ILUSTRADO
Terça-feira, 03 de Junho de 2014, 20h:20
A
A
PRA SEMPRE
Ideias que chocaram e mudaram o mundo
Há menos de 60 anos, o mundo era obrigado a aceitar que a barbárie é o que nos define. A arte também lembra
Juarez Compertino
Especial para o DC Ilustrado
O drama Hannah Arendt (Alemanha, 2013/Europa) enfoca a trajetória verídica da personagem-título, a renomada filósofa e escritora judia alemã, autora de As Origens do Totalitarismo, e traz à tona um debate político ao reconstituir os anos decisivos em que ela enfrenta a feroz oposição de meio mundo suscitada pela sua obra Eichmann em Jerusalém, em que fala da banalidade do mal própria do nazismo, com uma visão independente e intransigente. No começo dos anos 1940, refugiados de um campo de concentração nazista na França, Hannah Arendt (a ótima Barbara Sukowa) e seu marido Heinrich (Axel Milber) chegaram aos Estados Unidos, onde tornaram-se professores universitários. Para ela, a América é um sonho, e se torna ainda mais interessante quando, já na década de 1960, surge a oportunidade de cobrir o julgamento do nazista Adolf Eichmann para a revista The New Yorker. Ela viaja até Israel, e na volta escreve todas as suas impressões e o que aconteceu, e a revista separa tudo em cinco artigos, antes de editá-los em livro. Só que aí começa o verdadeiro drama de Hannah: ela mostra nos artigos que nem todos que praticaram os crimes de guerra eram monstros, e relata também o envolvimento de alguns judeus na matança dos seus iguais. De acordo com a personagem, a figura de Eichmann foi só mais um medíocre burocrata cumpridor de ordens que desempenhou com diligência a tarefa de conduzir multidões à morte em campos como Auschwitz, não por fervor ideológico ou por ódio racista, mas porque assim exigiam as circunstâncias de seu cargo a serviço do nazismo. Além disso, enfatizou a existência de certa convivência de lideranças judaicas, os chamados Conselhos Judaicos, nos extermínios. Essas opiniões, claro, provocaram reações passionais. A sociedade se volta contra ela e a New Yorker, e as críticas são tão fortes que até mesmo seus amigos mais próximos se assustam. Hannah em nenhum momento pensa em voltar atrás, mantendo sempre a mesma posição, mesmo com todo mundo contra ela -- a sequência em que a protagonista se defende das acusações diante de uma plateia, rebatendo críticas em relação à sua conduta moral, mostra toda a radicalidade da sua inteligência. A cineasta alemã Margarethe Von Trotta (Rosa Luxemburgo, Sangue no Front) faz um belo e vigoroso retrato de Hannah Arendt com uma bem cuidada produção, valorizada por texto consiste, narrativa envolvente, imagens de arquivo, em preto e branco, do julgamento de Eichmann e, sobretudo, pela detalhista e enérgica interpretação de sua atriz, que personifica e realça ainda mais a personalidade dessa corajosa mulher, uma intelectual cujas ideias mudaram o mundo.