ILUSTRADO
Sábado, 10 de Agosto de 2013, 13h:32
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RESENHA
O VALOR DA VIDA (UMA ENTREVISTA RARA DE FREUD) 2ª Parte
âSetenta anos ensinaram-me a aceitar a vida com serena humildadeâ.
Quem fala é o professor Sigmund Freud, o grande explorador da alma
Antônio Padilha de Carvalho*
Especial para o Diário de Cuiabá
Entre as preciosidades encontradas na biblioteca da Sociedade Sigmund Freud está essa entrevista. Foi concedida ao jornalista americano George Sylvester Viereck, em 1926. Deve ter sido publicada na imprensa americana da época. Acreditava-se que estivesse perdida, quando o Boletim da Sigmund Freud Haus publicou uma versão condensada, em 1976. Na verdade, o texto integral havia sido publicado no volume Psychoanalysis and the Fut número especial do âJournal of Psychologyâ, de Nova Iorque, em 1957. à esse texto que aqui reproduzimos em parte... SYLVESTER: Mesmo o senhor, Professor, sonha a existência complexa demais. No entanto, parece-me que o senhor seja em parte responsável pelas complexidades da civilização moderna. Antes que o senhor inventasse a psicanálise não sabÃamos que nossa personalidade é dominada por uma hoste beligerante de complexos muito questionáveis. A psicanálise torna a vida um quebra-cabeças complicado. - De maneira alguma, respondeu FREUD. A psicanálise torna a vida mais simples. Adquirimos uma nova sÃntese depois da análise. A psicanálise reordena um emaranhado de impulsos dispersos, procura enrolá-los em torno do seu carretel. Ou, modificando a metáfora, ela fornece o fio que conduz a pessoa fora do labirinto do seu inconsciente. - Ao menos na superfÃcie, porém, a vida humana nunca foi mais complexa. E a cada dia alguma nova idéia proposta pelo senhor ou por seus discÃpulos torna o problema da condução humana mais intrigante e mais contraditório. - A psicanálise, pelo menos, jamais fecha a porta a uma nova verdade. SYLVESTER: Alguns dos seus discÃpulos, mais ortodoxos do que o senhor, apega-se a cada pronunciamento que sai da sua boca. - A vida muda. A psicanálise também muda, observou FREUD. Estava apenas no começo de uma nova ciência. SYLVESTER: A estrutura cientÃfica que o senhor ergueu me parece ser muito elaborada. Seus fundamentos â a teoria do âdeslocamentoâ, da âsexualidade infantilâ, do âsimbolismo dos sonhosâ, etc. â parecem permanentes. FREUD: Eu repito, porém, que nós estamos apenas no inÃcio. Eu sou apenas um iniciador. Consegui desencavar monumentos soterrados nos substratos da mente. Mas ali onde eu descobri alguns templos, outros poderão descobrir continentes. SYLVESTER: O senhor ainda coloca a ênfase sobretudo no sexo? FREUD: Respondo com as palavras do seu próprio poeta, Walt Whitman: âMas tudo faltaria, se faltasse o sexoâ (âYet all were lacking, if sex were lackingâ). Entretanto, já lhe expliquei que agora coloco ênfase quase igual naquilo que está âalémâ do prazer â a morte, a negociação da vida. Este desejo explica porque alguns homens amam a dor â como um passo para o aniquilamento! Explica porque os poetas agradecem a Whatever gods there be, That no life lives forever And even the weariest river Winds somewhere safe to sea. (âQuaisquer deuses que existam/ Que a vida nenhuma viva para sempre/ Que os mortos jamais se levantem/ E também o rio mais cansado/ Deságüe tranqüilo no marâ.) SYLVESTER: Shaw, como o senhor, não deseja viver para sempre, comentei, mas à diferença do senhor, ele considera o sexo desinteressante. - Shaw, respondeu FREUD sorrindo, não compreende o sexo. Ele não tem a mais remota concepção do amor. Não há um verdadeiro caso amoroso em nenhuma de suas peças. Ele faz brincadeira do amor de Júlio César â talvez a maior paixão da História. Deliberadamente, talvez maliciosamente, ele despe Cleópatra de toda grandeza, reduzindo-a uma insignificante garota. A razão para a estranha atitude de Shaw diante do amor, para a sua negação do móvel de todas as coisas humanas, que tira de suas peças o apelo universal, apesar do seu enorme alcance intelectual, é inerente à sua psicologia. Em um de seus prefácios, ele mesmo enfatiza o traço ascético do seu temperamento. Eu posso ter errado em muitas coisas, mas estou certo de que não errei ao enfatizar a importância do instinto sexual. Por ser tão forte, ele se choca sempre com as convenções e salvaguardas da civilização. A humanidade, em uma espécie de autodefesa, procura negar sua importância. Se você arranhar um russo, diz o provérbio, aparece o tártaro sob a pele. Analise qualquer emoção humana, não importa quão distante esteja da esfera da sexualidade, e você certamente encontrará esse impulso primordial, ao qual a própria vida deve a perpetuação. SYLVESTER: O senhor sem dúvida foi bem sucedido em transmitir esse ponto de vista aos escritores modernos. A psicanálise deu novas intensidades à literatura: FREUD: Também recebeu muito da literatura e da filosofia. Nietzsche foi um dos primeiros psicanalistas. à surpreendente até que ponto a sua intuição prenuncia as novas descobertas. Ninguém se apercebeu mais profundamente dos motivos duais da conduta humana, e da insistência do princÃpio do prazer em predominar indefinidamente. O Zaratustra diz: âA dor Grita: Vai! Mas o prazer quer eternidade Pura, profundamente eternidadeâ A psicanálise pode ser menos amplamente discutida na Ãustria e na Alemanha que nos Estados Unidos, a sua influência na literatura é imensa, porém. Thomas Mann e Hugo von Hofmannsthak muito devem a nós. Schnitzler percorre uma via que é, em larga medida, paralela ao meu próprio desenvolvimento. Ele expressa poeticamente o que eu tento comunicar cientificamente. Mas o Dr. Schnitzler não é apenas um poeta, é também um cientista. SYLVESTER: O senhor, repliquei, não é apenas um cientista, mas também um poeta. A literatura americana, continuei, está impregnada da psicanálise. Hupert Hughes Harvrey OâHiggins e outros fazem-se de seus intérpretes. à quase impossÃvel abrir um novo romance sem encontrar referência à psicanálise. Entre os dramaturgos, Eugene OâNeill e Sydney Howard tem profunda dÃvida para com o senhor. The Silver Cord, por exemplo, é simplesmente uma dramatização do complexo de Ãdipo. - Eu sei, replicou FREUD, e apresento o cumprimento que há nessa constatação. Mas tenho receio da minha popularidade nos Estados Unidos. O interesse americano pela psicanálise não se aprofunda. A popularização leva à aceitação superficial sem estudo sério. As pessoas apenas repetem as frases que aprendem no teatro ou na imprensa. Pensam compreender algo da psicanálise porque brincam com seu jargão! Eu prefiro a ocupação intensa com a psicanálise, tal como ocorre nos centros europeus. FREUD: A América foi o primeiro paÃs a reconhecer-me oficialmente. A Clark University concedeu-me um diploma honorário quando eu ainda era ignorado na Europa. Entretanto, a América fez poucas contribuições originais à psicanálise. Os americanos são julgadores inteligentes, raramente pensadores criativos. Os médicos nos Estados Unidos, e ocasionalmente também na Europa, procuram monopolizar para si a psicanálise. Mas seria um perigo para a psicanálise deixá-la exclusivamente nas mãos dos médicos. Pois uma formação estritamente médica é com freqüência um empecilho para o psicanalista. à sempre um empecilho, quando certas concepções cientÃficas tradicionais ficam arraigadas no cérebro estudioso. Freud tem que dizer a verdade a qualquer preço! Ele não pode obrigar a si mesmo a agradar a América, onde está a maioria de seus admiradores. Apesar da sua intransigente integridade, Freud é a urbanidade em pessoa. Ele ouve pacientemente cada intervenção, não procurando jamais intimidar o entrevistador. Raro é o visitante que deixa sua presença sem algum presente, algum sinal de hospitalidade! Havia escurecido. Era tempo de eu tomar o trem de volta à cidade que uma vez abrigara o esplender imperial dos Habsburgos. Acompanhado da esposa e da filha, Freud desceu os degraus que levavam do seu refúgio na montanha à rua, para me ver partir. Ele me pareceu cansado e triste, ao dar o seu adeus. - Não me faça parecer um pessimista, ele disse após o aperto de mão. Eu não tenho desprezo pelo mundo. Expressar desdém pelo mundo é apenas outra forma de cortejá-lo, de ganhar audiência e aplauso. Não, eu não sou um pessimista, não enquanto tiver meus filhos, minha mulher e minhas flores! Não sou infeliz â ao menos não mais infeliz que os outros. O apito de meu trem soou na noite. O automóvel me conduzia rapidamente para a estação. Aos poucos o vulto ligeiramente curvado e a cabeça grisalha de Sigmund Freud desapareceram na distância. *Antônio Padilha de Carvalho é Advogado, Geógrafo,Professor, Mestre Profissional em Direito do Estado, Especialista em Educação e Filosofia, Escritor e Palestrante; Terapeuta Orientacional e colabora com o DC Ilustrado.