ILUSTRADO
Sábado, 27 de Abril de 2013, 12h:39
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A CIDADE VIVE DOS QUE VIVEM E VIVERAM NELA
JAIRO: FECHAREI AS PORTAS NO PRÓXIMO DIA 30 DE ABRIL
Evaldo de Barros
Especial para o Diário de Cuiabá
Jaires, esse é o seu nome verdadeiro, foi aeroviário, trabalhando na Real e na Paraense Transportes Aéreos, na Companhia Aérea Cruzeiro do Sul, na Avenida Presidente Vargas esquina da Rua Barão de Melgaço, no tempo em que o benquisto Soares era o gerente. Como sempre gostou de atuar como goleiro nas peladas do tempo de criança foi convidado para ser o guarda metas do aeroviário, um simpático time que jogava com desenvoltura e competitividade no Estádio Presidente Dutra contra times de renome: Mixto, Dom Bosco, Operário, Atlético, etc. Depois da incursão pelo futebol Jairo montou um barzinho na Rua Candido Mariano, na descidona, entre a Estevão de Mendonça e a Castelo Branco e ali passou a fazer tira gosto para a freguesia. Ampliou o negócio e o transformou em restaurante: modesto, mas oferecendo o melhor peixe da cidade, sobretudo pacu e pintado. Aos domingos a casa lotava e era preciso ficar na fila de espera aguardando uma mesa vazia. A freguesia sempre foi formada por pessoas de fino trato: socialites, advogados, promotores, juízes, bancários, empresários, etc. faziam diariamente o happy hour na Peixaria do Jairo estendendo-o muitas vezes para o jantar que era encomendado enquanto se disputavam partidas de bozó, de truco espanhol, de palito (a celebre porrinha) este com vários participantes em roda e o risca-risca também com vários participantes ao redor da mesa. As apostas consistiam quase sempre em cervejas ou à despesa da mesa. Alguns perus pessoas que ficavam assistindo as partidas, mas sem dar palpite bebiam e comiam às custas dos disputantes. O Bar do Jairo fez história! Depois, por questões particulares, mudou-se para o bairro Santa Helena, exatamente na confluência das ruas São Sebastião com a Presidente Marques. Há pouco mais de 01 ano voltou ao antigo endereço na Candido Mariano e estava disposto a impulsionar novamente o negócio. Mas...vejamos a sua entrevista. DC ILUSTRADO - Conte-nos o início de sua história sr. Jairo? JAIRES - Bem, o meu verdadeiro nome é Jaires Alves Ferreira, filho de Joakin Alves Ferreira e D. Adelina Alves Ferreira. O cuiabano aportuguesou o meu nome e quase todo mundo me chama Jairo. Sou filho único, tive como primeira professora a famosa professora Noemia que sempre brilhou na Escola Adalgisa de Barros, no Bosque Municipal, onde hoje está instalado o restaurante Canela Fina. Nasci no dia 20 de outubro de 1937 e durante toda a minha vida morei no bairro goiabeiras. Estudei, depois, no Colégio Estadual de Mato Grosso, hoje Liceu Cuiabano Maria de Arruda Müller, mas não conclui o curso científico. DC ILUSTRADO - O sr. serviu o Exército? JAIRES - Servi o Exército no antigo 16º Batalhão de Caçadores e o meu comandante foi o saudoso coronel Octayde Jorge da Silva que muito contribuiu para a minha formação. Lembro-me de alguns colegas de farda como Ivan Delamonica, Botelho, José Mota, Vitalino José da Cruz, o célebre Zé papagaio de saudosa lembrança. DC ILUSTRADO - E os amigos da infância e adolescência? JAIRES - Naquele tempo amigo era amigo de verdade, companheiro para todas as horas. Recordo-me do sr. Antonio Basílio, do seu filho Vaduca (Evaldo) João Marimbondo, Poxoréo, Milton Maria Bonita, Dito Mato Grosso, Cardinho (Ricardo), Mauricinho, Nelio Cuiabano (Pechicha), Benjamim, Zé Marques, Dito BR, Mario Bife, Arides, Nhá Gorda, você e Gilson, etc. Por esse tempo toda a gurizada estudava e jogava bola nos campos do Colégio Estadual e da Mãe dos Homens, na hoje Praça Clóvis Cardoso. Também disputávamos corridas até o Ribeirão da Ponte ou até o Lar Carioca, nas proximidades da ponte Júlio Müller, no rio Cuiabá. Quem chegava em primeiro lugar ganhava rapadura, cacau ou bananinha de prêmio. No Ribeirão da Ponte a água era limpíssima, potável e nós tomávamos banho nas praias de areia branca existentes em seu curso. Nós éramos felizes e sabíamos disso! DC ILUSTRADO - Conte-nos de seus empregos. JAIRES - Tão logo dei baixa no exército fui trabalhar na Real Transportes Aéreos. Depois me transferi para o Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul onde fui ser despachante de aeroporto. DC ILUSTRADO - Na sua história de vida consta que o sr. foi atleta de futebol? JAIRES - Realmente, Evaldo. Primeiro eu fui goleiro titular do Clube Dom Bosco. Depois, como aeroviário, o meu gerente, sr. Soares, escalou-me como goleiro do time. DC ILUSTRADO - O sr. se recorda da escalação completa do aeroviário? JAIRES - O aeroviário, conforme você testemunhou, foi um timaço que jogava de igual para igual com o Mixto, Dom Bosco, Atlético, Operário e outros. Vou tentar mencionar a formação do time. Se estiver errado que me desculpem os antigos companheiros de equipe. Era a seguinte: Jairo, Flaviano e Praxedes, Vilas, Carneirinho e Rodrigues, Arlindo, Olívio, Mauricinho, Cindé, Luiz Toucinho e Mitu, que se revezavam. DC ILUSTRADO - E qual era o melhor jogador do aeroviário? JAIRES - Que me desculpem os demais atletas, mas na minha opinião o maior e melhor jogador do aeroviário era o meio de campo Arlindo que trabalhou muitos anos no setor de gás da antiga Casa Haddad. Ele era muito bom de bola e garantia o nosso sucesso nos jogos que disputávamos no Dutrinha. DC ILUSTRADO - E o melhor da cidade e o melhor de todos os tempos? JAIRES - O melhor da cidade no meu tempo de atleta foi o Fernando Fulepa, goleiro do Clube Atlético Mato-grossense, o galo cuiabano, e depois do Mixto Esporte Clube. Ele era um goleiraço que a todos encantava. Quanto ao melhor jogador de Cuiabá de todos os tempos, na minha opinião, foi o Leônidas. Ele foi o mestre do futebol de Mato Grosso porque era completo: jogava com o corpo, com a cabeça e com os pés. Exceto a figura espetacular do Leônidas tivemos mais craques nas pessoas do Jinho Portela e do Arlindo que, reitero, jogava muita bola. DC ILUSTRADO - E o casamento, a família, Jaires? JAIRES - Casei-me com a saudosa Natália e como estava desempregado fui mexer com roça no sitio do meu sogro Aristeu Pinheiro. Tive com a Natália uma família numerosa de dez filhos: Telma, Márcio, Viviane, Marquinho, Mario, Thais, Rodrigo, Neia, Marcelo e Moacir. Graças a Deus e a muito trabalho nosso conseguimos educar e formar todos eles. DC ILUSTRADO - Não deu certo a vida rural? JAIRES - Acho que não era a minha praia. Naquele tempo o trabalho era braçal e eu não me adaptei com a roça. Retornando a Cuiabá fui trabalhar na Paraense Transportes Aéreos dando sequência à minha vocação de aeroviário. Finalmente fui trabalhar no Dermat e lá permaneci mais de vinte e cinco anos e me aposentei. Quando já estava no Dermat, para melhorar o orçamento e acudir as necessidades da numerosa prole, passei a tocar no período noturno a peixaria na Rua Candido Mariano, no baixadão entre a Rua Estevão de Mendonça e a Travessa da Guia, atual Castelo Branco. Quer dizer, eu trabalhava durante todo o dia e descansava à noite com a peixaria. Se você me permite deixar a modéstia de lado quero declarar que nunca fui preguiçoso. Enfrentava o trabalho porque sempre soube que só no dicionário o sucesso vem antes do trabalho. DC ILUSTRADO - Alguns fregueses de carteirinha? JAIRES - Muitos e devo muito a eles pela fidelidade. Fernando de Mesquita, Romulo Corrêa da Costa, Satiro Oliveira, Eliezer, Lourival, Evaldo de Barros, Geraldo Grunwald, Nhá Gorda, André Ministro, Armanti, Aluisio Póvoas, Glauco Marcelo e toda a patota do futebol cuiabano que sempre me prestigiou e lotava o meu estabelecimento diariamente. A partir das 17 horas a casa ficava cheia. DC ILUSTRADO - Mas o antigo Jairo deu uma parada, não? JAIRES - Sim, por questões particulares, mantive uma união com D. Ledeir e tocamos o Pacu de Ouro no bairro Santa Helena. Mas sempre respeitei D. Natália e D. Ledeir e diariamente mantínhamos contatos. Há pouco mais de um ano retornei para o antigo lar e arregacei as mangas com a Natália e conseguimos o retorno gradual dos fregueses e amigos. Mas não deu certo... emociona-se. DC ILUSTRADO - E por que não deu certo? JAIRES - Depois do meu retorno, a Natália veio a falecer e fiquei abaladíssimo com a falta dela. Em seguida perdi um filho e, recentemente, o meu médico diagnosticou-me como portador de arritmia e me proibiu, primeiro, trabalhar à noite. Em seguida que eu diminuísse as atividades e, assim, decidi parar para viver mais um pouco, se Deus quiser. Estou anunciando a toda Cuiabá, principalmente aos amigos e fregueses que no próximo dia 30 de abril estarei fechando as portas tanto da marmitaria como da peixaria do Jairo. O coração venceu a partida. DC ILUSTRADO - Já que o sr. está encerrando as atividades qual é o segredo para esse peixe delicioso? JAIRES - Olha, Evaldo, não tenho segredo para o meu pacu. Lavo o peixe muito bem e depois é só sal e limão. DC ILUSTRADO - Acabou o peixe no rio Cuiabá? JAIRES - Acabou. Aquele dono de peixaria que disser ser o pacu do rio está mentindo. Hoje todo mundo trabalha com o tambacu. Raramente, por exigência de um freguês especial e que não discute preço é possível conseguir no mercado do porto alguns pacus de rio. Mas isso é exceção à nova regra e custa caro. O pintado meu é do rio, mas não tenho pacu de rio e nunca enganei a freguesia. Antigamente os pescadores profissionais traziam-me em casa os peixes pescados no rio. Mas hoje isso ficou como página virada. DC ILUSTRADO - Alguma alegria ou tristeza? JAIRES - Alegrias são os meus filhos criados e educados. Tristeza foi a perda da Natália depois de dois meses do meu retorno. DC ILUSTRADO - E mágoa Jaires, alguma? JAIRES - A minha maior e única mágoa foi não ter aproveitado as chances que tive para estudar. Trabalhei arduamente de sol a sol e fiquei sem ser ninguém na vida. DC ILUSTRADO - Cuiabá de hoje é melhor ou pior que a cidade de antigamente? JAIRES - Nem é bom pensar. Eu não sei como estamos vivendo hoje. Antigamente todo mundo conhecia todo mundo e hoje não temos a fartura que tínhamos antigamente. O progresso só foi bom para a cidade, mas não foi bom para o povo. As obras da copa não vão terminar nem que a vaca tussa. CONCLUSÃO Pouco a pouco a cidade vai perdendo a graça ou ficando mais embrutecida?!... A cidade vive dos que vivem e viveram nela e nós estaremos perdendo, a partir deste 30 de abril, a já saudosa Peixaria do Jairo. Foi um ponto de encontro, de negócios, de nascimento de namoros, de entretenimentos. Como tudo que nasce um dia morre, estamos perdendo mais um local de bate papo da cuiabania tradicional. E infelizmente testemunhamos o apagar das luzes e o fechamento das portas da Peixaria do Jairo. Houve um tempo, há algum tempo, em que as pessoas deixavam seus trabalhos e suas casas para se reunir em locais fora dos bairros onde moravam. A juventude vinha para o Beto e os mais velhos para o Internacional, o Chopão, a Peixaria do Jairo e o Bar da Itala Griggi. O Beto e o Internacional não existem mais. O Jairo fecha as portas depois de amanhã. Dentre os pontos antigos ficamos com o Chopão e a Ítala para contarmos as nossas histórias.