Desde que a bendita escrita me jogou a peia. Arrasto a sina cruel de caracteres na cacunda. Digo de peito em proa que fui até onde as letras me levaram. Sou aquilo que a escrita permitiu. Comecei cutucando papel com pau de ponta preta. Lavrei o caroço do dedo e amaciei a junta da munheca. Até o suspiro do bolso permitir as canetas esferográficas. Um dia esbarrei num caridoso cidadão. Forrado de letras nos dentes. Encharcado em infinita bondade. Presenteou-me com uma caneta tinteiro antiga do tempo do bendito carnaval de letras abençoadas. Pertenceu ao saudoso pai. Fiel amante das letras. Pensei: seguirei de onde parou. Assumi a valiosa herança erudita. Apreciei a manequim. Emprestei o nome devido à fina espessura faceira. A bicha era danada. Com essa vadia escrevi quatro dos meus livros. Mesmo já possuindo a sirigaita. Nome de batismo da máquina de escrever. Além de barulhenta sorria escandalosamente no repuxo. Talvez devido tamanha folia, perdeu meu apreço. Amasiei com a velha manequim. Ela me seguia. Toda saliente embaixo do braço cafungando o batume do corpo. Enquanto a sirigaita ficava empoleirada em cima da mesa. Coberta pelo ciúme. Um grosso tecido. Cria do tear das Artesãs ali do Limpo Grande-VG. A folia com a manequim acochou num comportamento estratégico de namoro antigo. Quando acaba todo aquele carisma fica a afeição. Culpado de tudo foi o PC. O bandido entrou na nossa vida e mexeu nos brios da manequim. Desde então a danada empacava. Fazia pirraça de gente grande. Coisa feia de manchar papel. Continuei com o mesmo carinho. Dava atenção e assistência. Era banho antes do batente e depois da conquista. Enxugava. Soprava os buraquinhos dela. Trocava os paninhos de bunda dela. Mesmo assim, virava e mexia ela zangava e negava o corpo pra mim. Lá ia eu abanar e soprar a bunda dela. Pois, não te conto nada, manequim ficou tão dengosa num tanto que chegou umas par de vez a menstruar na minha mão. Era aquela meleira danada. Aquele trem entranhava embaixo da unha e ensaiava dias aquela sujeira dando vergonha pra gente. Dei uma de birrento com ela. Bati a cabeça dela na parede, pra afrouxar a consciência, e disse bem assombrado na ponta do nariz. Caso pensa em me deixar na mão, logo agora, depois de tantos anos? Tá na merda da bobeira. Tu vai ficar comigo até o fim da história. E se aprume e seja fêmea. Pois, não é que danada tomou o pino central da vergonha e dele nunca mais se livrou? Continuei escrevendo os livros com a manequim e chuçando a barriga do PC pra ele vomita esses textos do correr do dia. Recentemente, numa visita a mamãe, empaquei na tropa da fronteira. O povo não amansa espinho pra mexer na gente. Só não inverte o infeliz, para conferir as vísceras, por falta de sorte. Mas é aquela passassão de mão pra lá e pra cá. Apalpando o que não deve. Depois imbicam no carro. É um povo daninho. Escancaram à possante e a coloca de pernas para o ar. Metem uma cachorra sem-vergonha, bandida, com mais de meio metro de língua pra fora. Babando igual o lobo mau no docinho da menina. Pois a cadela, vadia, à-toa, achou logo de comer a coitadinha da manequim. Sinceramente, nem sei o que dizer. Sem a manequim as minhas letras não tem mais sentido. Acabou aquele chamego de tinta, caneta e papel. Minhas conversas com a manequim eram francas. Entre nós não havia segredo. Quantas noites em plena solidão assassina eu e a manequim debulhávamos mais de duas ou três intenções. Pescávamos sonhos e futricávamos a realidade. Vencíamos as madrugadas somente para ter o prazer de assistirmos o pôr-do-sol juntos. Juramos fidelidade um ao outro. Desde que foi tragada por aquele dragão esfomeado não consigo plantar uma letra sequer no papel. Meu pensamento está enlutado. Quando recordo da manequim deixo o PC de beiço caído e rasgo vento na cara. Como peitar as dores sangrentas da escrita sem a finada? Queria tanto dar a ela pelo menos um enterro descente. Em retribuição aos valiosos serviços prestados a Mídialivre. *Luís Gonçalves é publicitário, escritor e colabora com o DC Ilustrado (
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