ILUSTRADO
Sábado, 31 de Julho de 2010, 12h:14
A
A
CRÔNICA
O alce amigo
Valéria del Cueto
Agência Estado
Era uma vez um casal numa reunião de amigos. Lá pelas tantas a mulher se dirige à sua cara metade nos seguintes termos: - Alce, por favor, me passa o guardanapo? Olhei para o marido. Alce, pensei. Procurei alguma semelhança. Não havia. Associei a imagem do animal ao seu similar mais próximo. Nenhuma parecença. O codinome havia sido usado de uma forma cem por cento carinhosa. Como a conversa estava boa, alguma coisa me distraiu e esqueci o assunto. Até que, alguns dias depois... Lá vem ela de novo, num papo sobre viagens - Adoramos a Europa, não foi, Alce? E o marido lá felizão com o apelido íntimo, porém adotado publicamente. Não resisti à curiosidade e, na primeira oportunidade, fui direto ao ponto e encostei, gentilmente, a amiga na parede perguntando que raio de tratamento era aquele. O fiz de forma a deixar claro que minha curiosidade feminina não continha nenhum tipo de preconceito em relação ao animal em foco. - Alce? Disse eu. Que coisa mais original. De onde vem essa imagem não meiga? Os olhos dela reluziram quando começou a responder, com aquele brilho que acompanha a narrativa de uma de nossas melhores lembranças. Aquelas inesquecíveis e insubstituíveis. - Você reparou que eu chamo meu marido assim? - Carinhosamente. Acrescentei, provocando uma risada gostosa e cúmplice. Sinal de que a história sairia sem maquiagem ou restrições. Vamos a ela, tal e qual me foi narrada: - Na lua de mel fomos à Europa e, a certa altura da viagem, numa estradinha nos Alpes, depois de horas rodando, quando a gente procurava um hotelzinho romântico que tinham nos recomendado, nos perdemos. Era final de tarde. Eu olhava o mapa e ia indicando as referências, já que naquele tempo, mulher era GPS e co-pilota. Disse pra ele dobrar a direita, mas ele me desobedeceu e seguiu em frente. Mais adiante descobrimos que a estradinha era um beco sem saída. Quando vi, quis dizer que ele havia feito uma burrice. Mas me lembrei de mamãe que me ensinou a sempre tratar bem meu companheiro. Chamar o marido de burro, já na lua de mel, ia contra meus princípios de mulherzinha recém casada. - Ora, seu... Fiquei sem palavras por uns segundos procurando um sinônimo para a qualidade que eu queria imputar a ele, até que vi uma placa sinalizando que havia animais na pista. E o bichinho estilizado era um... alce, tão fofinho! - Ora, seu... ALCE!, falei. Fui super educada, não é? Pois ele entendeu o recado riu da sua teimosia masculina e o apelido pegou... Moral da história: Se é pra xingar marido, que seja de forma singela para o entendimento dele. O que os outros pensam, não tem a menor importância, não é mesmo, Alce? * Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval e colabora com o DC Ilustrado. Este artigo faz parte da série Parador Cuyabano, do SEM FIM http://delcueto.multiply.com