua própria liberdade, ponto central de toda filosofia existencialista. O romance tem uma situação central no homicídio cometido por Mersault, mas não tem um valor principal. Acredito que se soubéssemos os valores de alguém, poderíamos prever os seus comportamentos em certas situações. Podemos dizer que conhecemos alguém quando sabemos como reagirá, isto é, conhecendo seus valores. Mas afinal: quem é o estrangeiro? Eu, você, todos. De nós mesmos somos desconhecidos e para os nossos semelhantes parecemos estrangeiros. Embora Mersault perceba a realidade, não toca a sua profundidade. Vive na superfície da vida e dos acontecimentos como se nada pudesse afetá-lo. O personagem até sabe que existe uma transcendência, mas não a internaliza, não a assume, nem a deseja. Tendo como base a filosofia existencialista, Camus entende que tanto faz morrer aos trinta ou aos setenta anos, pois, em qualquer um dos casos, outros homens e outras mulheres viverão, e isso durante milhares de anos. De acordo com o autor, a partir do momento em que se morre, é evidente que não importa como e quando. Sobre as incertezas da vida e do futuro Camus é taxativo: “às vezes nos julgamos seguros de alguma coisa quando, na realidade, não temos certeza alguma”. *Jacir Alfonso Zanata é jornalista e colabora com o DC Ilustrado

Edição EDIÇÃO 16960




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