ILUSTRADO
Segunda-feira, 02 de Setembro de 2013, 21h:36
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BENEDITO PEDRO DORILEO
MOSAICO CUIABANO
O apito longo da embarcação soava na curva do rio, quando o comandante avistava a cidade, após o morro de Santo Antônio. Serpenteando o pantanal, a lancha tracionava três chatas, uma pela retaguarda, outras duas nas laterais; subia e enfrentava a undosa correnteza, ao tempo em que piraputangas coloridas saltitavam saudando os viajores em primeiros bem-vindos. Era o nosso único caminho, o fluvial para a navegação pelos rios da Prata: Paraná, Paraguai e Cuiabá. Corríamos ao porto sempre em festa pela movimentação intensa do comércio, estimulado pelo rio Cuiabá, caudaloso, puro e piscoso. O desprezo de hoje dói na consciência cuiabana vendo-o decaído e arruinado. O esgoto in natura é lançado nas suas águas impiedosamente. Edifícios novos à sua margem crescem dando-lhe as costas para nele lançar os dejetos, matando o oxigênio da sua vida. Ele, o patrimônio maior, foi desintegrado do povo. O cais de pedras cristais era o símbolo da nossa economia no século XIX e metade do XX, o marco da navegação fluvial, o signo dos heróis estivadores e carroceiros. Compunha o cenário do porto com o rio, a agência Miguéis e as casas comerciais, com expressões como Hid Alfredo Scaff, comerciante e da comunicação do radioamador, interligando comando de vapores, marinha, famílias, compradores etc. Além da poesia do Cisne branco e das valsas pela banda militar, que animava ainda os lenços brancos das despedidas. A avenida Beira-Rio não lhe poupou a história. Dentre as mercadorias descarregadas, chegavam as sacas de cimento Votoran e Votorantin para o transporte em carroça de três burros. O cimento para as construções, bem como para as poucas e pequenas fábricas de ladrilho hidráulico. Foram fabricantes pioneiros em Cuiabá, Francisco Mechi e Pedro Gratidiano Dorileo. De alta resistência é uma placa de concreto prensada, contendo superfície de face aparente com textura lisa ou em relevo, no padrão preto e branco ou colorido, com formato quadrado de 0,20m x 0,20m, ou hexagonal. A cura ou endurecimento ocorre através de reação química denominada hidrólise dos aluminatos e silicatos que só se realiza em meio úmido daí, hidráulico. A água do tanque era apreciada para aveludar as mãos das meninas do bairro. De fabricação artesanal, a sua técnica foi trazida da Itália por volta de 1920, ainda hoje fabricado mediante encomenda, como em São Paulo, sob a escolha de centrais, faixas, florões e tosetos. Naturalmente, é mais fácil recordar a fábrica do Dorileo, vendo o seu desvelo madrugador no preparo das massas grossa e fina, do molho das tintas dosadas nos matizes do dia para facilitar ao ladrilheiro. Eram o Nicerso, o Alípio, e o carroceiro Bernardo, descobridor da areia mais adequada. Brincar nas areias corrida ou de goma era o gosto das crianças à porta da fábrica. Velhos casarões senhoriais ainda conservam o ladrilho hidráulico, carinhosamente chamado de mosaico cuiabano, como a Casa de Bembém (em transformação para abrigar um museu), a Casa de Júlio e Maria de Arruda Müller, a Santa Casa de Misericórdia, em parte, o Seminário da Conceição, em parte. O Santuário Eucarístico na colina do seminário tem-no conservado, o de Maria Auxiliadora teve arrancado; podendo algumas peças ser encontradas em casas outras antigas. A Casa Barão de Melgaço cuida deste mosaico original e passa a adotar o seu desenho para emoldurar o retângulo dos diplomas acadêmicos. Tradição e história estão celeremente escapando da memória do nosso povo nestes dias metálicos. Que museus adotem as suas peças, que o teatro exiba o mosaico cuiabano, a literatura cante a sua existência. Quanto ao rio Cuiabá, segundo profissionais das áreas da engenharia, da arquitetura e do meio ambiente são urgentes a dragagem, a estação de tratamento da rede de esgoto da cidade, a proteção da flora e da fauna. A Prefeitura Municipal lança o projeto CuiabáPorto, prevendo a revitalização de espaços de conveniência e de entretenimento, com obras de lazer e cultura apressadamente para 2014, ano de alguns jogos aqui da Copa do Mundo. Primeiro, que haja interesse de todos os setores em convergência. Segundo, que a visão seja ampliada para 2019, ano dos 300 anos da nossa cidade. Então seja possível uma cruzada de obras, cujo tema seja o rio Cuiabá, na dependência de recursos financeiros vultosos. Assunto nas mãos dos parlamentares. Que se retome o transporte fluvial, ao menos para ligar a Capital a alguns dos seus bairros e a cidades circunvizinhas. Homenagem ao rio natal do passado pela oferta romântica dos banhos nas tardes de águas mornas e calmas, vendo o viço pomposo dos sarãs, sob a proteção do silêncio, somente quebrado pela canção das jandaias. Ao mosaico de outrora, o culto memorativo ao seu reinado nas varandas cuiabanas, nos salões das tertúlias ou dos bailes amorosos, ou no templo contrito pela fé. O Professor Dorileo é associado acadêmico, titular da cadeira nº26.