NA HORA
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Cuiabá MT, Sexta-feira, 12 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 13 de Novembro de 2010, 12h:04

CRÔNICA

Mix

Luís Gonçalves
Especial para o Diário de Cuiabá
A tarde calorenta suspira agoniada possuída pelo sol forte que brinca com as nuvens negras que anunciam a chegada da estação da chuva. O pescador pendura a canoa na garganta do rio e guarda o caniço num canto. Os peixes dançam o baile da piracema. O bugio preto balbucia um lamento apaixonado. Pássaros lastimam a preguiça do vento que farfalha sorrateiro as matas numa composição simples e enfadonha. No parapeito do rio a vegetação lança um desafio silencioso ao rio que turbina a correnteza. As águas barrentas empinam a crista e saem fazendo arruaça igual touro ferido. O verde das matas segue o cortejo e veste o luto da estação. As praias se afogam em tristeza. As cigarras buzinam pelos cantos avisando que as águas sobem. O pantaneiro se recolhe numa intensa dose de preguiça esticando na rede toda a paciência de ver a chuva fina cair e fazer cafuné na comunheira de sapé. O tempo destampa o conta gotas intenso no lombo da planície e vai encharcando de delírios o brejo. Todos os sapos do universo se reúnem para fazer o encontro de vozes do tijuco in concert. A danada da pintada entoa o cio do sertão. Rasgando a solidão pelo confins do prazer. Gemido lascivo que rompe o sarã e rasga as baías. O lobo solitário rumina o tesão assediando a lua numa noite de paixão. A chuva cobre a terra com o véu do acasalamento. A valsa nobre de fantasia desenha uma euforia a cada instante. As formigas adquirem asas e se lançam num mundo de ilusão sendo servidas como alimento dos bem-te-vis arruaceiros. A garça sedutora apresenta o balé clássico da casa de espetáculo do charco com passos macios e febris. Araras e papagaios fazem a crítica da arte emplumada. A trilha sonora é das maritacas e na sonoplastia periquitos levam a fama. Ao longe o contra baixo faz a marcação através de acentuados trovões. As roupas brancas desaparecem do varal ficando apenas a linha do tempo estendida de um tronco ao outro. Os jacarés tímidos se escondem no remanso sobrando apenas o nariz de fora. O mundo se recria a cada momento. Ensaia nova vida a cada segundo. O gado migra em busca de lugares enxutos e os caminhos se estreitam. As plantas mergulham na bacia de água doce deixando as folhagens redesenharem um novo território molhado. *Luís Gonçalves é publicitário, escritor e colabora com o DC Ilustrado - [email protected]

Edição EDIÇÃO 16961




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