ILUSTRADO
Quarta-feira, 24 de Junho de 2015, 20h:33
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O REPÓRTER NA HISTÓRIA
Liberadas biografias. Fim da censura
Há quantos anos o Brasil vive com censura prévia? 500, 200, 100, 70, 50, 30, 15, anos? A fragilidade institucional do país é gritante. Foram 13 anos para julgar os envolvidos no Mensalão. Esperamos décadas pela abolição da censura prévia. Cala boca já morreu disse Cármen Lucia, ministra do Supremo Tribunal Federal. Ela explicou: pela biografia não se escreve apenas a vida de uma pessoa, mas o relato de um povo, os caminhos de uma sociedade. E foi exatamente isso que eu aprendi lendo Jean Christophe, de Romain Rolland, na tranquilidade de um sanatório (não de loucos, mas, de tuberculosos) às margens do rio Volga. Mestre da descrição RR influenciou gerações. Jean Christophe é biografia romanceada de Beethoven, seu tempo, músicas, amores. Um relato de época. Biografia Biografia: bios/vida + graphein/escrever é o gênero literário mais intrigante, estimulante, revelador, e mais difícil de ser escrito. Pois além dos dados pessoais, conquistas, preferências, esperam-se analise da personalidade e do caráter do biografado. Se este for artista, celebridade, crescerá o interesse sobre a vida amorosa e casos sexuais. Se há escândalo, melhor ainda. Por isso mesmo, não confundir entrevista, ensaio, reportagem, perfil, com biografia. Guerra e Paz, por exemplo, não é biografia escrita por Leon Tolstói. È um livro de época. E o Vento Levou idem. Antônio e Cleópatra, Romeu e Julieta, são obra prima de Shakespeare, marco da cultura ocidental. Mas, não biografias. São perfis romantizados. Não basta escrever bem para ser biografo. Há que ter cultura sólida, local, universal. È fundamental conhecer o meio-ambiente no qual o biografado nasceu, cresceu, inventou, compôs, filmou. E paciência, disciplina, vontade férrea, para pesquisar, catalogar, consultar, entrevistar, pessoas que conheceram o biografado. Biografia, para mim, é sagrada. A pessoa que copia, adultera, chupa, para escrever biografia chapa branca, é um impostor cultural. Para eles/as, escribas da corte, do partido, do líder, biógrafos oficiais, não há censura prévia, nem posterior. Memórias e autobiografia Neste momento, estou lendo as Memórias de George Kennan, um dos artífices da Guerra Fria. O primeiro americano em um posto diplomático na URSS. Jovem diplomata, ele estava em Berlim quando a Segunda Guerra começou. Estou viajando com ele pela velha e nova Moscou, cidade de minhas boas saudades. E muitas decepções. A que ser muito bom de taco, honesto, para escrever autobiografia. Na dúvida, o melhor é optar por Memórias. A liberdade de expressão não é garantia de verdade ou de justiça. Ela é uma garantia de democracia (Luís Roberto Barroso, ministro do Supremo Tribunal Federal). Biografia, como gênero literário, educativo, cultural, opinativo, formador, no sentido amplo, só pode vicejar na democracia. Sem liberdade de expressão não há escritores, repórteres, jornalistas. O que há são membros do Partido, funcionários estatais, não importando se da direita ou da esquerda. Doutor Jivago, de Boris Pasternak, romance histórico, foi proibido na URSS. No ocidente, é filme famoso. Arquipélago Gulak e tantos outros livros foram proibidos. Não havia liberdade de expressão na Rússia comunista, estrela guia da esquerda mundial. Não havia liberdade de expressão na ditadura militar brasileira, regime da direita. Apenas oito anos mais velho que o Brasil é nos Estados Unidos onde o gênero biografia alcança seu ápice de prestigio, divulgação, faturamento. Em Nova York, adquiri o hábito de ler o Suplemento Books do jornal The New York Times. Seu resumo de lançamentos, Best Sellers, biografias, é sensacional. Os pocket books com biografias de gente do cinema, esportes, musica, criaram leitores (compradores) assíduos. Fui um deles. (Segue) *JOTA ALVES, jornalista, é o titular do site www.oreporternahistoria.com.br. Foi o criador do Dia do Brasil em Nova York, em setembro de 1985