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ILUSTRADO
Segunda-feira, 27 de Julho de 2009, 20h:11

ADEUS

Merce Cunningham, o artista revolucionário

Cunninghan revelou pintores Robert Rauschenberg e Jasper Johns, além de ter lançado o principal compositor experimental nascido nos EUA, John Cage

Antonio Gonçalves Filho
Agência Estado
Se Merce Cunningham (1919-2009), morto na noite do último domingo de causas naturais, em Nova York, tivesse apenas revolucionado a dança moderna como o coreógrafo que descentralizou o espaço do palco, subvertendo a perspectiva renascentista, já estaria de bom tamanho. No entanto, Cunningham fez muito mais. Revelou para o mundo artistas como os pintores Robert Rauschenberg e Jasper Johns, além de ter lançado aquele que é considerado o principal compositor experimental nascido nos EUA, John Cage (1912-1992), seu companheiro por muitos anos. Os dois se conheceram quando Cunningham ainda estudava na Cornish School of Performing and Visual Arts de Seattle, onde Cage tocava como pianista acompanhante e o coreógrafo ainda aprendia a técnica da coreógrafa Martha Graham, antes que essa o convidasse pessoalmente para integrar a sua companhia de dança. Cage foi muito importante na vida e na carreira de Cunningham. Ambos tinham certa reserva ao derramado emocionalismo de Martha Graham. O coreógrafo queria descobrir o que era, de fato, o movimento, qual a autonomia da dança em relação à música. Cage, igualmente rebelde, não queria subordinar suas composições a gestos expressionistas ou apenas ilustrar piruetas. Ambos sabiam que a dança era muito mais. Queriam, enfim, trazer para o palco todas as artes, da performance à pintura, passando pelo cinema. E foi isso que fizeram. Além dos nomes já citados, Cunningham teve como colaboradores cineastas como Stan Van der Brook e Charles Atlas. O primeiro grande colaborador visual de Cunningham foi Rauschenberg (1925-2008), que se tornou o primeiro conselheiro artístico de sua companhia em 1954, posição mantida até 1964. Em 1967, assumiu seu posto Jasper Johns, um dos principais representantes da arte pop e hoje, aos 79 anos, considerado o maior pintor vivo norte-americano. Os dois trabalharam com Cunningham justamente no período mais criativo da companhia - e também o mais rico da cultura americana, que via nascer não só a arte pop como os movimentos de contracultura, o novo cinema de Scorsese, Coppola, Cassavetes e companhia. Essa história começou, porém, no verão de 1953, quando Cunningham e Cage foram convidados para dar aulas no Black Mountain College, uma espécie de Bauhaus americana onde os professores eram arquitetos como Buckminster Fuller e pintores como Josef Albers - além de outros artistas de diferentes tendências como Willem de Kooning e Rauschenberg. O clima cultural da época contribuiu. Rauschenberg levou para o palco pneus velhos, pilhas de jornais e suas "collages", obrigando os dançarinos de Cunningham a interagir com a sucata. Cage, então já fascinado pelo I Ching, convenceu Cunningham a tentar coreografias baseadas em números randômicos. O aleatório foi, então, incorporado à dança na mesma época em que Cage passou a usar os hexagramas do oráculo chinês para compor, integrando som ambiente e música. Rauschenberg criou cenários incríveis para coreografias de Cunningham, entre eles os painéis pintados de Minutiae (1954) e um conjunto de caixas brancas para "Noturnos" (1955). Coube, porém, a Jasper Johns a tarefa de traduzir para o palco a mais difícil obra do artista conceitual Marcel Duchamp (1887-1968), o Grande Vidro, sete gigantescas estruturas infláveis reproduzindo imagens dessa peça hoje pertencente ao Museu da Filadélfia. A obra original é constituída por dois painéis de vidros emoldurados em alumínio, em que a parte superior se contrapõe à inferior como a natureza feminina à masculina. Johns assumiu a tarefa de "traduzir" o hermético Duchamp e, dois dias antes da estreia de "Walkaround Time" (1968), quase desistiu, alegando que a estrutura iria desabar sobre os bailarinos. Cunningham não pararia de usar infláveis. No mesmo ano viu uns travesseiros do pop Andy Warhol, que virariam a instalação de nuvens prateadas do cenário de "Rain Forest" (1968). Alguns dos travesseiros ficavam sobre o palco. Outros, enchidos com hélio, flutuavam - e os bailarinos tiveram de aprender a técnica de lidar com eles sem perder a concentração nos movimentos. Outros cenários utilizados pela companhia de dança de Cunningham viraram obras de arte disputadas pelo mercado. Os painéis de Rauschenberg usados em "Minutiae" - e que eram transportados numa Kombi nas turnês pelos EUA - foram parar em Paris, comprados por um colecionador na Suíça. Cunningham, irônico, riu quando soube da transação. Não parou de experimentar até a sua morte. Ontem, para azar da dança.

Edição EDIÇÃO 16961




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