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ILUSTRADO
Sábado, 22 de Março de 2008, 13h:01

CRÔNICA

O submundo da Escócia: uísque e saia

Caminhando pelas ruas, não encontrei mais homens de saia. Ou eles tinham desaparecido ou eu estava tão bêbado que não fui capaz de reconhecê-loS

Rodrigo Capella*
Especial para o Diário de Cuiabá
E lá fui eu, rumo a Edimburgo, cidade mais importante da Escócia. Essa cidade, aparentemente estranha, me proporcionou várias aventuras. Mas, antes de contá-las, vou lhe apresentar o território escocês: localizado no noroeste da Europa, ele tem mais de 700 ilhas e foi fundado, segundo os historiadores, em 843 quando Kenneth I se tornou rei. Trata-se, portanto, de uma civilização bem antiga, com costumes e hábitos bem diferentes do Brasil. A começar pelo kilt, uma saia estranha, usada pelos homens. Ela tem uma estampa cheia de quadrados, de cores variadas, dependendo da família. Não foi difícil encontrar um rapaz, vestindo kilt e tocando gaita. Aliás, esse era o meu primeiro objetivo. Não se pode ir a Salvador, no Brasil, sem encontrar uma baiana fazendo acarajé; e também não se pode ir a Escócia sem... Bom, você agora já sabe. Em Edimburgo, o que mais me chamou atenção, foi o Castelo. Construído sob rocha de origem vulcânica, ele é encantador e, realmente, inspira. Logo quando entrei, imaginei-me na Idade Média, lutando contra cavaleiros, montando em cavalo, disparando tiros de canhão, gritando alto. Lá dentro é possível ver as jóias da Coroa Escocesa, a quase singela Capela de Santa Margareth, um antigo canhão e, principalmente, a prisão de guerra, que chegou a me dar medo. Nesse local, estiveram detidos marinheiros de várias nações, inclusive dos Estados Unidos. Antes de entrar na prisão, é possível ver uma porta, toda desenhada pelos prisioneiros. É possível ver barcos e navios, de vários tipos e tamanhos. Ou os prisioneiros estavam lembrando de suas embarcações; ou estavam construindo uma outra para fugirem da Escócia. O quarto, apertado e mal iluminado, dá arrepios e nos remete à Antiguidade. É como se sentir um prisioneiro, dormir na rede, rabiscar na porta. Sensação como essa eu só tive em San Francisco, nos Estados Unidos, quando visitei a famosa Alcatraz. Lá, eu realmente pirei e achei que não ia sobreviver. Celas automáticas, ar sombrio e atmosfera triste. Na Escócia, como nos Estados Unidos, eu fiquei deprimido e jurei que nunca mais iria visitar uma prisão. Essa loucura toda me deu vontade de tomar uma típica cerveja escocesa. Pensei logo na Dragonhead Stout, muito apreciada por lá e também pelos brasileiros que lá visitam. A caminho do pub encontrei um tour do uísque. Isso mesmo: lá, era possível conhecer, passo-a-passo, como essa fabulosa bebida foi desenvolvida e como ela é fabricada. Não hesitei e entrei no tour. Logo de cara, foi servida uma dose de uísque, quase morri de tosse. Depois, fomos conduzidos a uma outra sala, na qual foi passado um vídeo. Soube que o uísque teria sido criado em 1494, por um tal frei John. Teria uma semelhança com o nome John Walker? Ou o John Walker seria uma homenagem para o John? Fiquei sabendo também, pela primeira vez, que existem vários tipos de uísque, como, por exemplo, o puro malte, com 100% com cereais maltados; e o Blended, que é uma verdadeira mistura de destilações. Saí do tour do uísque quase bêbado, mas com diversos conhecimentos sobre a bebida. Caminhando pelas ruas, não encontrei mais homens de saia. Ou eles tinham desaparecido ou eu estava tão bêbado que não fui capaz de reconhecê-los. Retornei, sem pensar duas vezes, ao hotel para tomar um banho, dar uma descansada e sair, rumo a uma típica festa escocesa. Reparei em lindas garotas, aparentemente prostitutas, entrando em um beco e depois em uma casa, com um som alto. Fui atrás e, sem me dar conta, já estava dentro da casa. O som alto, mesas de sinuca espalhadas, sofás diversos e vários ambientes. Mas, algo me incomodava: a maioria das pessoas era homem e isso me dava alergia. Rapidamente, saí de lá, rumo a outro bar ou outra festa. Entrei em outro bar e também: lá a maioria era homem; fui em outro e: a mesma coisa. Voltei para o hotel com saudades do Brasil e com tristeza: faltam mulheres na Escócia. Será que é por isso que os homens usam saias? (*) Rodrigo Capella é escritor e poeta. Autor de vários livros, entre eles “Rir ou chorar” e “Transroca, o navio proibido”, que está sendo adaptado para o cinema pelo diretor Ricardo Zimmer. Informações: www.rodrigocapella.com.br

Edição EDIÇÃO 16967




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