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Cuiabá MT, Quinta-feira, 11 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 01 de Setembro de 2012, 11h:36

CRÔNICAS

João e Maria, e o que veio depois

As diferentes viagens inventadas e/ou reportadas pelos colaboradores do Caderno permanecem recorrentes em mais um final de semana. Bem vindos os leitores

Juliana Curvo*
Especial para o Diário de Cuiabá
“O homem não tivera nem um momento de paz desde que deixara os filhos na floresta, mas a mulher já morrera. Maria sacudiu seu avental e as pérolas e as pedras preciosas saíram pulando pelo chão, e João tirava dos bolsos um punhado atrás do outro e as juntava àquelas. Então, todas as tristezas tiveram fim, e eles viveram juntos e felizes.” Este é o final de João e Maria inventado pelos Irmãos Grimm. Mas, sempre penso o que pode acontecer depois do final feliz? Como a vida vale a pena ser re-inventada, aqui vai: De manhã cedo, de um dia qualquer, Maria, que agora tinha uma escrava por conta de todo o seu dinheiro, resolveu perguntar para o pai quem era sua mãe. O pai estava um pouco bêbado, experimentando um puro malte 12 anos e disse a verdade: eu não sei, não sou seu pai. Maria chorou por 12 dias e declarou todo o seu amor por João. Assim, João e Maria casaram-se e deixaram essa coisa de felicidade no limite do questionável (é possível ser feliz? o que é ser feliz?). Eu sou filha de João e Maria. Na minha casa sempre tivemos poucos doces, em função de crises de pânico, João tornara-se extremamente saudável e Maria desenvolveu diabetes. João e Maria ensinaram-me, desde pequena, a não deixar de rastro apenas migalhas de pão, ou os pássaros comeriam e eu não saberia voltar para casa. Mas, é preciso sempre deixar rastros. Por falta de aptidão para muito escolher, acabei por deixar pedaços meus por onde passei: sempre marcando o caminho por onde deveria voltar. Um dia, na hora de voltar do trabalho para casa, não encontrei minhas migalhas. Quais pássaros haviam se alimentado dos meus pedaços? senti-me uma mistura de Alice com Dorothy - adoro sapatos vermelhos e não há lugar como o nosso lar. Em meio ao meu desespero (qual caminho eu deveria tomar?) minhas mãos ficaram frias e trêmulas, meu coração palpitante e com a exata sensação de estar morrendo (quantas pessoas observam suas próprias atitudes?). Depois do medo, veio um frio na barriga, inexplicável. Foi a primeira vez que perdi meu caminho para casa. Depois que o pânico apaziguou, nasceu uma alegria contagiante. O sol se foi e a lua pôs-se a sorrir diante de mim, em um céu de encantar. Era a leveza de andar sem sentido. Mas, quando consegui voltar para casa, João e Maria estavam aflitos e eu disse-lhes sem pestanejar: Eu me perdi e agora me basto! João e Maria tiveram um pouco de medo. Foi até um tanto constrangedor. Falaram sobre a importância de saber sempre onde estar, para onde ir, como voltar. Do equilíbrio necessário ao bom viver. Neste dia, como se estivesse fazendo poesia, Maria cozinhou um doce de abacaxi, com cravo e canela e fez bolo de fubá com goiabada. Além de pão, biscoito de nata, francisquito. Para beber fez café, chá de hortelã. Eu, João e Maria comemos na mesa da cozinha, carinhando as vezes a gata branca, que passava por debaixo da mesa, enroscando o rabo nas nossas pernas. Terminado o nosso chá das cinco, João e Maria, entristecidos e sábios, disseram que o bom de se perder é encontrar. Não apenas encontrar o caminho de volta e sim essa coisa quente e amarga que é ser você mesmo. Eu juntei meia dúzia de lágrimas e algumas roupas, dois livros que lia simultaneamente e disse que precisava ir, voltar para o trabalho. Maria arrumou em uma sacola uns pedaços de bolo, outros de pão, biscoitos de nata e francisquito. Maria cozinhava seus rastros. João deu-me um beijo na testa e disse que para casa eu sempre voltaria, mesmo sem rastros. João tinha certeza dos seus. Quando eu saí, João e Maria ficaram no portão branco, esperando eu sumir da vista deles. Enquanto eu fazia o meu caminho, não deixei de ter medo (e achei que apenas caminhar já era de grande superação) e fui cantarolando uma música que no final, falava mais ou menos assim: “Agora era fatal que o faz-de-conta terminasse assim/Pra lá desse quintal era uma noite que não tem mais fim/Pois você sumiu no mundo sem me avisar/E agora eu era um louco a perguntar o que é que a vida vai fazer de mim”. (Chico Buarque) *Juliana Curvo é professora de literatura e colabora com o DC Ilustrado ([email protected])

Edição EDIÇÃO 16960




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