ILUSTRADO
Segunda-feira, 07 de Junho de 2010, 21h:06
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RESENHA
Marcio Aurélio, o poeta visual do cerrado
Não é de hoje que este artista plástico se debruça cuidadosamente sobre diferentes materiais, possibilitando a sua utilidade e procurando sensibilizar a sociedade
Carlos Ferreira
Especial para o Diário de Cuiabá
Quem visitar a exposição A PLÁSTICA DO PLÁSTICO de autoria de Márcio Aurélio dos Santos, no MISC Museu da Imagem e do Som de Cuiabá, na Rua Voluntários da Pátria, com certeza não vai acreditar nas diversas possibilidades que esse poeta visual do cerrado, dá para o lixo. Tábuas de caixas de frutas, latas, flandes, baner, metais, plásticos, enfim, tudo nas mãos de Márcio Aurélio, vira ouro. Arte construída com esmera dedicação num caminho de tantos ensaios, experiências, refazendo idéias, manufaturando objetos, laboratoriando a criação artística para contextualizar uma realidade contemporânea e tentar viver da sua arte. Não é de hoje que o artista se debruça cuidadosamente sobre esses materiais, possibilitando a sua utilidade e procurando sensibilizar a sociedade para aquilo que está mais que estampado aos nossos olhos. O lixo está consumindo a natureza. Em nossas casas, nas ruas, nas margens dos rios, no cerrado, por todos os lugares ele se apresenta como resultado dos descuidos e desrespeitos do homem para com o meio ambiente. Mas Márcio Aurélio dos Santos não mostra só isso. Sua preocupação vai além de utilizar objetos perecíveis e recicláveis junto à sua arte. Sua estética se instaura mais adiante que só pintar, decodifica elementos transformados na curiosidade de que é possível avançar mais e ousar muito e, com certeza, isso ainda é muito pouco pra esse artista que ao visitar um lixão, se comove sensível na preocupação com o nosso futuro. A arte de Márcio Aurélio dos Santos é também uma ação política. Exemplo dado de graça ao poder público que poderia utilizar dessa vertente de trabalho para construir cidadania e educação ambiental em tantos espaços vazios de arte, mas lotados de lixos, como estão nossas praças, salgadeira, margens do rio Cuiabá, e tantos outros lugares. Buscando apresentar um conjunto de obras num espaço expositivo público para divulgar o seu trabalho, o artista acaba por emprestar diversos sentidos ao espectador e descrever o seu fazer arte: sensibilização; percepção enquanto consciência; ampliação do imaginário; expressão enquanto organização da linguagem; o homem enquanto sujeito do seu processo; a capacidade criadora e a criatividade como elementos de transformação pressupostos filosóficos da arte-educação, tão presentes na vida e no fazer arte de Márcio Aurélio. Um artista só pode exprimir a experiência daquilo que seu tempo e suas condições sociais têm para oferecer. Assim caminha esse artista que mapeia em baners diversas iconografias: cerrado, tribos, pantanal, candomblé, o sacro o profano e acaba por não encontrar tantas taboas de caixotes e latas para expressar a signicidade imagética que emana da sua criativa produção. Na arte de Márcio Aurélio dos Santos está presente também o pragmatismo, a busca de um sentido utilitário para o que antes ficaria tão somente exposto nas paredes. Seus totens de latas que podem ser luminárias e colunas, seus oratórios que constroem imaginação religiosa, seus baners como mapa geográfico de uma iconografia ambiental, os bancos que te convidam para a reflexão e para a poesia do ambiente, enfim, tem sentido e força de utilidade e do servir para a vida do homem, agregando valores arquitetônicos, domésticos e visuais. Em A Plástica do Plástico Márcio Aurélio não revisita só os lixões ambientais para compor sua arte, revisita também a consciência social, a sensibilidade humana e denuncia a ausência de políticas públicas para com o meio ambiente, mostrando que o lixo pode transformar, gerar renda, emprego, ocupação social e, acima de tudo, transformar vidas. *Carlos Roberto Ferreira é diretor e ator teatral, gestor cultural e colabora com o DC Ilustrado.