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Cuiabá MT, Terça-feira, 23 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 10 de Novembro de 2007, 12h:45

CRÔNICA

Meus velhos amigos e os cabelos pretos

Jê Fernandes*
Especial para o Diário de Cuiabá
Ainda sou do tempo dos ditados e princípios pedagógicos entuiados de moralismo e moralidade. Mas, sei conviver muito bem com a transparência e transferência dos valores de hoje. Nada a ver com saudosismo, com lembranças ou saudades de um tempo melhor. O melhor da vida quem faz é cada um de nós de acordo com sonhos e pesadelos acumulados na vontade de ser ou não ser. E daí, aos cabelos brancos, não há vergonha alguma. Ou melhor, não havia. Mas, alguns dos meus velhos amigos e colegas continuam com os cabelos pretos. E é disso que eu quero falar. Os cabelos brancos já não são, como antes, símbolos ou sinal histórico de uma vida respeitável, ou pelo menos, digna. Alguém, em momento de sabedoria relâmpago, teria dito, “os canalhas também envelhecem e têm cabelos brancos”. E o marketing dos “cabelos brancos como respeitabilidade” foi pro brejo. Virou coisa decadente. Mesmo com “viagra”. Outro dia, eu vejo, em plena Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro, meu primeiro chefe de reportagem, Alaud Mendonza, no extinto “Luta Democrática”, de Tenório Cavalcanti, o “Homem da Capa Preta”, com os cabelos e bigodes pretos. E ao invés de eu dizer é ele quem diz: “Mato Grosso você envelheceu”. “Mato Grosso” é como ele me chamava. Os meus cabelos brancos diziam isso e os pretos dele mostravam jovialidade. Outro dia eu fui convidado para uma festa em salão nobre de um edifício requintado. Aqui em Cuiabá. E lá, a tintura de picumã masculino foi o que imperou na festa O que tem de homem na “soçaite” pintando o cabelo, eu nem lhe conto, e os tons são os mais variados. Do mostarda-rapadura ao esmaecido-cor-de-mate, do louro-esverdeado ao clássico negro asa-de-graúna. E lá estavam, além de velhos políticos com cabelos pretos, históricos jornalistas de Mato Grosso como se fosse essa garotada que está se formando nas faculdades de comunicação de Cuiabá. Alguns sem sequer ter lido o Jornal do Ônibus. Nada contra os cabelos pretos, tampouco a favor dos brancos, mas tenho medo da indecência exposta e o ridículo com chacota. Mas, o que está para se fazer se já estão vendendo “o usado como novo”. *Jê Fernandes é jornalista, radialista, poeta, cronista, conversador fiado e colabora com o DC Ilustrado

Edição EDIÇÃO 16967




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