Na lapela do dia, bem por ali onde a noite entra naquela contenda esquisita com a luz do dia, senti que o pensamento fazia uma revoada besta. Montado na faminta vontade de ser feliz. Finquei o juízo na proa de um pensar não menos delicado, a dança de um quadril que cruzava o asfalto. Nunca fui de fazer firula em bar nesse entremeio de horas. Mas naquele momento se fazia necessário. Aguardava a sujeita cruzar a praça para testar a minha destreza de homem sem vergonha. Queria encostá la na quina de uma parece só para medir o tamanho de sua respiração. Conforme o tamanho do suspiro não custa nada dar uma molhada de bico naqueles lábios carnudos só pra ter o prazer de limpar o batom depois. Porém, a demora estava espichando mais que a minha paciência. Meu juízo fustigado chegava latejar o alcance da vista. O relógio patinava numa lerdeza sem fim. Deveria ter convocado o técnico para lhe dar uma limpeza. Esse tempo é danado para empacar relógio. Lancei em direção ao miolo da praça e logo em seguida uma voz de fêmea colou meus passos. Era uma antiga fonte de luxúria que muito havia me desencaminhado pela estância do prazer. Senti que ela estava gozando de ótima fragrância, dessas que empina qualquer pensamento para as terceiras e quartas intenções. Tentei apostar na postura de homem recauchutado, mas não deu certo. Na quinta frase completa nós já estávamos agasalhando a quinta marcha no aconchego da mesa do bar. E num desses diálogos que tentam atarraxar o antes para o depois, ouvi um zumbido do sexto sentido. Ergui a vista no tempo exato de ver aquele pedaço de minha vida empinar rumo ao perdido lance do adeus. Meus olhos pariram uma tristeza daquelas que apaga até fogo de lamparina. Abri fuga do local ensacado no plástico negro da dor. Percebi que o ciúme é uma paulada sem crise. O ciúme tem olhos e ouvidos que o vivente desconhece. O ciúme é o oposto a paz. Vem numa enxurrada de vento abraçado na surpresa. O que mais me irritava era o flagrante. Detesto ser pego com a mão na cumbuca. Quando consegui alinhar a razão e dar cor a minha calma, apanhei o celular e liguei para a sirigaita. Afinal, se acabou com meu encontro tão esperado, deveria ter pelo menos a decência de me fazer feliz. *Luís Gonçalves é publicitário, escritor e colabora com o DC Ilustrado
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