ILUSTRADO
Sábado, 08 de Junho de 2013, 13h:43
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A CIDADE VIVE DOS QUE VIVEM E VIVERAM NELA
Lenine de Campos Póvoas: Cultura e erudição foram a marca do homem simples
Evaldo de Barros
Especial para o Diário de Cuiabá
O doutor Lenine de Campos Póvoas, para quem não sabe, além de suas aptidões acadêmicas era estrategista político. Sabia trançar os pauzinhos como ninguém para que o seu candidato vencesse as eleições. Atuando nos bastidores e com conversas ao pé do ouvido do candidato por ele apoiado, era respeitado até por profissionais mais velhos como João Villasboas, Filinto Müller e Fernando Corrêa da Costa. O interessante é que esse modo de fazer e ganhar política não ocasionava inimizade para ele. Circulava com desenvoltura impressionante por todas as rodas e sabia manter os diálogos dentro dos parâmetros recomendados pela educação e respeito. Era um legítimo cavalheiro, portador de cultura multifacetada e fino humor em algumas ironias bem construídas. Ninguém sabia ao certo até hoje o que o doutor Lenine Póvoas mais gostava de fazer. O fato é que ele fazia bem feito tudo sob sua responsabilidade. Era professor, advogado, jornalista, escritor, historiador, cientista político, orador ... e por aí afora. Não poderíamos deixar perecer nas brumas do tempo a sua singular figura e fomos à procura de sua filha, desembargadora Maria Helena Póvoas, para nos contar a história do ilustre pai. Acompanhada pelo irmão Eduardo Póvoas, odontólogo de profissão e escritor nas horas vagas, ela nos recebeu com a costumeira simpatia. DC ILUSTRADO Conte-nos, des. Maria Helena, o início da vida do Dr. Lenine. DES. MARIA HELENA Meu pai nasceu em Cuiabá no dia 04 de julho de 1921 e faleceu no dia 29 de janeiro de 2003. Era filho dos queridos professores Nilo Póvoas e Rosa de Campos Póvoas. Estudou o primário e o antigo secundário em sua terra natal. Desejoso de fazer curso superior disse ao pai, Nilo Póvoas, que pretendia estudar no Rio de Janeiro, então capital política e cultural do Brasil. Como o papai era filho único o meu avô disse que poderia transferir a residência, desde que os dois trabalhassem no Rio para o custeio da família. Desafio feito, desafio aceito. E assim ele se tornou Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, turma de 1945. Durante os anos que cursou a Universidade papai lecionou geografia nos Colégios Paula Freitas, Rui Barbosa, Anglo-americano e Andrews, escolas cariocas de ótimo conceito. DC ILUSTRADO Já formado retornou a Cuiabá? DES. MARIA HELENA Voltou para Cuiabá já casado com minha mãe D. Arlette Gargaglione Póvoas e ingressou na política, elegendo-se Deputado Estadual em duas legislaturas 1947/1950 (constituinte) e 1951/1954. Na Assembleia Legislativa teve oportunidade de exibir os seus conhecimentos jurídicos pois foi um dos mais atuantes parlamentares na elaboração da Constituição Estadual de 1947. DC ILUSTRADO Depois de Deputado Estadual quais os outros cargos exercícios pelo seu pai? DES. MARIA HELENA Papai foi um dos Ministros fundadores do Tribunal de Contas do Estado. Muita coisa existente naquela Corte de Contas teve a participação dele que sempre gostou de trabalhar, seja individualmente, seja em grupo. Você sabia Evaldo, que o único Conselheiro do nosso Tribunal de Contas que para se aposentar recorreu à Justiça foi o papai? DC ILUSTRADO Desculpe-me desembargadora, mas não dá para acreditar. Segundo jargão cuiabano há briga de foice no escuro por um cargo de Conselheiro no Tribunal de Contas. Alguns, mais audaciosos, chegam a afirmar que há compra e venda do cobiçado cargo. E a sra. vem nos dizer que não queriam deixar que o Dr. Lenine se aposentasse? Não queriam a vaga dele?! . . . DES. MARIA HELENA Isso mesmo. Ou o papai era muito importante para o Tribunal ou não havia, na ocasião, interessados pelo cargo de Conselheiro. O fato é que o Dr. Lenine teve que postular na Justiça o direito de se aposentar por tempo de serviço. Se é hilário ou não, padece duvida. Mas que é inédito, isso é, convenhamos. Voltemos aos cargos exercidos. Foi professor, por concurso, da cadeira de Geografia Humana da Escola Técnica de Comércio de Cuiabá, professor titular da cadeira de Direito Penal do Departamento de Direito da Universidade Federal de Mato Grosso, vice-Governador do estado, pelo voto direto, eleito a 03 de outubro de 1965, Diretor Superintendente da Companhia Mato-grossense de Mineração METAMAT - , Secretário de Administração do Estado no governo José Fragelli, tendo sido o implantador da Secretaria, Presidente da Fundação Cultural de Mato Grosso no governo Garcia Neto, tendo sido o implantador da Fundação depois transformada em Secretaria de Cultura, Secretário Chefe da Casa Civil do Governo do Estado. DC ILUSTRADO Com tantas habilitações qual era a profissão que o doutor Lenine mais gostava de exercer? DES. MARIA HELENA E EDUARDO Era a de professor, falaram juntos. E Eduardo continuou: papai sentia-se bem ensinando. Ele abria um mapa e ficava explicando geografia para os filhos e mais quem quisesse aprender. Uma das satisfações do meu pai era solucionar as dúvidas das pessoas que o procuravam. Era vocacionado para ensinar. DC ILUSTRADO E as instituições às quais pertenceu? EDUARDO Papai foi membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, da Academia Mato-grossense de Letras, (da qual foi presidente por 10 anos), da Academia Sul-Matogrossense de Letras e da Academia de Letras, Cultura e Artes do Centro Oeste. Também foi membro correspondente da Academia Paulistana da História, da Academia Maranhense de Letras, da Academia Espiritossantense de Letras e da Academia de Letras de Brasília. Muitas foram as condecorações recebidas que guardamos com carinho. DC ILUSTRADO Será que o doutor Lenine tinha alguma mágoa? DES. MARIA HELENA E EDUARDO Ele nunca nos disse nada que pudesse significar magoa, no sentido literal. Queixava-se, às vezes, que nunca foi patrocinado para editar suas obras, sempre pagou do próprio bolso para publicá-las. Mas nós, filhos dele, temos algumas. DC ILUSTRADO Por exemplo? DES. MARIA HELENA E EDUARDO Achamos que o papai nunca recebeu uma homenagem à altura do tanto que realizou por Cuiabá. Para se ter uma ideia, até uma biblioteca que existia na Secretaria de Cultura com o seu nome, um modesto puxadinho, foi desativada sem choro nem vela. No Tribunal de Contas do Estado onde ele teve voz, não teve vez. E por ai vai. DC ILUSTRADO Nota-se que a indignação dos filhos é de total procedência, principalmente com essa fantástica avalanche da chegada de novos conterrâneos . . . EDUARDO Olha Evaldo, nós ficamos a um só tempo emocionados e enraivecidos com certas coisas. Veja você que o meu bisavô, avô de papai pelo lado paterno, Major Pedro Fernandes Póvoas, foi o primeiro comandante do nosso Arsenal de Guerra. Ali não pode ficar como mera praça de alimentação. Pedi, insisti mesmo, para que fosse afixada no local uma placa ou coisa semelhante, narrando o fato da fundação do local e o trabalho do meu bisavô em prol de Cuiabá e de Mato Grosso. Não fui sequer recebido pelos responsáveis para expor a minha sugestão. Para nós que demos e damos por este pedaço de chão brasileiro nosso sangue, suor e lágrima é triste e desestimulante o desinteresse e a falta de reconhecimento. DC ILUSTRADO Uma pergunta indiscreta: o doutor Lenine não deixou fortuna? DES. MARIA HELENA Papai deixou quatro casas e uma pequena chácara adquirida do Dr. Clóvis Cardoso e nenhum dinheiro vivo guardado no colchão. E saibam todos que ofereceram a ele vastas áreas no Vale do Jurigue, o melhor pedaço de terra do Estado, e ele respondeu: Essa terra deve ficar nas mãos de quem saberá cultivá-la. Antes da implantação do Centro Político Administrativo o saudoso governador Fragelli chamou-o e disse-lhe: compre uma área naquela região, pois vou mudar a sede do governo para lá. E papai não adquiriu um só palmo de um só lote no local. Falando franca e sinceramente, nem Cartório papai quis quando lhe ofereceram. EDUARDO INTERVEIO é possível que se papai fosse vivo a Dra. Maria Helena não seria Desembargadora. É que ele não brigava por honrarias e homenagens. Quem ou aquele que insistisse na competição ganharia na certa, pois o doutor Lenine era incapaz de correr atrás de benesses. Sempre ficava na dele, à espera de que as coisas acontecessem. E o mundo não é assim. DC ILUSTRADO O doutor Lenine não sabia trovar versos? EDUARDO Sabia Evaldo. Não é que revirando o baú de lembranças dele encontrei uma pasta com dezenas de poemas que ele escreveu! Papai era reservado, quase tímido, talvez por isso não quis aventurar-se como poeta. Mas escrevia versos. Muitos lindos versos. Talvez um dia vamos publicá-los ou pelo menos alguns deles. DC ILUSTRADO Como se comportou o doutor Lenine por ocasião da crise política que quase derrubou Pedrossian? EDUARDO No episódio do quase impeachment do governador Pedro Pedrossian papai foi refugiar-se em Uberaba, Minas Gerais. Ficou comigo lá, dormindo na nossa república de estudantes, exatamente para não ser acusado de tramar a deposição. O sr. Raul Santos Costa descobriu o esconderijo dele e, pelo rádio amador, pediu para que papai retornasse imediatamente a Cuiabá para assumir o Governo pois a coisa estava feia por aqui. Papai disse que viria e foi para São Paulo, onde ficou até que tudo terminasse. Papai nunca foi traidor. Além disso, como estrategista que nunca perdeu uma única contenda, não seria naquela ocasião que ele seria derrotado. Meu pai não tramou a queda de Pedrossian e posso assegurar que se tivesse planejado o golpe, o cargo de governador do Estado estaria enfeitando a sua biografia. Ele era vice Governador e continuou vice antes, durante e depois desse episódio político que levou o povo às ruas de Cuiabá. DC ILUSTRADO Quantas obras publicou o doutor Lenine Póvoas? DES. MARIA HELENA Papai publicou, com recursos próprios, as seguintes obras: 1. Introdução ao estudo da Geografia Humana (1944); 2. Panorama sombrio (Análise da situação financeira do Estado, 1950); 3. Sintese Geográfica dos Estados Unidos (1955); 4. Radiografia de Mato Grosso (Conferência aos estagiários da Escola Superior de Guerra do Brasil. 1967); 5. Viagem a Portugal (1970); 6. Uma nova Secretaria de Estado (1974); 7. Administração de pessoal (Palestra aos servidores do SNI, Agência de Campo Grande MT, 1975); 8. A Secretaria de Administração no ano de 1974 (1975); 9. Mato Grosso, um convite à Fortuna (1977); 10. Sobrados e Casas senhoriais de Cuiabá (1980); 11. História da Cultura Matogrossense (1982); 12. Influências do Rio da Prata em Mato Grosso (1982); 13. Perspectivas Demográficas e Econômicas da Grande Cuiabá (1983); 14. Cuiabá de Outrora (1984); 15. O Ciclo do Açúcar e a política de Mato Grosso (1983), com prefácio de Gilberto Freyre; 16. Roteiro Sul-Americano (1984); 17. Sintese de História de Mato Grosso (1985); 18. Viagem a Portugal (2ª edição, 1986); !9. O Estado de Mato Grosso (Texto escrito para o livro Mato Grosso Fronteiras do fotógrafo David Drew Zingg, edição patrocinada por Esteve Irmãos, 1985); 20. História de Cuiabá Texto escrito para o livro Páginas amarelas Guia da Grande Cuiabá, editado por Gilberto Hubber, 1987; 21. Cuiabanidade Crônicas sobre Cuiabá e sua gente (1987); 22. Na Tribuna da Imprensa (1987); 23. Cadeira nº 40 (Discurso de posse na Academia Sul Mato-grossense de Letras, 1987); 24. O Caos Brasileiro (1988); 25. Os italianos em Mato Grosso (1989); 26. Nilo Póvoas, um mestre (1991). Conclusão Com redação esmerada, o cirurgião dentista Eduardo Póvoas, primogênito do doutor Lenine, sempre foi depositário das confidências do adorado pai. Para eternizar a memória do doutror Lenine, Eduardo está escrevendo sobre a vice Governadoria e seus quejandos. Deverá ser uma obra rara, para enriquecer a nossa cultura histórica e muitas coisas que não sabíamos, vamos ficar sabendo. Foi muito bom falar com a Desembargadora Maria Helena e com os odontólogos Eduardo e Aloísio. Eles transmitem o quanto é importante ser um homem correto e íntegro: torna-se imortal na recordação dos filhos e deixa, pelos exemplos, uma réstia de luz à geração vindoura. - No meio da década de 50, na Praça Ypiranga, estava na Rádio A Voz do Oeste ao lado de Adelino Praeiro e Alves de Oliveira entre outros nomes do rádio cuiabano. Por esse tempo passei a escrever no jornal O Estado de Mato Grosso a coluna Dis . . . comentando que fazia as apresentações dos últimos Lps recebidos pela Eletra Rádio, do saudoso Durval Leite da Silva. E foi por isso, talvez, que o doutor Lenine, diretor responsável do jornal de Arídio Orestes Marinho, convidou-me para ser repórter. Todas as tardes saia da rádio e me dirigia à redação do O Estado de Mato Grosso que ficava na rua 13 de junho a poucos metros da Praça Ypiranga. Ajudei muitas vezes o professor Nilo Póvoas fazer a revisão, palavra por palavra, do jornal. Os meus leitores de hoje já pensaram o privilégio dos leitores de antigamente que liam artigos produzidos pelo doutor Lenine e revisados pelo Professor Nilo Povoas? Às vezes fico um bocado cansado ao elaborar as mal traçadas linhas desta coluna. Outras vezes, como agora, sinto-me deveras recompensado. Aprendi jornalismo com o doutor Lenine e isso, com certeza, me faz errar menos. Nenhum trabalho é lúdico em essência. É preciso gostar do que se faz para que os resultados apareçam. A cidade vai sempre viver em função dos que vivem e viveram nela.