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Cuiabá MT, Terça-feira, 16 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 07 de Dezembro de 2013, 13h:12

A CIDADE VIVE DOS QUE VIVEM E VIVERAM NELA

NEILA MARIA: A bonita trajetória do Padre Ernesto Camilo Barreto

Evaldo de Barros
Especial para o Diário de Cuiabá
A história de Cuiabá e Mato Grosso é referta das presenças de bispos e padres que muito fizeram pelo nosso progresso sócio cultural e religioso. Listam-se: Dom Aquino Corrêa, presidente do Estado e fundador da Academia Mato-grossense de Letras; Dom Orlando Chaves que implodiu a antiga Matriz, mas construiu a atual Basílica, fundou a Rádio Difusora Bom Jesus de Cuiabá, manteve em circulação o jornal A Cruz, construiu o Seminário do Cristo Rei, etc.; Dom Campelo que, segundo a Dra. Leila Francisca de Souza trouxe a primeira assistente social para Cuiabá e implantou serviços assistenciais aos necessitados e os padres: Wanir Delfino Cesar que foi o proprietário da Rádio Cultura e realizou magnífico serviço assistencial no bairro do terceiro; Frei Quirino que manteve a paróquia da Boa Morte com forte apelo à defesa dos vulneráveis; padre Luiz Sutera, vigário geral de Cuiabá e diretor do Colégio São Gonçalo; pe. Pedro Cometi, membro da Academia Mato-grossense de Letras e Capelão da Penitenciária Central do Estado; Pe. Firmo Pinto Duarte Filho, diretor do Liceu Cuiabano, do Colégio São Gonçalo, vigário geral de Cuiabá. Dentre os citados não são poucos os católicos que atribuem o recebimento de graça (milagre) pelas intercessões dos padres Sutera, Firmo e Ernesto Camilo Barreto do qual nos ocuparemos hoje com a ajuda da jornalista, professora e historiadora Neila Maria Souza Barreto, nascida em Rosário Oeste em 21 de janeiro de 1955, filha de Hélio da Silva Rondon e de D. Alayde Francisca de Souza. Neila é autora da celebre obra Água de Beber. Cuiabana de coração, Neila estudou inicialmente na Escola Modelo Barão de Melgaço e no Colégio Estadual de Mato Grosso atual Liceu Cuiabano D. Maria Arruda Müller. DC ILUSTRADO - Já lemos a extraordinária dissertação da ilustre professora Elizabeth Madureira Siqueira denominada: Padre Ernesto Camilo Barreto e sua contribuição na modernização do cenário educacional de Mato Grosso (século XIX). Como foi desenvolvido o trabalho da senhora em parceria com Luiz Ernesto S. Barreto? NEILA - Organizamos esta narrativa tratando de relacionar a vida do Pe. Ernesto Camillo Barreto e seus descendentes no ambiente da Barra do Pary, na cidade de Cuiabá entre as suas lendas, rios, paisagens, histórias e descendentes. Parto das palavras do Pe. Ernesto para expressar a importância histórica da região do Pary para a capital mato-grossense. Acompanho a preocupação do Pe. Ernesto em dizer que o Pary era o seu refúgio, dando importância à sua constituição como vivenda habitual da educação, da religiosidade, da família e do lugar de prazer e de viver. DC ILUSTRADO - Como surgiu a barra do Pary. NEILA - A Barra do Pary surgiu da “Casa Grande”. Nessa casa funcionou o Educandário construído pelo Pe. Ernesto Camilo Barreto. Foram das paredes em ruínas que surgiu o bairro. No passado, período do século XIX seus moradores viviam da pesca artesanal, da venda de rapadura, de leite e de tijolos produzidos pelas olarias. DC ILUSTRADO - E as casas do Pary. NEILA - As pequenas casas são obras das famílias descendente do Pe. Ernesto complementado pelo neto Benedito Oscarino Barreto - o Ditão. As mais antigas – pequenos casebres -, foram construídas com os tijolos das próprias olarias do lugar. DC ILUSTRADO - Já houve um internato no Pary? NEILA - O Pe. Ernesto Camillo Barreto fundou em 07 de janeiro de 1879 o internato São João Batista, instalado às margens do rio Pary. O internato São João Batista foi uma instituição que ficou na história, ainda hoje rememorada na tradição do ensino mato-grossense, era destinado à instrução dos ensinos primário e secundário. DC ILUSTRADO - Os restos mortais do padre Ernesto foram sepultados no Cemitério da Piedade, em Cuiabá. Conte-nos do início da vida dele. NEILA - Nasceu na cidade de Cachoeira, Bahia, a 19 de fevereiro de 1826, que por longo tempo assinou o nome Ernesto de São Joaquim Barreto. Ingressou na Ordem Franciscana daquela província (29/9/1842) e nela professou até 19 de março de 1844. Fez o Curso Filosófico e Teológico junto ao Colégio da mesma Ordem, concluindo esses estudos no ano de 1847. Entrou para a Ordem Franciscana e foi sagrado presbítero, em 30 de novembro de 1850, pelo arcebispo Dom Romualdo Antônio de Seixas. Foi Pregador e Passante no Capítulo Geral. DC ILUSTRADO - E como foi a vinda para Cuiabá? NEILA - Sua vinda para Cuiabá, capital da então província de Mato Grosso, se deveu à solicitação feita pelo primeiro Bispo de Mato Grosso, no governo. José Antônio dos Reis, de um professor de Teologia Dogmática e Moral para atuar junto ao Seminário Episcopal da Conceição, primeiro estabelecimento de ensino secundário da província de Mato Grosso, criado no ano de 1853. Pe. Ernesto aceitou o convite, tendo deixado a Bahia, acompanhado da mãe e de um casal de irmãos, Alonso José Barreto e Umbelina Carolina Barreto. Chegou em Cuiabá a 07 de agosto de 1854. DC ILUSTRADO - Depois de lecionar várias disciplinas e editar obras para consumo dos alunos o padre Ernesto trabalhou pela construção do Seminário da Conceição, pois não? NEILA - “Em 1858 participou ativamente dos trabalhos de lançamento da pedra fundamental do edifício do Seminário Episcopal da Conceição, tendo proferido as emocionadas palavras: O dia de hoje, sim, elevando os nossos pensamentos a considerar no objeto que nos chama em torno dos sagrados altares, fica e anuncia uma nova época de educação intelectual, moral e religiosa na província, não só aos Levitas destinados a balançarem nos turíbulos de ouro o fumo do incenso e do benjoim que tem de ser ofertado por vós, e pelos filhos de nossos filhos até as últimas gerações àquele que é o autor de tudo criado, e à Maria, debaixo de cuja proteção se hão já abrigado, como também a esta tenra e vigorosa mocidade que, por encanto, verá surgir o futuro das salas deste Estabelecimento, cujo primeiro fundamento vistes agora lançar-se para fazer as delícias de suas famílias, a glória desta Província, a honra de nosso País e a admiração dos estranhos, já pela ciência, já pela virtude, e já finalmente pelos dotes que harmonicamente produzem estes germes poderosos da educação cristã.” DC ILUSTRADO - Sabe-se que o papa Pio IX, em reconhecimento aos trabalhos do padre Ernesto concedeu-lhe o título de Protonotário Apostólico e que foi Reitor do Seminário que ajudou criar. Ele recebeu algum outro título? NEILA - O domínio pedagógico e administrativo exercido junto ao Seminário Episcopal da Conceição propiciou ao Pe. Ernesto Camilo Barreto, reconhecimento social, o que lhe valeu ocupar, em 1863, o mais alto posto da Instrução Pública, Inspetor Geral dos Estudos, junto ao governo da província de Mato Grosso. DC ILUSTRADO - Morto em 26 de março de 1896, aos 70 anos, o padre Ernesto não cumpriu seus votos de castidade posto que muitos dos seus descendentes se fazem presentes no cenário cuiabano atual. Ele foi jornalista, político e membro da maçonaria? NEILA - Ele fundou em parceria com João de Souza Neves o periódico A Imprensa de Cuiabá importante veículo conservador da província. Foi deputado provincial pela Província de Mato Grosso e membro da Academia Mato-grossense de Letras sendo patrono da cadeira nº 14. A exemplo de outros contemporâneos matriculou-se na loja Estreia do Ocidente onde alcançou o alto título de Príncipe Rosa Cruz, no grau 33. DC ILUSTRADO - O padre Ernesto Camilo Barreto deixou algum testamento? NEILA - “Com base no testamento do Pe. Ernesto Camillo Barreto localizado no cartório do 5º ofício, em Cuiabá, Mato Grosso: Declaro finalmente que por fragilidade humana, tive com a Senhora Maria do Rozário Pires os seguintes filhos: 1- Athanagildo Clodoaldo Barreto, 2- Astrogilda Carolina Barreto, 3- Archimimo José Barreto, 4- Ernesto Camillo Barreto, 5- Anna Clara Barreto, 6- João Benedito Barreto e 7- José Egydio Barreto, a todos os quais por este testamento, reconheço como filhos meus e os instituo únicos e universais herdeiros (..). (BARRETO, lº/09/1890, p. 6v). Athanagildo Clodoaldo Barreto casou-se pela primeira vez com Guilhermina Fontes Barreto com quem teve um único filho Ernesto Umbelino Barreto que se casou com Alice Ferreira Coelho Barreto tendo os seguintes filhos: Cláudio Coelho Barreto, Lourival Coelho Barreto, Célia Barreto de Araújo e Edy Coelho Barreto. Cláudio Coelho Barreto casou-se com Áurea Maria da Silva Barreto e teve os filhos Luiz Ernesto da Silva Barreto, Maria Alice Barreto Mello, Cláudio Coelho Barreto Junior, Jorge André da Silva Barreto, Kátia Andréa Barreto Lopes, Karen Cristina da Silva Barreto Lisboa. Luiz Ernesto da Silva Barreto é casado com Neila Maria Souza Barreto e pais de Maria Carolina de Souza Barreto, Maria Cláudia de Souza Barreto e Maria Rita de Souza Barreto. Viúvo, Athanagildo casou-se com Ana Maria Barreto e teve os filhos Benedito Brasil Barreto (Quitito), Benedito Alonso Barreto (Moreno), Nair Barreto Borges (Fiona), Benedito Oscarino Barreto (Ditão), Nazira Barreto Freire (Ná), Adelaide Emerenciana Barreto, Francisco de Paula Barreto (Nhonho), Maria da Glória Barreto, Benedito Clodoaldo Barreto (Nizito), Nadir Barreto Pereira Borges e Ana Maria de Souza. As mulheres da família foram casando e vendendo a sua parte na chácara do Pary para o irmão Ditão. Moreno casou-se com a professora Otacília de França Barreto e foi morar em Rosário Oeste. Teve os filhos Ernesto França Barreto, Benedito de França Barreto, Everaldo de França Barreto, Enildo de França Barreto, Edno Claro de França Barreto e Gilmar de França Barreto. Ditão casou-se com Maria Viana Barreto, pais de Édson Viana Barreto e Edisséia Viana Barreto. Foi avô de Isabela Barreto Araújo e Larissa Barreto Araújo. Nunca saiu da chácara do Pary permanecendo até a sua morte em 2005. Construiu a igreja de São Benedito, o cemitério anexo e manteve por um bom tempo a escola local com a ajuda do governo e do município. Dono de uma voz melodiosa era apaixonado por violão. Receberam na chácara do Pary governadores mato-grossenses como João Ponce de Arruda”. CONCLUSÃO A jornalista, professora e historiadora Neila Maria vem realizando um trabalho maravilhoso sobre Cuiabá e Mato Grosso. O seu livro Água de Beber é referência sobre o precioso e indispensável liquido em Cuiabá. Nesta abordagem sobre o educador fantástico que foi o padre Ernesto Camilo Barreto ela resgata com rara habilidade e conhecimento por força do parentesco a vida de um dos religiosos mais importantes da Igreja Católica de Cuiabá e Mato Grosso. A numerosa família Calhao, sabe-se agora, originou-se do casamento de Umbelina Barreto, irmã do padre Ernesto, com o capitão J.J Rodrigues Calhao. Benedito Oscarino Barreto o celebre Ditão foi considerado o maior cacique político do antigo Partido Social Democrático (PSD) sendo amigo íntimo do senador Filinto Müller e do governador João Ponce de Arruda. Aliás, não são poucos os doutores de hoje que foram apadrinhados por Ditão para subir na vida.

Edição EDIÇÃO 16962




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