ILUSTRADO
Terça-feira, 31 de Março de 2015, 19h:34
A
A
MÚSICA
João Elóy desafia o massacre cultural
Cantor de rasqueado faz de seu programa na TV uma trincheira de resistência da música regional
JOÃO BOSQUO
Da Reportagem
A nossa prioridade é o povo pantaneiro, o povo ribeirinho, afirma o cantor, compositor, médico e professor aposentado da UFMT, pesquisador-historiador de Chapada dos Guimarães, João Eloy de Souza Neves, ao iniciar a falar de seu programa de televisão Varanda Pantaneira, que este ano completa 9 anos de ininterruptos no ar. Em junho, Eloy vai comemorar os 70 anos de vida e 30 de carreira artística. Essa prioridade é para enfrentar o quarto massacre cultural pelo qual ele garante que estamos passando. O primeiro massacre segundo João Eloy foi o dos portugueses, quando desembarcaram nesta terra brasilis e deram início ao genocídio indígena, enquanto o segundo aconteceu quando aqui chegaram os garimpeiros detonando o meio-ambiente e mandando todo ouro para Portugal. O terceiro é marcado pela chegada dos migrantes gaúchos e paranaenses em Mato Grosso, na década de 70, detonando todas as nascentes e nivelando tudo pela monocultura e, finalmente, ele identifica que o quarto massacre é a imposição de ritmos da Bahia e do interior São Paulo que vão do hip-hop, fanque até o vaneirão sob a justificativa da diversidade cultural de Mato Grosso. João Eloy ressalta que os ritmos mato-grossenses foram elaborados em quase 300 anos de processo cultural pelos índios e negros. Todos sabem (ou deveriam saber) que o cururu, o siriri e o rasqueado são manifestações autóctones, que vem das nossas mais profundas tradições. A consequência de tudo isso é que a cuiabania se vê descriminada em todos os aspectos. Coloca aí, moradia, saneamento básico, saúde, lazer, além da Cultura. João Eloy recorda o caso de um empresário que, anos atrás, anunciou num cartaz que estava contratando, mas para as funções citadas não se aceitava cuiabano. Não queremos cuiabano, dizia o cartaz. Ele recorda também a antológica frase de Blairo Maggi, quando assumiu o governo e disse: Vou descuiabanizar o poder. Nesse meio, ele abre um parêntese para fazer um resgate do governo Dante de Oliveira. Lembra que Maggi dizia que iria abrir a caixa-preta do Fethab e o Fethab está aí, como tábua de salvação dos governos do Maggi, Silval e mesmo Pedro Taques. Hoje todos estão brigando pelo Fethab, uma criação de um cuiabano de visão: Dante Martins de Oliveira. Fecha parêntese. Nesse resgate da autoestima do cuiabano, o Varanda Pantaneira, na TV Rondon, é ponta de lança, ao apresentar a música regional, a dança do siriri, o rasqueado e a culinária cuiabana. No programa já se apresentaram mais de 50 artistas, o que resultou na produção do quarto DVD da carreira de João Eloy, Rasqueadeiros do Varanda Pantaneira. Por conta do Varanda, hoje se sabe que o rasqueado não é apenas João Elóy, Pescuma, Henrique & Claudinho, Roberto Lucialdo, Bolinha. Ele cita como exemplo os artistas Elpídio Jucá, Claudia Siqueira, Taís Serra, Netinho de Oliveira, Matheusinho dos Teclados, João & Junior, Belita Lira, Nádia Neves, Semite, Meire Pinheiro, João Lira e Simone Reis, entre outros. Esses artistas são garantia da continuidade do rasqueado. O rasqueado, além de estar na alma do artista João Elóy, ele gosta de dizer que está seguindo a receita da pop-star Ivete Sangalo que, em uma dessas últimas edições do Festival de Inverno de Chapada dos Guimarães, quando um artista bobó chera-chera, no palco disse pra ela que sabia cantar todo o repertório da musa baiana, se virou e disse: Cante a sua terra. A minha música já e conhecida no mundo todo. E João completa: É o regional que alimenta o universal e cita os clássicos La Bamba, Galopeira, músicas do folclore regional que se tornaram mundialmente conhecidas. Ao perscrutar as nossas raízes, João Eloy nos trouxe o Engenho novo estremeceu/ Garapa é meu, bagaço é seu// A canoa virou, tornou revirar/ Dona Maria não soube remar, colhida do nosso folclore. João Eloy conta que essa melodia ouviu ainda na infância, na voz de Alexandre Pinto da Silva. Esse velho fazia a reza cantada. Depois tinha o cururu, levantamento de mastro e siriri. Que faziam o bailão. No intervalo, pra descansar, cantava Engenho novo.... O resto da história todos já sabem. Hoje é música obrigatória no seu repertório e de outros artistas mato-grossenses. O cantor, em trinta anos de carreira, tem também 15 CDs gravados. O pesquisador tem dois livros da história de Chapada dos Guimarães o primeiro editado na década de 80, quando Chapada ainda era o maior município do mundo. A segunda edição, ampliada, recebeu o título de História Atualizada de Chapada dos Guimarães, editada pela UFMT, inclui o festival, Manso e Salgadeira. O poeta está com um terceiro livro no prelo: Ressonâncias Poéticas, que deverá sair pela editora Entrelinhas, ainda este ano. Este ano o empreendedor que nos anos 70, em Chapada, inaugurou a boate Patucha, acrônimo de Panorama Turístico de Chapada, agora volta e, em junho, junto com o lançamento do DVD, abrirá, em Cuiabá, o Clube do Rasqueadeiros, um espaço voltado para a música regional.