Pensar que o ritmo das águas embala a canoa. Que a sombra de uma mangueira é o bastante para vencer na vida. Bem... Uma boa sombra de mangueira aliada ao ritmo das águas é um pouco cruel. Mas pode... Embora sempre houve um poderoso tentando tosar a crina de um menos favorecido. Mas isso pode... Não pense que todo poderoso é mal. Alguns são doentes; pacientes terminais da febre do poder. Mas e daí? Acontece que a sombra da mangueira acaba se tornando extremamente sugestiva. Como uma epidemia maligna que persegue os adeptos do trono. Pessoas tendenciosas para algum tipo de mordomia. Há de se cuidar para não exagerar e contrair uma daquelas infecções que se alastra o bastante para seguir destruindo a faculdade mental do indivíduo. Isso não pode... Só é permitido. Quando as folhas da mangueira se amarelam e se atiram pelo chão vem o primeiro sintoma, a megalomania. Quase uma gulodice maníaca. O estado do demente se acentua. Chega a ser preocupante. Quando o inverno chegar lentamente o paciente perde a razão e comete qualquer loucura por um segundo de fama; apenas um minuto de notoriedade. O suficiente para ser inesquecível. Com a auto-estima fragilizada, o infeliz é manipulado pelo poder aquisitivo do cargo que exerce. O cidadão passa a vegetar entremeio a luxúria e a avareza, com naturalidade exemplar. Quando a doença chega ao ápice só resta tapar o sol com a peneira. A mangueira já não basta! Os frutos amadurecem e vem abaixo. A sujeira toma conta do quintal. As moscas alvoroçadas zunem em algazarras de uma fruta a outra. Isso pode... *Luís Gonçalves é publicitário, escritor e colabora com o DC Ilustrado
[email protected]