Numa época dura de militância, não muito distante, vivia eu acuado igual onça presa em arataca. Sofria esculhambações porque, segundo alguns, defendia um regime que a galera definiu como arcaico e obsoleto. Na verdade, apenas praticava o que continuo imaginando até o exato momento: que há males necessários para se chegar à luz da consciência. Não sei por que cargas dáguas?, na época fui me alojar justamente num ninho petista daqueles mais roxos que aquilo do Collor. Alguns amigos quando falavam comigo até inchavam as veias do pescoço que quase embarcavam num enfarte. Ás vezes aquilo me enchia tanto que eu apanhava meus paninhos de bunda e sumia no mundão. Passava largos meses fora e assim que regressava a terrinha quente lá estava eu na chapa do calor da discussão. Quando o Lula foi eleito presidente disse cá para os meus botões: agora quero ver o sapeca iaiá! Nessa época o pessoal estava tão entretido com a novidade da internet que o fato nem foi relevante. Nas nossas reuniões a galera se limitava a discutir a mudança da linguagem. A larga inserção de símbolos na gramática. Era imperdoável a quantidade de erros e atentados contra a língua portuguesa. Enquanto isso o movimento Brasil/Bolsa família crescia. O Jefferson esperneava e alguns sorriam dizendo que o mensalão era coisa da direita matreira. Confesso que fiquei em dúvida! Em cismar sozinho à noite, mas triste ficava. Sentia vontade de colocar o assunto a prática. Mas meus amigos estavam tão felizes e tão obcecados pelos erros da net. Deixando-me totalmente impossibilitado de cercear tamanho momento de prazer. Um dia, em meio a programação a emissora de TV resolve abrir um espaço para o Presidente dizer desconsolado que não sabia de nada. Olhei no rosto de alguns que engoliam a seco e olhavam perplexo a telinha. Fui ao banheiro e lá fiquei por algum tempo. Retornei e todos se lembraram de fazer alguma coisa e aos poucos se retiraram e fiquei só na minha casa apanhando as latinhas vazias que ficaram espalhadas. Desde então percebi uma angústia lânguida nos olhos de alguns. Sinceramente, apesar dos pesares, ainda prefiro acreditar que devemos enfrentar algumas adversidades para conseguirmos moldar o melhor que possamos ser. O País é velho, mas a Democracia é uma jovem delinquente com hormônios aflorados. A luta continua, apenas as armas mudaram. Luis Gonçalves Publicitário e escritor e colabora com o DC Ilustrado
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