Qual é a primeira coisa que se ouve quando uma criança entra numa sala cheia de obras de arte únicas, algumas valendo milhões de reais? Muito provavelmente, serão as súplicas de um monitor ou segurança para que seus responsáveis não a deixem tocar em nada.
Se algo assim acontecesse, a nova exposição da Pinacoteca de São Paulo perderia a razão de ser. Os adultos é que são coadjuvantes em "Para Crianças: Experiências com a Arte desde 1968", que abriu no fim de maio e encerra em outubro, no fim de semana seguinte ao Dia das Crianças.
A mostra, segundo Ana Maria Maia, cocuradora ao lado de Lorraine Mendes, não existe sem esse público nem sempre benquisto em museus. "Em vez de arruinar, ele faz a obra existir, ele completa a obra."
O espírito da coisa transparece num caderno de atividades proposto no lugar daqueles catálogos com texto cabeça que geralmente acompanham grandes exposições. Ilustrado por Talita Hoffmann, que já fez capas de livros infantis para gente como Luiz Ruffato e os colunistas da Folha de S.Paulo Tati Bernardi e Antonio Prata, o livro sugere várias brincadeiras que interagem com o trabalho dos 11 artistas na mostra, alguns muito conhecidos dos adultos, como Lygia Pape e Ernesto Neto.
Fica o convite na página 18: escreva um medo, um medinho e um medão que você tem hoje adultos, que os têm aos montes, também podem registrá-los. O exercício espelha "O Nome do Medo", instalação que a mineira Rivane Neueschwander criou em 2017.
É um exemplo redondo de "como trazer as crianças como agentes artísticos ativos das obras", diz Maia. "É bonito de pensar como elas são colaboradoras dos artistas. Neueschwander chamou as crianças para contar para ela quais eram seus maiores medos, e depois para desenhar capas que as protegem desses medos. Então já começa esse exercício de imaginação e de criação."
A instalação atual conta com cerca de 20 dessas capas, algumas que podem ser vestidas pelos visitantes, outras apenas para observação. Há um modelo que remete a zumbi e ao pânico de sentir saudade.
Em texto do Museu de Arte do Rio, onde o projeto já foi exposto, a artista é creditada por articular "interstícios da palavra e da imagem", disponibilizando "seu instrumental poético para um mergulho na história e experiência do outro".
Já o material da Pina fala a língua da garotada: "Junto com elas, [Neueschwander] pensou em formas que os medos teriam. Ela então chamou amigos artistas para transformar esses medos em capas. Quando estamos vestindo o medo, podemos ter mais coragem e vencê-lo!"
Também dá para recriar em casa uma miniversão de "A Criança e o Artista", armada pelo paulista Marcello Nitsche 49 anos atrás. Mencionada na exposição de agora, a obra só existia com a participação do público alvo, que primeiro atravessava uma grande e colorida bolha inflável e depois era convidado a pintá-la. Para refazer os "sopros de cor", bastam um recipiente, uma colher de chá, água, detergente, tinta guache, copo descartável e folhas grandes de papel, mais a ajuda de um adulto.
"Para Crianças" será, junto com uma do sul-coreano Nam June Paik, a maior exposição do ano na Pina. O planejamento começou há três anos, numa parceria com o alemão Haus der Kunst. O museu de Munique também apresentou a mostra.
Há uma obra, contudo, que só será vista por aqui: um banco de areia gigante, criação da paulista Graziela Kunsch, que em 2022 foi a única brasileira na Documenta de Kassel, a maior mostra de arte do mundo.
Não se trata de uma areia qualquer. Ela não é úmida como a que encontramos em tantos parquinhos por aí, que acaba virando castelinhos.
A areia na Pina é fininha, bem seca, não para de pé nunca como a que preenche uma ampulheta. Foi de propósito. Sobre ela, a artista espalhou objetos pessoais ou garimpados em antiquários: panelas, moedores, funis. "A areia escorre pelos furos, não gera objeto algum. A criança repete a ação como pesquisa. A arte não precisa produzir um objeto, pode ser processo, e para mim brincar é o processo", diz a mãe de uma menina de sete anos, que começou a pesquisar a infância justamente após a filha nascer.
Kunsch conversou com a reportagem na pré-abertura da exposição, enquanto duas crianças pequenas disputavam uma bandeja da família da artista. Tudo bem se uma coisa ou outra acabar não voltando para casa. Esses itens, segundo ela, "dão essa camada de alma", para não ser tudo tão asséptico, um bando de utensílios sem personalidade.
Não faz muita diferença saber quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha, o repertório artístico ou a brincadeira. Tudo vira uma coisa só em instalações que incentivam até desenhar no chão do museu, sugestão do japonês Ei Arakawa-Nash em "Mega Please Draw Freely" (mega, por favor, desenhe livremente).
Também vale brincar de Lego. O dinamarquês Olafur Eliasson pensou numa grande mesa com vários blocos brancos que as pessoas podem montar e desmontar à vontade, de modo que sua obra está sempre se metamorfoseando em algo novo.
Maia, a curadora, observa que muitas propostas de arte para crianças partem do princípio de que tudo deve ser necessariamente colorido, chamativo e frenético, "numa intenção puramente de entretenimento". Para ela, esse excesso descamba em algo "totalmente saturado", e aí a brecha para reflexão se fecha. "Será que deixa espaço para a imaginação da criança?"
Tem muita cor na Pina, sim. Mas tem também o "espaço da sutileza, da dúvida, da hesitação, do vazio", diz. "É muito interessante a gente pensar como esses supostamente opostos podem e devem conviver em qualquer experiência voltada para as crianças. É essa ideia de que elas trazem a sua sensibilidade para completar a obra." A criançada só pode estar de brincadeira.
PARA CRIANÇAS: EXPERIÊNCIAS COM A ARTE DESDE 1968
- Quando Qua. a seg., das 10h às 18h. Até 18 de outubro
- Onde Edifício Pina Contemporânea - av. Tiradentes, 273, São Paulo
- Preço R$ 40. Grátis aos sábados e segundos domingos do mês




