ILUSTRADO
Sábado, 06 de Setembro de 2008, 10h:22
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LITERATURA
Livros que vão além do seu produto final
Ariel, de Sylvia Plath, e Não Verás País Nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão, foram relançados em novas edições ano passado. Há motivos extras para adquiri-los
Lorenzo Falcão
Da Editoria
Dois livros que apresentam ao leitor, além da literatura de seus respectivos autores, um pouquinho do processo criativo de cada um deles. Ariel, da poeta americana Sylvia Plath, e Não Verás País Nenhum, do brasileiro Ignácio de Loyola Brandão. Artistas de qualidade praticamente inquestionável que são expostos na intimidade da criação. Ariel, da editora Verus, 209 páginas e tradução de Rodrigo Garcia Lopes e Maria Cristina Lenz Macedo, traz a poesia única de Plath, natural de Boston, é apontado como o principal livro da poeta. Trata-se de uma edição restaurada e bilíngüe, contendo também alguns manuscritos originais de Sylvia. A autora tinha temperamento forte e teve uma relação tempestuosa com o também poeta Ted Hughes, britânico, com quem teve dois filhos. A traição do marido e seu próprio temperamento a levaram a cometer o suicídio em 1963. Sua poesia é marcada por um estilo muito peculiar que dificilmente pode ser comparado a outros autores. Esta edição de Ariel segue exatamente a ordem do último manuscrito composto por minha mãe, escreve no prefácio da obra Frieda Hughes. Ela como que contrapõe esta edição às organizadas pelo seu pai, Ted Hughes, e lançadas no Reino Unido (65) e nos Estados Unidos (66). Como acontece freqüentemente com músicas, onde uma única audição não se torna suficiente para a perfeita apreensão, o mesmo, creio, vale para a poesia de Plath. Numa primeira leitura, pelo menos foi isso que aconteceu comigo, fui incapaz de captar a carga emotiva e os significados e re-significados de seus versos. Mas, a partir da segunda leitura tornou-se claro estar diante de uma grande poeta que merece e precisa ser lida com muita atenção. A leitura dos poemas de Ariel (esse é o único livro da autora que já li de cabo a rabo) também me deixou a impressão de se tratar de uma escritora, cuja poesia, se alimenta basicamente dos acontecimentos do seu entorno, e talvez isso seja devido à sua atribulada existência. Há quase que um tratamento jornalístico no verso de Sylvia, mas tudo em conformidade com a grandeza poética que é sempre acompanhada de pitadas de filosofia e muita emoção. Sylvia Plath desenvolveu uma pesquisa estética muito individual. Morreu por vontade própria, mas deixou um legado de valor incontestável. País Nenhum Ignácio de Loyola Brandão deu o ar de sua graça em Cuiabá no mês de abril passado. Um pouco antes disso minha esposa recebeu uma primorosa re-edição de Não Verás País Nenhum (Editora Global), trabalho de luxo que dá gosto folhear. Logo de cara é preciso frisar que se trata de obra que conquistou o Prêmio Illa melhor livro latino-americano publicado na Itália em 1983. Esta é a vigésima quarta edição da obra publicada no Brasil desde 1981. E, de todos os livros de Loyola, este é o mais traduzido. Há quem diga que os artistas são as antenas da raça, escreve em seu prefácio Washington Novaes, jornalista brasileiro consagrado e com forte pegada ambiental. Esta obra de Loyola é apontada como um dos mais fidedignos romances da literatura contemporânea brasileira. Na história, o personagem Souza, vítima destes tempos contemporâneos, residente em São Paulo num edifício decadente na região central da cidade, percebe que tem um furo na mão. Em busca de uma possível justificativa para tal fato percorre a cidade congestionada, os engarrafamentos transformados em depósitos de ferro-velho, um cenário caótico de uma hipotética cidade comum pertencente a um futuro que, se ainda não chegou, está bem aí, batendo em nossas portas. A exemplo de Ariel, Não Verás País Nenhum também traz, ao seu final, pistas sobre o processo criativo do escritor, com reproduções datilografadas, manuscritos, gráficos etc. Uma obra preciosa, daquelas pra gente guardar com carinho na biblioteca e revisitá-la sempre que possível.