ILUSTRADO
Quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009, 00h:11
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LIVRO
Narrativa que vai das pedras ao sertanejo
"Sertão Sem Fim", que acaba de ser lançado, é a mais recente obra que chega às livrarias de Araquém Alcântara, um dos mais talentosos e reconhecidos fotógrafos brasileiros atualmente
Antonio Gonçalves Filho
Agência Estado
O sertão está para o fotógrafo catarinense Araquém Alcântara como o Parque Nacional Yosemite estava para o norte-americano Ansel Adams (1902 -1984). Em lugares como o Parque Nacional do Catimbau, em Buíque, Pernambuco, foto que abre o livro de Alcântara, "Sertão Sem Fim", que acaba de ser lançado, as semelhanças com as paisagens de Adams não ficam restritas ao uso do preto e branco ou à monumentalidade das grandes formações rochosas que caracterizam as fotos do americano. No livro do brasileiro, o território dos sertões é mapeado com a mesma disposição que Adams fotografou Yosemite, mas com uma diferença: nele, a figura humana surge amalgamada à paisagem, enquanto Adams, conservacionista, idealizou a natureza sem a presença do homem. É nesse território mítico, fabular, cenário de livros escritos por Euclides da Cunha e Guimarães Rosa, entre outros, que Araquém foi buscar o sertanejo estoico e corajoso descrito pelo primeiro e a paisagem desolada onde se trava a luta entre forças antagônicas no épico de Rosa, "Grande Sertão: Veredas". O título do livro de Araquém, aliás, não se refere apenas à imensidão territorial dos sertões, mas a uma forma de ver o agreste sem ceder à tentação de uma descrição simples. Por isso, Alcântara e outro fotógrafo, Eder Chiodetto, organizador das imagens de Sertão Sem Fim, adotaram uma narrativa circular para contar essa nova história de um sertão onde os cavalos foram trocados por ruidosas motocicletas e os peões passam a noite em baladas, no lugar de contemplar as estrelas. Alcântara explica que a adoção de uma linha narrativa para conduzir a viagem por esse território não foi gratuita. Ela começa justamente com as rochas do Parque Nacional do Catimbau para usar o idioma do próprio sertão - árido, seco, calcinado. É o que ele chama de "educação pela pedra", citando João Cabral de Melo Neto. Da mesma forma que o poeta pernambucano trabalhou seus poemas para adquirirem a consistência rígida de uma pedra, Alcântara partiu para o sertão com uma Leica R6-2, toda mecânica, para ajustar suas lentes a uma realidade que resiste à simplificação digital. O preto e branco não é uma concessão ao pictorialismo, mas uma tentativa de abordagem mais realista que a cor, segundo o fotógrafo. Ela não permitira esse registro naturalista. Conduziria automaticamente à manipulação, ao ajuste cromático. Assim, despojado, Alcântara passou dois anos percorrendo oito Estados brasileiros, começando pelos caminhos mineiros de Guimarães Rosa, hoje consumidos pela erosão. "Fui atrás do sertão primordial e encontrei uma terra calcinada, avessa à prosperidade, invadida pelo lixo urbano, onde a miséria ainda reina", observa o fotógrafo, que não encontrou pelo caminho o herói épico do "Grande Sertão", mas um sertanejo abatido, entregue ao delírio místico, que mantém com muito esforço suas tradições. A professora de Literatura Walnice Nogueira Galvão, da USP, que assina no livro um texto sobre os sertões visto por escritores, cineastas e artistas populares, nota que a concepção desse abismo entre o "país litorâneo, civilizado" e o interior, "primitivo, atrasado", foi sistematizada por Euclides da Cunha em "Os Sertões". Mais de um século depois, as imagens que Araquém Alcântara registra de Canudos, na Bahia, onde se deu o conflito entre republicanos e os crentes guiados por Antonio Conselheiro, atestam que nada mudou por lá.