ILUSTRADO
Terça-feira, 12 de Abril de 2016, 18h:39
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ARTE SACRA
Museu exibe esculturas que sobreviveram à catedral dinamitada
O visitante pode apreciar itens que contam a história da religiosidade mato-grossense do século 17 até o século 20
ENOCK CAVALCANTI
Da Editoria
Uma cidade se faz e se desfaz com construções e demolições. Cuiabá, capital de Mato Grosso, como se sabe, é uma cidade marcada pela religiosidade. Para lembrar desse afeto, boa parte dos bens culturais do passado encontram-se salvaguardados no Museu de Arte Sacra de Mato Grosso. Neste mês de abril, repleto de eventos que celebram o aniversário da cidade, mesmo com o atual prefeito viajante, que prefere espairecer em outras capitais, o MAS-MT nos possibilita lançar um olhar carinhoso e espantado sobre o passado, ao abrir para visitação peças do seu acervo permanente na exposição Imaginário Restaurado da Antiga Catedral Senhor Bom Jesus de Cuiabá. De terça-feira a sábado, das 9 às 17 horas e aos domingos, das 9 às 13 horas, o visitante poderá apreciar itens que contam a história da religiosidade mato-grossense do século 17 até o século 20. Peças em madeira e gesso que passaram por processo de restauro e estavam na antiga Catedral de Cuiabá, antes que ela fosse demolida. Por que caiu a Igreja? As oito peças do acervo - sendo a mais antiga delas - a de São Miguel Arcanjo e São João Batista em duas versões, em madeira no estilo barroco e em gesso, no estilo neoclássico, além de São Jorge, do século 19 - não tem a resposta. Tem apenas a beleza petrificada que não relata os desvios cruéis muitas vezes adotado pelo planejamento dos homens. A Catedral Basílica Bom Senhor Jesus de Cuiabá, outrora Igreja do Senhor Bom Jesus de Cuiabá, foi construída de pau-a-pique e coberta de palha no ano de 1722, pelo capitão-mor Jacinto Barbosa Lopes, após Miguel Sutil ter descoberto ouro no córrego da Prainha no mesmo ano. Feita sobre um altiplano e com a frente voltada para o córrego da Prainha, o templo é uma homenagem ao Senhor Bom Jesus de Cuiabá, padroeiro da atual cidade de Cuiabá. Entre 1739 e 1740 o prédio fora reconstruído em taipa de pilão pelo padre João Caetano. Ao longo dos anos sua estrutura sofreu algumas alterações. Dentre elas o levantamento de uma nova Capela Mor na Igreja Matriz em 1740. Quinze anos mais tarde houve a elevação da primeira torre, porém esta veio a ruir e em 1771, frei José de Nossa Senhora da Conceição obteve sucesso ao edificar a torre, na qual fora acrescentado um relógio no ano de 1842 e após vinte e nove anos os sinos foram adicionados. Para espanto de toda a cidade, todavia, a Catedral Basílica Bom Senhor Jesus de Cuiabá foi implodida em 14 de agosto de 1968 e, em seu lugar, foi construído um templo novo, de concreto armado e inaugurado em 24 de maio de 1973, que pode ser visitado ali na Praça da República, bem no centro de Cuiabá, ao lado do Palácio da Instrução e próximo da sede da Prefeitura Municipal. Em seu livro "Catedral do Senhor Bom Jesus de Cuiabá - Um olhar sobre sua demolição", a historiadora Leilla Borges de Lacerda lembra que o fato da demolição representou uma espécie de tragédia urbana e serve de exemplo de como a falta de atenção ao patrimônio pode abrir feridas profundas numa sociedade, deixando uma lacuna impreenchível. Mas quem é que lê Leilla Borges de Lacerda? Em seu livro, a historiadora deixou evidente que a Igreja talvez tenha sido posta abaixo devido à vaidade de Dom Orlando Chaves, então principal administrador das coisas do catolocismo em nossa capital, que queria ser lembrado como responsável por grandes obras. A partir de depoimentos de pessoas como padre Firmo, Luís Phillipe Pereira Leite e Lenine Póvoas, Leila argumenta sobre a desnecessidade de demolir a catedral. Padre Firmo, já falecido, dizia que havia apenas uma parede com problema mas dom Orlando era muito vaidoso, queria construir grandes obras, e então patrocinou a demolição. Como no samba de Adoniran Barbosa, cada tábua que caiu acabou doendo no coração da cidade. Para os interessados em rever as relíquias da Catedral, é bom saber que o Museu de Arte Sacra é administrado via contrato de gestão entre a Secretaria de Estado de Cultura e a Associação Casa de Guimarães. A entrada custa R$ 2, de terça-feira a sábado e aos domingos, é gratuita.